Onde está a solidariedade no meio científico?

Giselle Quaesner¹

Trilhar o caminho da ciência, comumente, provoca no/a pesquisador/a uma ou várias mudanças na percepção do mundo à sua volta. O papel do/a cientista na sociedade é o de investigar, buscar respostas, bem como encontrar soluções para os problemas sociais ou procurar formas de proporcionar o bem-estar coletivo. Quando o/a pesquisador/a escolhe as ciências sociais, políticas e econômicas, no entanto, a busca por desvendar os segredos do mundo e compreender as relações entre os indivíduos acaba desvelando algumas realidades que, até então, permaneciam latentes no interior do ser, confortavelmente ofuscadas pelo alcance das experiências cotidianas.

A partir desse desvelamento, o percurso que muitos/as cientistas escolhem, entretanto, é o da crítica social e da exposição das desigualdades não observadas ou ignoradas pela população que não se encontra em estado de vulnerabilidade social. Desse modo, muito se pesquisa sobre os problemas e, em alguns casos, sobre as possíveis soluções, contudo, na prática diária, nem sempre há aplicabilidade ou, até mesmo, interesse em se responsabilizar pelas mudanças necessárias ao alcance de um mundo justo, solidário e equitativo. Por que fazer isso?

A inquietação pelo potencial pouco explorado dos seres humanos é elucidada pelo filósofo René Descartes (1994), em “Obra Escolhida”, o qual cita: “Pois não é suficiente ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem” (p. 41), sendo assim, compreende-se que a reflexão sobre essa temática se estende por um longo período, sem grandes mudanças. Qual então é a solução para esse impasse? A disseminação da prática da solidariedade.

Piotr Kropotkin (2009), teórico anarquista, se preocupou em estudar, analisar e buscar exemplos na natureza e em diversos períodos históricos da sociedade sobre a prática solidária, a ajuda mútua, que, para o autor, se faz presente na essência dos seres vivos, mesmo no mundo animal, conhecido, até então, pela ideia Darwiniana de presas e predadores, na qual apenas os mais aptos sobrevivem. Desse modo, com exemplos práticos, o escritor revela que grupos de animais se unem para proteger seus companheiros de predadores ou situações perigosas. Esse mesmo potencial de união e proteção, segundo o escritor, se encontra abrasivo nos seres humanos.

O amor, a simpatia e o altruísmo por certo desempenham papel crucial no desenvolvimento progressivo de nossos sentimentos morais. Mas não é no amor, e nem mesmo na simpatia, que a sociedade se baseia. É na percepção – mesmo que apenas no estágio do instinto – da solidariedade humana. É o reconhecimento inconsciente da força que cada homem obtém da prática da ajuda mútua; da íntima dependência que a felicidade de cada um tem da felicidade de todos; e do senso de justiça ou de equidade que leva o indivíduo a considerar os direitos de todos os outros indivíduos iguais aos seus” (KROPOTKIN, 2009, p. 15).

Por que então estamos tão longe de alcançar, no meio acadêmico, esse potencial solidário que molda a nossa essência? Não deveriam os/as cientistas, especialmente aqueles/as que estudam as relações sociais, que tanto se preocupam a ideia do bem-estar coletivo, disseminar o conteúdo de suas explorações, as quais provam a capacidade humana de modificar o mundo, aplicando-as como forma de iniciar o processo de transformação da sociedade?

A resposta para essas perguntas talvez se encontre na estrutura que molda os espaços nos quais se produz ciência. A presença de um positivismo, sobretudo aquele proposto por Augusto Comte, direciona pesquisadores/as a assumirem a postura de meros expectadores, cujo objetivo é apresentar uma pesquisa imparcial, neutra e livre de induções. Outro agravante é a construção de uma figura mítica do/a cientista como o possuidor da verdade obtida por meio de dados imutáveis e catalogados por um sistema sem falhas.

A apresentação dos resultados de forma padronizada e linear facilita tanto o trabalho do/a cientista, quanto do/a avaliador/a dos resultados, desse modo não se pode considerar total desvantagem na aplicação de métodos positivistas, contudo é impossível ao/à pesquisador/a assumir uma postura puramente racional durante a coleta de seus dados e no período de análise dos resultados. Sendo assim, o primeiro passo para refletir sobre a questão da solidariedade e o meio científico é o de repensar se o sistema permite aos/às pesquisadores/as que explorem e apliquem o próprio potencial de ajuda mútua.

Compreende-se então que a tarefa de refletir sobre as questões inerentes ao ser, assumida pela filosofia em diversas vertentes, deveria perpassar todos os campos de estudo, mesmo das ciências duras, para relembrar que por trás de um/a pesquisador/a, grupo ou sistema, há seres humanos, almas, essências que coexistem e dependem umas das outras para a sobrevivência dos indivíduos, grupos ou, até mesmo do sistema, pois, quando se utiliza a palavra “sistema”, muitas vezes, se esquece que ele é construído e mantido por pessoas e suas relações, sejam elas diretas ou indiretas.

Partindo dessa premissa, indaga-se: onde está o bem-estar coletivo no meio científico? Embaixo de uma cobrança social pela figura mítica dos/as detentores/as da verdade e do resultado preciso, a qual está atrelada a uma indústria cultural, tão criticada por Theodor Adorno (2002). Sendo assim, entende-se que os/as pesquisadores/as não se sentem livres para desenvolverem métodos e realizarem análises que fujam dos padrões impostos por uma sociedade sedenta por resultados precisos e imutáveis. Esse sentimento acaba gerando problemas psicológicos e interfere no convívio social, o que afeta diretamente o potencial solidário que cada um/a carrega dentro de si.

Repensar a solidariedade no meio científico é repensar a própria ciência e a forma como é estruturada e apresentada à sociedade, bem como repensar a forma como a sociedade deseja receber os resultados provenientes desse campo de atuação. Como saída, pode-se utilizar a filosofia para ajudar a curar os males sociais e contribuir para um mundo que explore os melhores recursos presentes no interior de cada indivíduo, pois é por meio do questionamento e da reflexão que se obtém respostas até para o que se pensa ser inexplicável. 

Referências

ADORNO, Theodor W. Indústria Cultural e Sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

DESCARTES, Réne. Obra Escolhida. Capítulo: Discurso do método. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.

KROPOTKIN, Piotr. Ajuda mútua: um fator de evolução. São Sebastião: A Senhora Editora, 2009.

¹Doutoranda em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Bolsista pela Capes.

Como citar:
QUAESNER, Giselle. Onde está a solidariedade no meio científico? Nuevo Blog. Disponível em: https://nuevoblogbr.wordpress.com/2020/03/24/onde-esta-a-solidariedade-no-meio-cientifico. Acesso em: ??

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