Como o governo brasileiro está lidando com o problema do Covid-19?

Valdemir Pires¹

A saúde pública está enfrentando neste momento (março de 2020) um de seus maiores e inesperados desafios: o impacto de uma pandemia iniciada em janeiro, na China.

O chamado coronavírus ou Covid-19 alastrou-se rapidamente pelo mundo, causando enormes estragos na Europa, mormente na Itália, por falta dos devidos cuidados (ausência de medidas de isolamento social). É, incrivelmente, essa mesma desastrosa falta de cuidado que parte do governo brasileiro, seu presidente à frente, vem defendendo, sob a alegação de que travar a economia é um custo desproporcional ao número “pouco significativo’ de mortes que o vírus provocará.

O governo brasileiro (enquanto estrutura governamental perene – Estado) é um caso exemplar em saúde pública, experimentado no combate a doenças tropicais (como a persistente dengue) e, sobretudo, mantenedor de um Sistema Único de Saúde (SUS) digno de ser copiado mundo afora (em que pese a insuficiência de recursos para  a sustentação de seu princípio de universalidade e gratuidade). Estrutura governamental, portanto, com capacidade singular para lidar com o atual problema do Covid-19.

Ocorre, porém, que o governo brasileiro (enquanto gestão atual, administração Jair Bolsonaro) vem se dedicando, desde seu início, e virulentamente, ao desmanche das políticas públicas antes praticadas, principalmente no campo da saúde e da previdência e assistência social. Este comportamento político tem se baseado, até aqui, em dois elementos: primeiro: combate ideológico incisivo (negação e ataque a tudo que possa ser ou parecer “de esquerda”, com carregamento nas tintas quando se trata de itens defendidos ou implementados pelo Partido dos Trabalhadores); segundo: total ausência de cuidado com  o conhecimento e desconsideração a dados e informações para entender, decidir e agir no cumprimento das obrigações governamentais.

Jair Bolsonaro e seus principais colaboradores, escolhidos a dedo para se assemelharem ao mandatário em ignorância e insensibilidade, escancarou, às vésperas do outono, diante da pandemia, a natureza retrógrada e incompetente de sua gestão, deixando a sociedade à mercê do coronavírus.  Outras forças políticas (na sociedade civil e no interior do próprio governo), felizmente, estão reagindo (ao que o tresloucado presidente responde mobilizando seus correligionários, em número declinante, mas ainda expressivo).

Está em jogo, neste momento, não só a questão de quantos serão os mortos — quarenta mil, quatrocentos mil ou mais de um milhão, conforme as medidas adotadas –,  mas também se o Estado brasileiro será ou não dizimado (aí incluída sua soberania em relação aos Estados Unidos) pela ação de um governo que alguns chamam de neoliberal, outros de fascista, e alguns de miliciano, mas que, de fato, nem chega a ser governo, caracterizando-se cada dia mais como um grupo desorganizado sob o comando de alguém de cuja saúde mental se pode duvidar. Trata-se, em outras palavras, de um governo que está tão abaixo dos níveis políticos e administrativos a que o mundo moderno se acostumou, que é difícil de vencer com as armas convencionais existentes para isso. Que seja ele, este governo da vergonha histórica, e não milhões de brasileiros, a principal vítima do coronavírus no Brasil, já que as lideranças políticas nacionais, as instituições do Estado de Direito  e a sociedade  civil organizada parecem, desde o início  da crise política pós-impeachment de Dilma, não reunir forças para produzir este feito, de que depende a saúde da economia, da democracia e da cultura brasileira.

No meio deste jogo insano, que vem consumindo as esperanças dos cidadãos comuns e minando a capacidade de resistência até mesmo de gente de proa da militância oposicionista, começam a surgir lampejos de resgate de uma sensibilidade social já soterrada: posicionamentos, atitudes, doações – a solidariedade retornando, a compaixão se  insinuando. E não, compaixão e solidariedade não são de esquerda: elas são a face visível (a se contrapor à mão invisível do mercado) de um mundo de que os homens podem se sentir dignos e no qual podem viver orgulhosos de sua capacidade de  conviver com o outro de modo construtivo, justo, bom e belo.

— Não, capitão, você não porá fim ao nosso jardim. As flores que você está  pisoteando não são extermináveis, pois elas brotam e rebrotam na primavera (ainda que possam falhar uma ou outra vez), com ou sem cuidados, maltratadas ou não. Elas são a essência do humano. Nem você nem seus iguais na economia e na política globais podem deter sua germinação e o despontar de sua beleza. Mato!, você diz. Mas mato, de fato, é o que você é. Rasteiro. E o coronavírus é herbicida, mais potente que o fogo da oposição.

¹Economista. Doutor em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba. Professor Assistente do Departamento de Administração Pública da Universidade Estadual Paulista (UNESP).

Como citar:
PIRES, Valdemir. Como o governo brasileiro está lidando com o problema do Covid-19? . Nuevo Blog. Disponível em: https://nuevoblogbr.wordpress.com/2020/03/31/como-o-governo-brasileiro-esta-lidando-com-o-problema-do-covid-19/ . Acesso em: ??

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