Quantos mortos vamos poder enterrar nos próximos dias por causa dessa pandemia?

Francis Kanashiro Meneghetti¹

Meu avô paterno, Zeferino Meneghetti, era um homem quieto, de poucas palavras. Era frequente vê-lo chorar na frente da televisão, seja assistindo um filme ou vendo o noticiário. Um dia percebi que ele chorava mais pelos que teriam que viver sem seus entes amados do que, necessariamente, pelas vítimas. Meu avô Zéfi (apelido carinhoso dado a ele pelos netos) ensinou-me a chorar.

Meu avô materno, Zenshi Kanashiro, era um homem disciplinado. Tinha horário para acordar, fazer seus alongamentos, estudar estatística para jogar na loteria, ler seu jornal na sua língua natal, tocar o seu sanshin (instrumento de cordas típico de Okinawa). Em uma oportunidade perguntei-lhe como foi a viagem de Okinawa (ilha no extremo sul do Japão) até o Brasil, a quase nove décadas atrás. Disse-me que passou quase quarenta dias em um porão de navio e, praticamente, a única coisa que comia era batata doce. Perguntei-lhe se muitas pessoas morreram na viagem. Não me disse nada, apenas baixou a cabeça como na reverência oriental e vi seus olhos lacrimejarem, algo raro de acontecer. Meu Oji (forma reduzida da palavra “Ojīsan” que significa avô em japonês) ensinou-me a chorar, discretamente.

Minha avó paterna, Rosália Galvan Meneghetti, era uma mulher simples. A Vó Rosa arrancava alegria dos filhos e netos com sua comida, única e perfeita! Viveu para a família. Não sabia ler. Tinha dificuldade com os números. Mas orava por todos seus familiares, conhecidos e para quem precisasse de orações. No dia do funeral do meu pai, seu filho amado, quis levar o caixão, mas eu não a deixei. Foi, então, ao meu lado, agarrada ao meu braço. Neste dia, eu não chorei mesmo sendo o enterro do meu pai. Fiquei firme porque queria ampará-la e sustentá-la na dor de perder um filho. Minha avó me ensinou a chorar, mesmo sem derramar lágrimas.

Quando meu avô Zéfi morreu, chorei pela falta que me faria. Chorei também pelas boas lembranças que deixava. Hoje, sou lhe grato por ter me ensinado a chorar pelo sofrimento dos outros, mesmo que eu não os conheça.

Quando meu avô Oji morreu, chorei pela falta que me faria. Chorei também pelas boas lembranças que deixava. Hoje, sou lhe grato por ter me ensinado o respeito aos que morreram, mesmo que sejam anônimos na busca de uma vida melhor.

Quando minha avó Rosa morreu, chorei pela falta que me faria. Chorei também pelas boas lembranças que deixava. Hoje, sou lhe grato por ter me ensinado a ajudar e sustentar alguém que sofre mais do que eu por causa da morte de um ente querido.

A possibilidade de enterrá-los permitiu que eu internalizasse seus valores, suas crenças, suas capacidades de reconhecer nos outros a dignidade da vida. Meus queridos avôs e minha querida avó me ensinaram que humanidade requer empatia, não só com os nossos afetos, mas principalmente com quem não conhecemos.

Uma pergunta paira em mim, ao olhar tantas luzes acesas nos prédios na frente da minha janela: será que estamos preparados a não enterrar nossos entes queridos? Será que estamos preparados a não enterrar nossos amigos? E os nossos pais? E os nossos filhos? E nossos amores? Temos vivenciado demonstrações claras que muitas pessoas não se importam com a possibilidade de que os outros não enterrem seus entes queridos. Muitos, inclusive políticos, não se preocupam com essa possibilidade, demonstrando, claramente, que flertam com o pior que pode existir em alguém, a combinação do egoísmo com a indiferença!

Aprendemos durante a vida que fatalidades podem levar as pessoas que amamos embora. É sempre uma situação difícil, de muita dor e sofrimento. Mas o simples fato de poder enterrá-las (no sentido de realizar uma cerimônia ou ritual, religioso ou não, ou seja, de vivenciar um rito de passagem) é essencial para senão a superação da dor e do sofrimento pelo menos suas amenizações. Poder fazer o rito de passagem da morte de alguém, próximo ou não, é estruturante na subjetividade individual e na formação da identidade coletiva, conforme já nos mostrou Freud em Totem e Tabu, a história de Príamo com seu filho Heitor e o assassino dele, Aquiles, ou com a descoberta do funeral mais antigo da história, datada de 50 mil antes de Cristo na cova de La Chapelle-aux-Saints, na França.

A situação que vivemos na atualidade, com a pandemia da COVID-19, nos coloca em uma situação bem mais complexa do que questões econômicas e de saúde. Nos coloca na necessidade de pensar a própria humanidade. Não me parece que seja o desejo da maioria das pessoas deixar de enterrar seus entes queridos ou deixar que outras pessoas sejam impedidas de enterrarem os seus. Mas, infelizmente, muitos de nós estamos na eminência de sermos impedidos de enterrar nossos avós, pais, amigos e talvez filhos. Isto já é uma realidade em países como a Itália, Espanha e na China. Em breve ocorrerá nos Estados Unidos da América e em vários outros países.

Se aceitarmos naturalmente essa situação, já estamos mortos como civilização. A partir daí é só barbárie.

Como não existe cura para a COVID-19, a ação mais eficiente é ficar em casa, conforme aponta a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a experiência nos países onde a situação é grave. O ideal é colocar o máximo de pessoas possível em isolamento, com o objetivo de evitar a sobrecarga no sistema de saúde. Não há leitos suficientes para tratar todos os doentes graves, caso aumente muito o número de pacientes.

Nesta situação, a economia deve ser organizada para possibilitar o máximo de pessoas a se colocarem em isolamento. Somente em casos extremamente necessários deve-se quebrar o isolamento, sendo por causa da essencialidade do trabalho ou para ir à farmácia, ao supermercado, ao hospital nos casos indicados. Se é preciso investir na estrutura da saúde, que façamos. Se é necessário “distribuir” dinheiro aos que necessitam, que façamos! Se é preciso regulamentar as ações dos privados em favor do público, que façamos! Se é preciso privatizar, que façamos! Se é preciso investir maciçamente na ciência, que façamos!  Se é preciso conter os genocidas, que façamos! É claro que existem contingencias ou situações particulares, mas lidar com as exceções também deve estar orientada para garantir a vida. Porque se chegarmos a ter que enterrar nossos mortos sem um funeral digno, da mesma forma como jogamos lixo nos aterros sanitários, é porque demos muito errado como humanidade.

O primeiro funeral (ritual) ocorrido 50 mil anos antes de Cristo ocorreu antes de qualquer organização consciente da economia ou mesmo dos cuidados da saúde. A preocupação era sobreviver e fazia-se isso sem as amarras da racionalidade científica. Mas foi a empatia pelo morto, pela dor dos que ficaram, pela simples possibilidade de perceber que um dia inevitavelmente estaremos no lugar dos que sofrem e dos que morrem (piedade natural, segundo Jean-Jacques Rousseau) que possibilitou nos reconhecermos como humanos. E o ritual do sepultamento, da cremação, do enterro, do cuidado do corpo do morto, religioso ou não, é, na realidade, um cuidado do afeto dos que ficam (Indico o filme japonês “A Partida”, de direção de Yojiro Takita).

Se ainda posso sentir e pensar (pois não há dicotomia entre eles) assim com um pouco mais de empatia é porque pude enterrar meus avôs e minha avó, depois de terem me ensinado que o mais importante é a VIDA e que a possibilidade de celebrar o seu fim de forma digna é fundamental para nos reconhecermos como humanidade!

¹Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade (PPGTE) e no Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA) na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
MENEGHETTI, Francis Kanashiro. Quantos mortos vamos poder enterrar nos próximos dias por causa dessa pandemia? Nuevo Blog. Disponível em: https://nuevoblogbr.wordpress.com/2020/04/01/quantos-mortos-vamos-poder-enterrar-nos-proximos-dias-por-causa-dessa-pandemia/ . Acesso em: ??

4 pensamentos

  1. Parabéns pelo texto, é uma excelente reflexão. Quando dizem que essa pandemia vai redefinir o mundo, nunca pensei em estivessem mais certos.
    Seu texto me fez pensar: apenas nesse cenário de catástrofe mundial o mundo veio a refletir sobre os mortos.
    Só no Brasil já passamos por tantos desastres, como chacina em comunidades, tragédias envolvendo mineradora…
    Mas em nenhum momento tratamos os mortos como seres humanos. Foram apenas números, que geraram pena.. e nada além disso.
    Talvez, essa falta de empatia, solidariedade, e até mesmo de comoção… Resultou nessa necropolitica, nesse discurso de ódio e repúdio a vida humana.
    É triste pensar que nós enquanto sociedade precisaríamos de mortes em massa para abrir os olhos e rever nossos valores.

    Mais uma vez, parabéns pela reflexão.

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  2. Caro, Francis, comovente sua reflexão, e me toca muito, pois ou destas que vão ao funeral para abraçar a família, também vou ao cemitério “visitar’ os mais próximos, forma de viver o luto, bastante eficaz, por sinal.
    Choro quando vejo uma cena na mídias de pessoas sendo enterradas, sem terem sido veladas com dignidade. Creio que não serei a mesma se tiver que passar por isso com os meus, e respondendo a sua questão: não, eu não estou preparada, se tiver que perder alguém e sequer poder velar e enterrar. Que quebra de paradigma!
    Parabéns!

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  3. Parabéns, Francis.
    Neste momento de turbulência e apreensão que vivenciamos, encontrar um texto que nos leva a reflexão e, ao mesmo tempo, nos permitir pensar e repensar que não estamos preparados para enfrentar as “possíveis perdas” advindas do contágio pelo Coronavírus, nos faz mergulhar em busca de situações que nos encoragem para o enfretamento necessário em busca da sobrevivência com saúde e respeito aos nossos semelhantes.
    Acredito que essa pandemia será um marco de mudança nas relações intepessoais e, talvez, possa servir para a melhoria das relações entre as nações.

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