Depoimento de uma pesquisadora na Itália

Patrícia Guarnieri¹

Atuo como professora da Universidade de Brasília – UnB na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Gestão de Políticas Públicas, departamento de Administração, nas áreas de Logística, Supply Chain Management e Economia Circular.

Em setembro de 2019 iniciei um pós-doutorado na Università di Bologna, Itália, no departamento de Engenharia Industrial. Assim que cheguei, fui integrada nos projetos, do meu supervisor, então cerca de 3 vezes por semana (em média) eu viajava para cidades da região (Cesena, Cesenatico, San Mauro Pascoli, Rimini e Bologna), pois minha jornada de trabalho ocorria em empresas participantes dos projetos de forma a viabilizar a coleta de dados.

Devido à epidemia do COVID-19, no dia 26-02-2020, o reitor da Università di Bologna (Unibo) enviou e-mail a todos os professores, pesquisadores e alunos suspendendo as aulas presenciais, mas solicitando que as atividades de pesquisa e administrativas continuassem, e que observássemos as instruções de prevenção, distância de 1 metro dos colegas, entre outras.  Depois do dia 26, em uma semana a Unibo se adaptou e viabilizou a estrutura para aulas EAD, mas os professores ainda estavam se locomovendo à universidade para transmitir as aulas via web conferência, assim como eu que continuei me deslocando para trabalhar no escritório, com pouquíssimas pessoas. No entanto, no dia 11-03-19, mesmo dia em que Tedros Adhanom, diretor geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou a elevação do estado da contaminação de epidemia à pandemia, o governo italiano deu instruções aos cidadãos, por meio de um decreto, restringindo os deslocamentos. Para sair de casa devemos portar uma auto-declaração comprovando a real necessidade, o qual deve ser apresentado às forças policiais quando requisitado.

Desde então, a rotina de trabalho se alterou, reuniões com o grupo de pesquisa e para a coleta de dados, bancas de defesa de dissertações/teses têm ocorrido via Microsoft Teams, Skype e Hangout.  Como já havia coletado uma série de dados, tenho trabalhado nas análises, elaboração de modelos e, também, na elaboração de artigos. Sem dúvida, o home office tem sido essencial em meio à crise do COVID-19, para que nossas atividades não sejam interrompidas, no entanto nem sempre é fácil trabalhar de casa, principalmente para quem tem filhos pequenos em casa devido às escolas fechadas, como é o meu caso.

Sem dúvida, a quarentena é um desafio, em termos profissionais e, também, emocionais. Li um texto essa semana que dizia que o que estamos vivendo nesses dias de pandemia é LUTO. Tenho que concordar, pois apesar de ainda não termos sido atingidos, toda a tristeza da famílias que perderam seus entes queridos, o medo de a qualquer momento ser contagiado, a privação do direito de ir e vir e, os planos cancelados, a incerteza em não saber quando tudo isso vai acabar me afetam.

As emoções se comportam como uma montanha russa. Há dias em que o sentimento de impotência, a ansiedade, o medo e a falta de esperança tomam conta, nesses dias é impossível ser produtiva e não deixar a tristeza tomar conta. Em outros, a alegria em ver ações de solidariedade se disseminando pelo mundo, a esperança e a vontade de vencer essa crise, me fazem sentir melhor e, consequentemente, mais motivada e produtiva. 

Em meio a tudo isso, decidimos não retornar ao Brasil e tentar cumprir meu cronograma de trabalho por aqui, que até o momento está em dia e, até mesmo, superando as expectativas iniciais. Tenho vários colegas da Universidade de Brasília e outras universidades do Brasil públicas e privadas na mesma situação, no exterior, em países muito atingidos pelo COVID-19, como Espanha, Estados Unidos, Reino Unido, França, Portugal e Canadá, entre outros. Alguns atuando como professores visitantes, outros realizando pós-doutorado, outros em missões de pesquisa. Alguns sozinhos, outros com seus familiares.  Alguns decidiram voltar ao Brasil e interromper seus planos, outros como eu, decidiram ficar e tentar seguir em frente em meio a tantas restrições e pânico. Ainda tenho outros colegas e alunos que, no aeroporto ou prontos para viajar, receberam e-mails das respectivas universidades solicitando a suspensão da viagem.

Sinto por todos que foram atingidos por esse vírus, pelos planos que foram destruídos, pelas famílias e amigos que foram separados, pela perda de liberdade, pelas vidas ceifadas, pelo sofrimento dos familiares… Mas sinto ainda mais, por aqueles que hoje, não podem, como eu, se dar ao luxo de trabalhar de casa e precisam enfrentar o vírus com a cara e a coragem, trabalhando em hospitais, nas ruas, na segurança pública, na limpeza e desinfecção, nos supermercados e farmácias, aos quais agradeço de coração. Enfim… nossas vidas foram interrompidas! A economia sem dúvida sofre e sofrerá ainda mais com esse colapso, os efeitos serão devastadores. Apesar de tudo, acredito fortemente que temos que confiar na ciência, nos governantes sérios e comprometidos e, na sociedade para superar mais essa crise.

¹Doutora em Engenharia da Produção pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Professora adjunta do curso de Administração da Universidade de Brasília (UnB). Professora Visitante na Università di Bologna, Departamento de Engenharia Industrial,

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