A Patologia do Capitalismo, Coronavírus e o Cuidar

Maria Sara de Lima Dias¹

Que angústia é essa do capital? Em que se transformou a doença resignificada como pandemia? Qual a expectativa da doença em nossas vidas? A patologia do capitalismo, a doença das pessoas não é algo alheio à sua história de vida e às suas condições sociais. No momento que vamos vivendo se observa o capital cortando relações de trabalho, esfacelando valores e tradições, determinando uma competitividade extrema e enlouquecedora.  Como algo que já nos fosse natural à falta de tempo e espaço para viver. O Coronavírus, a nova doença, moderna, diretamente relacionada com o nosso modo de vida, cuja única forma de contenção é o isolamento, uma brecha em nosso sistema de mundo. Contraditoriamente avança uma ideologia de isolamento que apela para uma reconversão a si mesmo, na qual prevalece o autocuidado e a reflexão. Uma consciência interpelante de si e do outro e que seja ampliada esperamos, para uma consciência do mundo e de todas as formas de vida.

Talvez seja preciso buscar uma dimensão da consciência planetária, a nossa reconexão, o ser que se reapresenta diante do mundo. Na dialética e histórica ação do homem sobre a natureza, a dominação sempre se fez presente, agora carecemos de dominar a nós mesmos. Entre o ser que desamparado caminha entre oscilantes crenças, e aquele que sabe e detém algum conhecimento sobre a técnica e a ciência existe um abismo. Falar do capitalismo através do domínio da tecnologia é complicado, principalmente porque as ciências humanas, em geral, não refletem sobre o que significa o domínio das tecnologias. No entanto, convivemos com a tecnologia que tem mediado toda a nossa vida diária e as relações com o outro de um modo absoluto.

A doença está a testar nossa resignação e ao mesmo tempo nossa resistência, é o contínuo pêndulo que nos move a refletir sobre a espera e a esperança. De que talvez esta tecnologia toda consiga resolver um dos nossos maiores problemas do momento, que é o da saúde pública. Esta mídia constante a nos falar de uma perspectiva redentora da tecnologia, a esperança de Pandora. Mas é preciso cultivar a esperança, que nos garantirá a resistência psicológica necessária para enfrentar a crise.

Com a gravidade da pandemia, quem mais sofre certamente são os povos colonizados, que sequer atingiram um mínimo de estatuto de seguridade social. Onde domina ainda uma visão fatalista da doença como um “castigo de Deus” ou uma “conspiração chinesa”, etc. Onde a grande maioria da população não tem acesso à saúde pública ou a uma vida com qualidade alimentar e, sobretudo ainda tem que continuar trabalhando para o sistema.

Vamos vivendo e relacionando por hora a nossa doença aos problemas econômicos, sociais e políticos que sempre tivemos e com pesar pelo sofrimento mais agudo dos povos colonizados. Constatamos a nossa completa dominação imperialista, e imóveis e silenciosos aguardamos o que está por vir.

O Coronavírus nos coloca a todos em suspensão, do funcionamento cotidiano de nossa vida e trabalho.  Sem dúvida uma reforma rápida em nossa maneira de viver e o consequente bloqueio de nosso antigo modo de vida, nos leva a pensar na necessidade urgente de cuidar dos nossos afetos.  Vivemos em um estado de choque, de atenção alterada e vigilância, ou seja, estamos em constante alerta! Psicologicamente isso nos afeta, não só no estoque de alimentos, nas horas de sono e vigília, nosso corpo e atividade física, tudo é alterado. Nosso sistema imunológico se encontra em alerta, cuidar do outro, requer rever nossas crenças e valores.  Mas para cuidar é preciso resistência.

A crença na própria vida, na pausa entre o tempo de trabalho e lazer, a pausa para se alimentar sem pressa, sem culpa ou angústia. Se alimentar com qualidade de alimentos bons que sejam capazes de nutrir também nossas emoções e sentimentos, como a música por exemplo. É preciso perceber os sentimentos que surgem e que se apresentam com grande variabilidade e instabilidade. Em um só dia se vai da angústia à depressão, do desespero, ao pânico e ao terror, em um mesmo dia se sai em busca de um sorriso, de qualquer forma de prazer de alegria ou distração. Precisamos buscar o equilíbrio e nos reconectar com o tempo e a nossa nova condição de vida e de convivência.

A pandemia é um acontecer de nosso tempo. Uma situação em que vivemos sem tempo para dar atenção e ouvir o outro. O isolamento incide sobre a nossa noção de tempo e espaço agora restrito a casa. Mas é preciso aprender a construir outro tempo, mesmo que seja mediado pelo computador, mas que seja rico no afeto no olhar, no sorriso, na qualidade da atenção dispensada aos outros. Expressar nossos sentimentos nos permitirá seguir como a nossa história de vida, porque os sentimentos, afetos devem ser compartilhados, comunicados e expressos. Devemos ter a quem contar nossas dores e dissabores, alegrias e temores. Somente dando vazão a nossa expressão emocional é que a nossa razão se manterá ativa. Do contrário a lógica irracional pode nos jogar no abismo de nossa própria loucura.

¹Doutora em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pós-Doutora em Psicologia pela Universidad Autónoma de Barcelona. Professora do Departamento de Estudos Sociais (DAESO) e no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
DIAS, Maria Sara de Lima. A Patologia do Capitalismo, Coronavírus e o Cuidar. Nuevo Blog. Disponível em: https://nuevoblogbr.wordpress.com/2020/04/03/a-patologia-do-capitalismo-coronavirus-e-o-cuidar/. Acesso em: ??

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