Solidariedade ou cooperação no meio científico?

Roberto Patrus¹

No mundo acadêmico e científico, vejo muita cooperação e pouca solidariedade. Explico esse pensamento a partir do significado etimológico das palavras.

Cooperar, etimologicamente, significa trabalhar juntamente com outro, co-laborar, contribuir com o trabalho, o labor, de outro. Solidariedade advém, etimologicamente, de “sólido e consistente”. Do adjetivo derivam o substantivo solum (fundamento e apoio) e, também, os verbos solidare (consolidar, segurar, fazer sólido) e solidescere (fazer-se sólido, consolidar-se). Exercer a solidariedade implica fazer-se parte de algo maior, com vistas a solidificar, con-solidar, tornar algo sólido.

A partir dessas definições, podemos dizer que a solidariedade implica cooperação, mas a cooperação não necessariamente implica solidariedade. Quem é solidário coopera com o outro para consolidar algo maior do qual se sente parte. Cooperar é simplesmente trabalhar junto. Mas quando se coopera para consolidar algo maior (uma meta, uma cura) podemos falar em solidariedade. Para o trabalho colaborativo ganhar o adjetivo de solidário, ele tem algo além da mera cooperação pragmática. Este algo não é apenas a compreensão de cooperar com o outro, mas de saber que sua atuação consolida o todo do qual faz parte.

Vejo cooperação entre pesquisadores de um programa de pós-graduação. Vejo cooperação entre coordenadores, revisores e diretores científicos de um congresso ou de uma revista acadêmica. Mas vejo pouca solidariedade porque essas células não se veem, em geral, como parte de um todo maior, que envolve agências de fomento, ministérios, políticas públicas, e as universidades e empresas. Vejo cientistas participando de associações, órgãos reguladores e sociedades científicas muitas vezes para se promover e promover suas instituições. É o que se chama de corporativismo. Devemos sim, ter a visão de corpo, um organismo integrado, composto de muitos membros e funções diversas. Mas devemos evitar o “ismo”, que reduz a solidariedade à mera colaboração, sem a visão orgânica e sistêmica da totalidade que envolve a atividade científica.

¹Doutor em Filosofia pela Universidad Complutense de Madrid, título revalidado no Brasil, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), como equivalente a Doutor em Administração. Professor do Doutorado e Mestrado em Administração da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).

Como citar:
PATRUS, Roberto. Solidariedade ou cooperação no meio científico? Nuevo Blog. Disponível em: https://nuevoblogbr.wordpress.com/2020/04/03/solidariedade-ou-cooperacao-no-meio-cientifico/. Acesso em: ??

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