Afetos não são isoláveis

Willian Mac-Cormick Maron¹

Há algo de diferente no mundo, algo estranho. Há um impetuoso fenômeno que nos coloca em uma posição de pouca potência para agir e que nos priva de uma certa liberdade. Este fenômeno nos mostra como somos frágeis e precisamos nos cuidar. Mais do que cuidar de si, exercitamos o “cuidar do outro”, e foi justamente este “cuidar do outro” o que nos manteve vivos como espécie na história da humanidade. O real e o desamparo nos atravessam. Desamparo que se faz evidente frente a uma natureza que não está implicada com a existência do humano, que não fornece respostas e que não oferece qualquer consolo ao mesmo. Neste ponto a ciência é uma das estratégias possíveis e a mais indicada para nos responder e proteger do desamparo face a força esmagadora da natureza.

Como defesa,  se faz uma coação justificável (sim, fiquem em casa!!!) por se manter em casa que nos gera uma quebra na rotina e nos lembra da ameaça que passamos com um vírus que ronda a sociedade. Este ponto torna-se gatilho para crises depressivas e picos de ansiedade e fonte potencializadora para sofrimento e intenso mal-estar que aponta para medos, inseguranças, antecipação de cenários que são incertos. A incerteza faz parte do campo da produção de sentido e do imaginário.

O mal-estar, informação e a contabilidade da produção

Quando há um vazio de certeza e de insegurança, o imaginário como instância psíquica age e toma conta construindo e antecipando cenários. A esta antecipação repetitiva que nos governa e se torna fonte de sofrimento e mal-estar daremos nome de ansiedade. Há um intenso investimento de energia na racionalização e construção imaginária destes cenários, a ansiedade nos esgota.

Somos bombardeados de estímulos e informações em uma nova realidade que se apresenta como monotemática. Não é possível ficarmos alheios à realidade, mas a busca incessante e desenfreada por estarmos sempre informados se torna fonte intensa de sofrimento, além de nos tirar de outros aspectos da vida (outros prazeres, família, trabalho e demandas comuns). O excesso de informações gera mais tentativas de prever cenários, o que produz mais ansiedade. Esta ansiedade que buscamos aliviar com mais informações que nos aquieta, anestesia, mas apenas momentaneamente. Se informe, mas é preciso organizar e fazer a gestão do tempo investido em se informar. O aumento da ansiedade e medo podem gerar novas situações de mal-estar e sofrimento que potencializam crises.

Podemos pensar uma espécie de precarização das relações sociais e de trabalho quando nos damos conta que estamos em uma pandemia e ficamos preocupados em contabilizar produção para não parecer que estamos de férias, como se os resultados e metas fossem mais importantes que a própria situação que vivemos e que nos afeta também como humanos e profissionais. Não podemos nos esquecer da realidade, mas não podemos ser esmagados por ela. Precisamos rever relações de trabalho, não estamos em férias, mas por tal não é impossível se dar prazeres, pois seria de grande sofrimento apenas voltar ao processo cego de produção fingindo que nada lá fora acontece.           

Para reduzir a força do imaginário que nos massacra recorremos na linguagem, uma forma de diluir o sofrimento e todo sofrimento precisa ser ouvido. Onde a palavra não circula, o imaginário impera. Só a palavra nos possibilita democratizar e pluralizar a produção de sentido. A circulação da palavra possibilita a maior produção de novas subjetividades.

A palavra como caminho

Precisamos da palavra. Daquela que aparece no lugar de um ato, daquela capaz de sublimar afetos, daquela que sustenta nossas dores. A dor, quando não encontra uma palavra para ser elaborada e quando essa palavra não encontra escuta no outro, torna o sofrimento capitão de uma “nau”. Afetos buscam palavras para elaborar, para ganhar o mundo, assim como busca acolhimento em si e no outro. Nem sempre a palavra dá conta de um sentir e nem sempre a palavra é acolhida pelo outro, ouvida. Há afetos que não encontram palavras.

Sobre aquilo que não dominamos, se faz necessário falar e por tal, há de alguém ouvir, há de se construir um lugar de escuta para o sofrimento. Mas não nos esqueçamos que o lugar de escuta de um ser-humano não é uma sala, poltrona ou divã. O lugar de escuta de um ser-humano é um outro ser-humano. A palavra é o passaporte que o afeto utiliza para ganhar o mundo onde o afeto busca refúgio e acolhimento no outro.

Para diluir.

Para se consolar.

Para fazer laço.

O laço como resposta

Freud, em 1932 descreve em seu texto “Por que a guerra?” que “Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra”, se referindo a força civilizatória que os laços afetivos mantém. Este processo de instituição de laços, poderemos atribuir ao conceito de identificação. A identificação em Freud (como descrito em 1921, no texto “A psicologia das massas”) está ligada ao social e se dá em relação e em posição a um outro como um modelo, um objeto, um auxiliar ou um oponente e instaura a possibilidade da busca do laço social como forma de identificação e produção de sentido e bem-estar no prazer de usufruir bem a vida com o outro.

O laço afetivo de um humano com o outro humano se apresenta como um refúgio, como defesa contra o absolutismo da realidade que pode nos afetar, contra o sofrimento, contra violências sociais. Que lembremos que negar as diferenças é uma forma perversa de exclusão. Que possamos pensar que colocar todas as diferenças em uma posição digna, pela igualdade de direitos seja uma boa saída a ser construída em nós. Que possamos pensar o conceito de comunidade como uma forma de buscar um bem estar igualitário justamente afirmando as diferenças e as acolhendo a partir de um olhar digno para um sujeito.

Não há afetos isolados. Que possamos reaprender a ser uma boa cia para os outros, mas lembremos que isso passa por sermos boas cias para nós mesmos. Que possamos olhar de uma nova forma aos cuidados, à saúde e à vida, pois todas as vidas importam.

¹Psicólogo e psicanalista, mestre e doutor em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), onde atua na linha de pesquisa “filosofia da psicanálise”. Coordenador do curso de pós-graduação em psicologia clínica e professor titular da Universidade Tuiuti do Paraná.

Como citar:
MAC-CORMICK, Willian. Afetos não são isoláveis. Nuevo Blog, 2020. Disponível em: . https://nuevoblogbr.wordpress.com/2020/04/08/afetos-nao-sao-isolaveis/. Acesso em: ??

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