Sobre os afetos e o psiquismo em tempos de isolamento e distanciamento social

Elaine Cristina Schmitt Ragnini¹

Desde que a Organização Mundial da Saúde decretou o estado de pandemia pela Covid-19, no dia 11 de março do ano corrente, vemos nossas rotinas e a organização da vida sendo alteradas. Além das mudanças na vida concreta, estão ocorrendo transformações em nossas subjetividades. É verdade que cada um de nós terá uma forma muito particular de lidar com tudo o que está acontecendo e de se posicionar subjetivamente frente às novas exigências. Ainda não temos pesquisa e produção de conhecimento científico sobre os efeitos subjetivos de uma pandemia em pleno Século XXI. Do que temos visto no campo dos afetos, seja pelas notícias, seja pela escuta daqueles que procuram um atendimento psicológico, algumas mudanças já estão em curso: o número de divórcios aumentou na China e nos Estados Unidos; as denúncias de violência contra a mulher no Brasil aumentaram 50% em comparação ao período passado; especialistas estimam um aumento da taxa de suicídio em período de isolamento social; e os sentimentos mais comentados têm sido medo, angústia, insegurança e impotência. Por outro lado, fala-se muito de rever nossa relação com as pessoas, com a economia, com a política e com a natureza, ou seja, nossa forma de produzir e reproduzir a existência humana. A impressão geral é que a pandemia veio para mudar o rumo das coisas! A partir desse ponto, algumas esperanças se colocam para a humanidade. É importante se debruçar sobre essas pequenas frestas que se abrem em um momento e um contexto que nos sinalizam mais incertezas do que possibilidades para a vida. Por aí, quem sabe, algumas invenções sobre o modo de ser e estar no mundo possam ser criadas.  

Alain Badiou (2020, p.37) sinaliza que “uma epidemia é complexa por ser sempre um ponto de articulação entre as determinações naturais e sociais”. Além de ser impossível uma solução fácil para o que vivemos, parece que a realidade das epidemias veio para ficar, o que impõe uma nova forma de lidar com as nossas interações ou hábitos mais simples. Em meio a isso, encontramos os indivíduos, com seus afetos e sua subjetividade. As determinações naturais também comportam o real do corpo e a ameaça de destruição do mesmo pelo vírus. É para nos proteger dessa ameaça real que nos mantemos em distanciamento social. E do lugar de distanciamento e isolamento, vamos recolhendo experiências sobre as novas formas de (con)viver com a humanidade e de se posicionar política e psiquicamente.  

Podemos dizer que estamos vivendo uma situação totalmente nova, para a qual não temos registro psíquico. Uma parte significativa da população brasileira nunca passou por uma guerra ou uma pandemia, apesar das nossas guerras cotidianas nas grandes cidades. Temos notícias de vivências de situações emergenciais através daqueles que passam por catástrofes naturais – aqui no Brasil temos as enchentes, as enxurradas, os alagamentos ou o rompimento de barragens, imputando a emergência e uma nova vida abruptamente. Ou, ainda, temos o relato dos refugiados, que nos trazem notícias do que é a guerra ou a fuga de uma situação que ameaça à vida. De toda forma, não temos o registro de uma catástrofe. Frente ao desconhecido e inesperado, o primeiro passo, então, é ter conhecimento do que se passa e do que nos espera. Vamos escutando as notícias da China, da Itália, da Espanha, dos Estados Unidos e de outros países que já estão semanas à frente nessa experiência. Sabemos que o mais urgente nesse momento é a contenção física do vírus. Mas, ele também tem uma presença do psiquismo. Assim, no contexto da emergência, os primeiros a demandarem os atendimentos e cuidados psíquicos são os profissionais de saúde que se encontram na linha de frente ao enfrentamento da epidemia (médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e outros trabalhadores de hospitais e da nossa rede pública e privada de saúde). O contato direto com o doente, ou a grave ameaça de uma infecção nas instituições de saúde, pode gerar angústia ou esgotamento físico e psíquico pela sobrecarga de trabalho. Ainda, muitas vezes, esses profissionais precisam lidar com a angústia dos pacientes e seus familiares. Esse quadro nos mostra que a situação de pandemia nos atinge naquilo que são as barreiras psíquicas para enfrentar as situações de adversidade: essas barreiras estão em suspensão, por se tratarem de situações completamente novas. Nestes termos, pode-se entender que a presença e a vivência da pandemia age no psiquismo como um traumatismo – é um acontecimento da vida do sujeito que é intenso e da ordem de um excesso, para o qual não estamos preparados e não temos capacidade de reagir de forma adequada, ou seja, para o qual as defesas habituais não dão conta. Esse excesso, em termos de economia psíquica, diz de um afluxo de excitações que toma o sujeito, que está despreparado e não tem recursos psíquicos para tolerar, dominar ou elaborar psiquicamente essas excitações, podendo ocorrer efeitos patogênicos duradouros na organização psíquica.

As fantasias que inicialmente criamos para lidar com o distanciamento (fazer tudo aquilo que não fazemos na vida corriqueira!), já foram se desfazendo nas primeiras semanas. A realidade é que temos que lidar com tudo aquilo que não estávamos acostumados: o trabalho remoto; a casa; a comida; as crianças; os exercícios escolares; uma convivência intensa com quem nos acompanha no confinamento; e um tempo maior com nós mesmos. A quantidade e a intensidade das relações íntimas e as exigências que se interpõem dão novos cursos e significados aos afetos. Deste ponto, a alternativa mais viável é fazer um exercício de reflexão sobre nós mesmos e sobre as nossas relações com o outro. Certamente é um momento em que as subjetividades se encontram – complementando-se ou se contradizendo. É um tempo que exige paciência, respeito e tolerância, pelo outro e por nós mesmos. No momento em que os ruídos externos cessarem (é verdade que somos tomados pelo excesso de informação e curiosidade!), teremos mais tempo para pensar e refletir sobre nós mesmos e nossas relações, momento em que os fantasmas de cada um podem aparecer (aqueles que ficam adormecidos pela vida cotidiana!), exigindo um trabalho psíquico que pode colocar em curso uma mudança psíquica, transformando o traumático em algo terapêutico.

Considerando que as pestes são parte da nossa vida coletiva e que teremos que desenvolver recursos para enfrentá-las, teremos que repensar a política dessa nossa vida coletiva cotidiana: até que ponto são feitos investimentos para o bem da vida da população em geral, para o desenvolvimento da saúde pública, da ciência e da educação? Ou seja, quando de fato vamos priorizar o que é importante para sustentar uma vida coletiva comum e para transmitirmos às gerações futuras a noção de que cuidamos do que temos para poder viver e para garantir a perpetuação da humanidade? Além de sermos solidários conosco e com o outro, espera-se que tenhamos recursos psíquicos para enfrentar a pandemia, que coloquemos nossos afetos numa direção que privilegie a vida, as relações e uma saída para a economia psíquica. Os afetos são aquilo que dão significado à experiência humana e precisamos cuidar deles em tempos de pandemia. Para aqueles que não encontram em si recursos suficientes, sugere-se o exercício da fala e de valorização da palavra, seja com um profissional da área psi ou com aqueles que podem ser bons ouvintes das nossas angústias e incertezas. Sugere-se também ser criativo, inventar com o que temos e aproveitar as fendas que se abrem em nós para podermos vislumbrar um futuro possível. Assim, quem sabe, nossos afetos encontrem a via de uma realização mais satisfatória.  

Referências:

BADIOU, Alain. Sobre a situação epidêmica. In: DAVIS, Mike, et al. Coronavírus e a luta de classes. Terra sem Amos: Brasil, 2020, pgs.35 a 42.

¹Doutora em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Como citar:
RAGNINI, Elaine Cristina Schimitt.. Sobre os afetos e o psiquismo em tempos de isolamento e distanciamento social. Nuevo Blog, 2020. Disponível em: https://nuevoblogbr.wordpress.com/2020/04/10/sobre-os-afetos-e-o-psiquismo-em-tempos-de-isolamento-e-distanciamento-social/. Acesso em: ??

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