Para além do homo economicus: o vírus que faz despertar movimentos solidários

Thais Joi Martins¹

Sou Cientista Social, pesquisadora e professora na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). A partir de setembro de 2019 vim para a França fazer meu pós-doutorado na Université de la Sorbonne Lettres em Paris. Minha missão científica na França era a de realizar uma pesquisa sobre o mercado da alimentação saudável em Paris pelo período de um ano.

O início da pesquisa constituiu-se na coleta de dados bibliográficos sobre o tema dentro das bibliotecas francesas e através de bancos de dados de artigos científicos que não são disponíveis no Brasil. Vim também para fazer contato com professores franceses de universidades distintas a fim de estabelecer acordos, convênios e vínculos com a minha universidade no Brasil. Os três primeiros meses foram um pouco conturbados pois tivemos uma greve dos transportes na França pelo período de pouco menos de 2 meses. Com dificuldade de me locomover eu levantava o material necessário e começava a trabalhar um pouco em casa.

No mês de janeiro e fevereiro dei uma pausa no levantamento de dados e parti para as entrevistas de campo nas feiras livres, nos estabelecimentos comerciais alimentares, em conferências, palestras, debates e com consumidores em diversos bairros franceses. No entanto, no mês de janeiro já havia um receio por parte da população com relação à chegada do Covid-19 em Paris. Andávamos de metrô preocupados com a propagação e receosos com nossa saúde. Os casos foram aumentando no mês de fevereiro na França e a explosão do vírus se deu em meio a um evento religioso que reuniu mais de 2.000 pessoas no leste da França.

Na sequência o presidente Macron faz um pronunciamento em rede nacional clamando para que a sociedade francesa se confinasse a partir do dia 16 de março. Desde então meu último domingo fora de casa foi o do dia 15 de março, onde sai para comprar alimentos e subir na igreja Sacre Coeur em meu bairro para tomar um pouco do sol. Confesso que para um cientista social o confinamento não é tão difícil quanto para outros trabalhadores que laboram fora de casa. Nós pesquisadores já estamos acostumados ao confinamento por oito, dez ou doze horas a fio escrevendo e pesquisando em bibliotecas ou em casa.

No entanto, costumo tentar sempre pensar de forma positiva e entender que temos algo para aprender com os acontecimentos recentes. Como socióloga da economia estudo a construção social das relações de mercado e a origem social dos fenômenos econômicos. No entanto, como sociólogos buscamos compreender os mecanismos que estão por traz de dados puramente econômicos, ou seja, observamos as facetas morais, axiológicas, religiosas, legais, culturais, etc. Podemos entender portanto que por traz dos diversos mercados lícitos ou contestados, das trajetórias sociais dos agentes econômicos e empresariais, até as relações entre finanças e Estados nacionais, existe algo que não é eminentemente econômico: existem relações sociais, existem trocas culturais, trocas solidárias e não somente mercadológicas.

Temos exemplos incontáveis de que a expressão de tudo o que é “Social” se mobiliza questionando o ciclo devastador do capitalismo financeiro: O presidente Emmanuel Macron invoca em seu discurso a volta do “Estado de providência ou do Estado de bem-estar social”; empresas, organizações financeiras, escolas, universidades, restaurantes, cafés parisienses, museus, centros culturais e de arte, enfim, todos fecham suas portas exigindo que o “capital” se sacrifique para que vidas possam ser salvas. Não vemos ninguém percorrendo a avenue Champs-Élysées, umas das avenidas que concentra a maior porcentagem de consumo em Paris; vemos grandes museus que tem records em vendas de bilheterias milionárias como o Louvre se esquivando de seus ricos dividendos.

Começamos a ver movimentos de trocas não monetárias e sim trocas solidárias ocorrendo em solo francês: grupos de pessoas se mobilizam em diferentes bairros para alimentar os SDF (indivíduos sem domicílio fixo), hotéis abrem suas portas para proteger e agrupar moradores de ruas em seus quartos, grupos solidários se formam para realizar compras de alimentos para os idosos em muitos bairros franceses. Outros movimentos solidários de organizações de consumo são mobilizados, tais como, a capacidade da internet aumenta gratuitamente para muitas residências franceses, os pacotes de canais fechados se abrem gratuitamente para os clientes confinados, a Ópera Garnier de Paris libera seus caríssimos espetáculos, balés e óperas online gratuitamente, os museus de Paris disponibilizam tours virtuais para que todos possam ter acessos as obras de arte.

Em suma, esforços e trocas coletivas e solidárias nos mostram que somos humanos e havíamos nos esquecido deste fato. Um vírus, partícula invisível e tão temida por todos, mobiliza ondas de trocas solidárias e gritos de coesão social, ressuscitando Émile Durkheim e Marcel Mauss de seus túmulos. A humanidade que se tornava cada vez mais zumbi, desperta quem sabe para uma mudança global do capitalismo financeiro, ou quem sabe, para uma crítica tão pujante ao capitalismo, que jamais vimos em meio aos movimentos sociais mais politizados. A sociologia econômica, portanto, recupera seu fôlego, e pode trazer à tona muitas pesquisas e debates relevantes para que possamos pensar o mundo para além do homo economicus.

¹Doutora em Ciência Politica pela Universidade Federal de São Carlos com sanduíche em Sciences Politique – Université de Picardie Jules Verne. Pós-doutoranda na Université Sorbonne Lettre, Paris. Professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Como citar:
MARTINS, Thais Joi. Para além do homo economicus: o vírus que faz despertar movimentos solidários. Nuevo Blog, 2020. Disponível em: https://nuevoblogbr.wordpress.com/2020/04/13/para-alem-do-homo-economicus-o-virus-que-faz-despertar-movimentos-solidarios/. Acesso em: ??

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