Literatura e afetos – ou que efeito tem sobre nós a prosa, e o verso

Raquel Furtado¹

“O poeta é um fingidor…”

Assim começa um pequeno poema de Fernando Pessoa, chamado Autopsicografia. No entanto, muitas pessoas dele conhecem apenas a primeira estrofe, que traz uma percepção sobre quem escreve:

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente.

Mais interessante para o propósito desse texto é a segunda estrofe, que discorre sobre o que acontece com os leitores, quando entram em contato com a poesia.

E os que leem o que escreve, 
Na dor lida sentem bem, 
Não as duas que ele teve, 
Mas só a que eles não têm.

A poesia produz dor, diz Pessoa. Extrapolando, a literatura produz alegria, compaixão, desejo, ternura, aflição, medo. As descrições, imagens, diálogos, experiências, tramas e traumas criados pelos escritores ecoam no interior de cada um de nós, de forma intensa. Ressoam, retumbam na nossa caverna particular e evocam, mais que provocam, nossos sentimentos mais profundos – sentimentos sobre os quais talvez não tivéssemos consciência mas que vêm à tona, após uma leitura, ou que se produzem, no instante mesmo do ato mágico de ler e tomar o que se lê como realidade, ainda que por momentos fugidios.

Assim como ninguém se banha no mesmo rio duas vezes, porque muda o rio e muda a pessoa, também é fato que ninguém lê o mesmo livro duas vezes, como já puderam comprovar aqueles leitores que têm o hábito de revisitar seus livros mais preciosos. Cada leitura é única e gera uma miríade de emoções que afetam nosso corpo e mente. Livros nos tocam, nos marcam e nos ajudam a navegar pela vida, como é preciso.

O que literatura tem a ver com afetos

Afeto, do latim afficere, é o que fica impresso, fixado, o que nos toca. Afeiçoamo-nos a quem nos marca de alguma forma. Somos afetivos quando compartilhamos nossas dores e amores, quando nos tornamos um presente para o outro. E nesse processo de construção, como seres que afetam e são afetados, a literatura é uma grande parceira. Sem medo do exagero afirmo que uma das maiores dádivas que alguém pode receber é ser criado na companhia dos livros desde a mais tenra idade. Hoje, confinada num apartamento, é deles que tiro a sabedoria necessária para enfrentar o distanciamento social, descobrir alternativas e imaginar futuros possíveis. E não, não preciso abrir meus livros, nem mesmo tirá-los das estantes. Na verdade, nos últimos dias tenho lido pouco, porque o trabalho remoto e as atividades domésticas estão consumindo quase todo o tempo. Não preciso recorrer aos meus livros o tempo todo porque carrego comigo os livros que se tornaram meus. Embora não pertença ao seleto clube de leitores que sabem diálogos de cor – que inveja! – , tenho impressas na alma centenas de passagens e imagens colecionadas nos meus quase 50 anos como leitora.

Na primeira semana de reclusão, ainda nervosa com a demora do governo em impor medidas de isolamento, tive um sonho angustiante. Estava num país exótico, também afetado pela pandemia do coronavírus, quando percebi as pessoas me olhando de forma estranha. Eu tinha os olhos vermelhos, injetados de sangue. Fui diagnosticada. Era outro mal: cólera. Gabriel Garcia Marquez brotava, das profundezas do meu inconsciente, para me ajudar a entender minha dor e minha raiva.

Noutro momento, sentada à mesa, distraída, de repente me lembro de Agilulfo, o cavaleiro inexistente de Calvino. Agilulfo, o cavaleiro que não existe e que, por isso, não se deixa marcar por nada e não desenvolve afeto por ninguém. O mesmo Agilulfo que sabe que, para se manter, ainda que sem existir, é preciso concentração e desejo de ser e que, por isso, lá pelas tantas, ao final de um jantar ou banquete, se dedica a fazer bolinhas com as migalhas de pão. E, no meio da lembrança dessa cena, escuto na minha cabeça um diálogo imaginário. “Navegar é preciso”, grita Pessoa. “Fazer bolinhas de pão também”, responde Calvino. “A arte de viver é manter o foco no presente”, finaliza Thich Nhat Hanh.

Uma hora, ao me espreguiçar, depois de tantas horas sentadas de frente para o computador, me vem à memória um conto de Tchecov, A Aposta, em que um jovem de 25 anos aposta com um banqueiro que é capaz de passar dez anos preso, em troca de dois milhões, para provar que a prisão perpétua ainda é muito melhor do que a sentença de morte. E por dez anos seguidos, encarcerado numa cela, o homem lê, lê e lê.

Dias depois, no meio da tarde, a xícara de chá, e provavelmente também a gatinha, que me faz companhia, me despertam a lembrança de Sara, protagonista de um dos meus primeiros livros sem figura, e o primeiro que manchei de lágrimas: A Pequena Princesa, de F.H. Burnett. No seu aniversário de 11 anos, Sara ganha livros de presente, mas recebe também a notícia da morte trágica de seu pai. Depauperada, a garota passa de aluna rica a criada do colégio interno, e é removida para um quartinho minúsculo, habitado por ratos. Até hoje, a história de Sara, publicada em 1905, me toca e me afeta. Sinto muita compaixão por essa garota, e por meio dela, também por todas as outras crianças de carne e osso órfãs, vulneráveis e obrigadas ao trabalho infantil. Sinto muito amor e admiração por Sara, que enfrentou os ratos, a fome, a maldade humana e o frio da neve que, fingia eu, chegava a gelar meus pés, armada apenas com a força imaginativa derivada de suas leituras e os afetos que construiu.

A literatura tem esse poder. Produz emoções, desperta afetos, instila compaixão.

E assim nas calhas de roda Gira, 
a entreter a razão, 
Esse comboio de corda 
Que se chama coração.

Referências:

PESSOA, Fernando. Autopsicografia, s.d., Poesias. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). – 235. 1ª publ. in Presença , nº 36. Coimbra: Nov. 1932.

¹Doutora em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professora na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).

Como citar:
FURTADO, Raquel. Literatura e afetos – ou que efeito tem sobre nós a prosa, e o verso. Nuevo Blog, 2020. Disponível em: https://nuevoblogbr.wordpress.com/2020/04/16/literatura-e-afetos-ou-que-efeito-tem-sobre-nos-a-prosa-e-o-verso/. Acesso em: ??

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