O brincar na quarentena: uma prioridade

O brincar na quarentena: uma prioridade

Heloísa Sbrissia Selzler¹

Sempre gostei muito de filmes, apesar de nunca me recordar com detalhes das histórias, muito menos dos nomes de personagens, atores ou diretores. São sempre poucas as cenas que consigo reter em minha memória, mas são justamente essas que ficam impressas em minha alma de alguma maneira. As recordo uma vez ou outra, sempre em momentos que não espero. Digo isso, porque esses dias  recordei das cenas do filme “A Vida é Bela”, que mostra o cotidiano de um pai (Guido) preso em um campo de concentração junto de seu filho (Giosué) durante a Segunda Guerra Mundial. O filme gira em torno do enorme esforço criativo do pai para fazer o filho acreditar que tudo vivido ali faz parte de uma grande brincadeira. O pai, em um gesto humano, utiliza da imaginação para proteger a criança das violências e atrocidades que acontecem ao seu redor.

De repente estamos todos dentro de casa, em espaços reduzidos, rotinas modificadas e uma grande incerteza do que está por vir com essa pandemia. De repente estamos passando mais tempo com nossos familiares, nos conhecendo e conhecendo o outro. O tempo e espaço já parecem se fundir e não podemos “tomar um ar lá fora”. Da mesma forma que nós, as crianças também sentem fortemente essa mudança e o entendimento disso tudo pode ser ainda mais difícil para elas. Nesse momento, tenhamos o Guido – personagem do filme citado – como grande exemplo de valorização e proteção da infância. Nós adultos, responsáveis pelas crianças, precisamos garantir a preservação mínima do universo infantil. Apesar do momento ser novo para todos e financeiramente, psicologicamente e emocionalmente difícil, devemos nos esforçar para assegurar algo essencial, vital e saudável para qualquer criança: o brincar.

Falar sobre criança nos implica reconhecer, primeiramente, uma categoria social específica com características plurais e cultura própria. O brincar é central na cultura infantil, o que o faz, inclusive, ser considerado direito fundamental. Assim como direito reconhecido, o brincar é propulsor indispensável do desenvolvimento emocional, social, intelectual, cognitivo, motor, afetivo e cultural da criança. É também no ato lúdico que a criança realiza uma apropriação de si mesma e do mundo.

 É justamente por toda essa relevância que o brincar ocupa na vida da criança, que ele deve ser preservado em todos os contextos possíveis. Diante da nova realidade que estamos vivendo, nossas rotinas parecem estar mais apertadas e os pais se deparam com uma situação que até então não estavam acostumados: ficar 24 horas com os filhos em um espaço determinado. Nessa hora vem o desespero do que fazer, que brincadeiras inventar para distrair as crianças, como ocupar o tempo delas para que os próprios adultos consigam realizar suas atividades. Nesse momento nos percebemos ainda mais reféns das telas, presos nas notícias, nas milhares informações e nas distrações das redes sociais. É justamente no meio digital que os responsáveis pelas crianças pesquisam alternativas de passatempo ou oferecem as próprias telas como entretenimento para as crianças.

No entanto, talvez esse tempo de quarentena possa ser uma oportunidade de resgatar um brincar mais livre, criado e vivido pelo próprio sujeito que o cria, sem muitos estímulos externos ou virtuais. No brincar, o  pouco revela-se como  todo, pois do pouco a criança pode criar e imaginar muito mais, ela se torna autora e protagonista da sua própria da brincadeira. O papel do adulto, como mediador da criança, é proporcionar um ambiente saudável para que o brincar ocorra, uma vez que o mesmo é tão central e importante para o desenvolvimento integral. Esse ambiente não requer muito, basta ser acolhedor, convidativo à imaginação, seguro, harmônico e que possibilite a autonomia. Os materiais simples e os elementos naturais podem ser uma ótima saída, pois uma simples caixa ou pedaços de madeiras podem se tornar diferentes brinquedos e brincadeiras.

O momento é difícil e inusitado, mas talvez essa pausa também seja o momento de ressignificar o brincar, de olhá-lo com mais atenção e seriedade que ele merece, de perceber a centralidade e a seriedade que ele ocupa na vida da criança. Tempo também de descobrir o adulto brincante que existe em cada um de nós. Se faltar inspiração, (re)assista “A Vida é Bela” e permita-se revisitar sua criança interior e brincar com a criança que você tem em casa. Lembre-se sempre que o universo da criança é diferente do seu e que o brincar para ela é como seu respirar, por isso, tenha isso como uma prioridade para seu filho.

¹Mestre em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
SELZLER, Heloísa Sbrissia. O brincar na quarentena: uma prioridade. Nuevo Blog, 2020. Disponível em: https://nuevoblogbr.wordpress.com/2020/04/18/o-brincar-na-quarentena-uma-prioridade/. Acesso em: ??

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