Literatura em tempos de isolamento

Literatura em tempos de isolamento

Janaina More¹

... “e chega talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acorda os ratos e os manda morrer numa cidade feliz”[1].

Logo ao fim da leitura, parei para refletir sobre o momento pelo qual passamos. Logicamente que, sendo quem sou – amante das artes e da literatura, alguém que tem a mania de relacionar fatos com alguma obra literária – iria de pronto reler livros com uma temática que envolvesse isolamento, solidão, pestes e pragas.

Aposto que todos os que estão lendo este texto já se depararam com afirmação de que a arte imita a vida, mas às vezes, ah!…, às vezes, tenho a plena sensação de que a vida insiste em copiar aquilo de mais belo ou de mais perverso que a mente humana é capaz de imaginar. Chega a ser inacreditável a capacidade de alguns autores em desvelar a psique humana ou apontar efeitos futuros mesmo àqueles que jamais experienciaram.

O que esses autores nos dão é uma oportunidade de algo que a humanidade vem buscando por séculos: viajar no tempo. Infelizmente, a maioria de nós, por preguiça, falta de motivação ou oportunidade, não pode experimentar da literatura essa capacidade de transcender o tempo – voltar ao passado ou explorar o futuro.

Outro dia (já não tenho uma dimensão tão precisa do tempo…), tive a sensação de ter despertado em um espaço/tempo onírico kafkiano, construído pelos recortes de cenas de livros que já li. Parecia-me muito com Josef K, de O processo [2], não pela arrogância com a qual tratava outros sujeitos, mas por não poder sair de casa e não ter uma dimensão exata do que acontecia no meu mundo real. Isso não durou muito, fui buscar informações, me aproximar de significações que podiam fornecer um respaldo plausível para os fatos que desordenaram a realidade. Pude sentir o alívio de não ter acordado como Gregor Samsa, de A Metamorfose [3].

Neste momento em casa, a nostalgia em relação à infância, quando vivia entre as leituras da Coleção Vaga-lume [5], visitando e explorando mundos extraordinários sem nenhuma preocupação em relacioná-los com a realidade, me fizeram ligar a televisão e buscar por informações daqueles meios tradicionais de comunicação, o que era algo que meus pais faziam. Devido à facilidade oferecida pela tecnologia, os jornais se tornaram obsoletos e nossas “teletelas”[4], com informações e desinformações instantâneas, nos servem muito bem.

Estamos tão acostumados a produzir, a buscar pela eficiência, a comprimir nosso tempo para vivermos mais e melhor que deixamos velhos hábitos de lado, e ter que observar, de maneira imóvel, foi como um recomeço. Não é uma tarefa fácil decifrar o mundo que se apresenta de forma incoerente com a coerência que lhe deu forma. Ligar a televisão foi exatamente ver o retrato de uma pandemia: estávamos todos como os personagens de Saramago, em Ensaio obre a cegueira [6], naquela sociedade devastada pela “escuridão” [7] – de um lado cientistas que não sabiam explicar bem o que estava ocorrendo, de outro, governantes preocupados com a economia e a reputação de seus mandatos.

Como no livro, neste momento em que todos parecem não ver, é importante ter olhos. A maioria dos “cegos” importa-se apenas com sua própria sobrevivência, sem compreender que esse mal, invisível aos olhos, nos obriga a proteger cada vértice da teia na qual estamos inseridos. Chegar a esse grau de entendimento nos faz temer. Não poder prever a nova direção das nossas vidas nos transporta à Casa de Asterion [8]. Deparo-me com o momento em que o texto literário assume seu papel como construção, como uma realidade que se cria. Imagino crianças bem pequenas, que podem estar ansiosas por acreditarem que vão deixar de existir por conta de um “bichinho muito pequenininho que está lá fora”.

O momento de confinamento é tenso, nos faz mudar os hábitos, nos traz preocupações com o futuro, nos deixa instáveis e inseguros. Não somos todos especialistas, não temos conhecimento para contribuir com as pesquisas, nos sentimos de mãos atadas diante da ideia de perder algum ente querido. Volto a pensar que o livro nos permite dialogar com pessoas geniais que, por um erro de cálculo divino, não se fizeram imortais, porém, a imperfeita humanidade assim o fez ao sacramentar sua arte. Volto a pensar que o livro pode me transportar para outros cenários, diferentes do meu, diferentes de A peste, de Camus [1], que acabara de ler.

Vou até a minha biblioteca pessoal, que ficou abandonada por algum tempo. Trabalhava demais e, mesmo ensinando literatura, talvez estivesse deixando de ler. Melhor explicar: a repetição do conteúdo em sala de aula me fazia ler e reler sempre os mesmos clássicos. Por fim, decido aliviar as tensões deste mundo caótico e migrar para aqueles aos quais a literatura pode me levar.

Referências:

[1] CAMUS, Albert. A Peste. Editora: Record, 1978.

[2] KAFKA, Franz. O processo. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

[3] KAFKA, Franz. A Metamorfose. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

[4] ORWELL, George. 1984. 29ª ed. São Paulo: ed. Companhia Editora Nacional, 2005.

[5] A Série Vaga-Lume (1973) é uma coleção de livros voltada para o público infanto juvenil, da Editora Ática. Suas capas clássicas, nas quais as imagens ficam para fora do quadro, marcaram época.

[6] SARAMAGO, J. A . Ensaio sobre a cegueira. 19a. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2001.

[7] “Escuridão” está grafada entre aspas, pois a cegueira no livro é descrita como branca.

[8] BORGES, Jorge Luis – A Casa de Asterion.  in: O Aleph. Tradução de Flávio José Cardozo, Rio de Janeiro: Globo. p.53-55, 1977.

¹Mestranda em Administração pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Especialista em Comunicação de Semiótica e graduada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). 

Como citar:
MORE, Janaina A. Literatura em tempos de isolamento. Nuevo Blog, 19 abr. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/04/19/literatura-em-tempos-de-isolamento/. Acesso em: ??

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