Platão – A Alegoria da Caverna: A República

Jane Lanzarim¹

Platão filósofo grego que viveu entre 428-348 a. C., nascido em Atenas, autor de vasta obra filosófica, e muitas de suas obras serviram de inspiração para outros pensadores posteriores a ele, dentre elas destaca-se A República, escrita em forma de diálogos composta por várias histórias e uma dessas é O Mito da caverna onde Platão aborda a influência da filosofia na busca pelo conhecimento.

Os fatos discorridos na história ocorrem entre Sócrates que procura demonstrar a Glauco de modo metafórico o papel do conhecimento através de uma caverna subterrânea onde homens acorrentados desde a infância e tendo como única realidade as sombras de objetos não definidos projetadas na parede, estes, permanecem imóveis olhando para frente. Uma clareira ilumina levemente a caverna e do lado de fora pessoas manipulam objetos de formas variadas projetando nas paredes sombras que parecem serem de homens, figuras animais feitos de pedra entre outras coisas. Platão quer intuir com isso que ao longo de suas vidas, os prisioneiros só puderam contemplar sombras projetadas nas paredes da caverna, os seus companheiros e as vozes emitidas de fora, que eram dos homens que conversam entre si e não havia outra realidade. Certa altura da história, é dada a oportunidade para que um dos prisioneiros seja libertado das correntes, sente dores no corpo ao fazer uma longa subida até chegar ao lado de fora da caverna. A luminosidade o cega, e aos poucos se habitua e contempla a visão do lado de fora da caverna.

Esse homem tem a opção de voltar para a caverna e manter-se como havia se acostumado ou, por outro lado, pode se esforçar a se habituar à nova realidade. Se esse homem quiser permanecer fora, ele pode, mas se quiser voltar para libertar os companheiros dizendo o que havia descoberto no exterior da caverna, provavelmente, eles não acreditariam no seu testemunho, já que a verdade era o que conseguiam perceber da sua vivência na caverna. Aqui neste trecho da história fica evidente a construção de conflitos internos desse sujeito, buscar conhecimento requer sacrifícios.

Platão passa através dessa metáfora a ideia de conhecimento de um mundo aparente, limitado por circunstâncias materiais e sensoriais e existe um mundo real a ser descoberto, que dependerá da libertação do homem a fim de que ele possa indagar e refletir a realidade, construir conhecimentos e querer construir, ir em busca, requer sacrifícios, renúncias, porém a recompensa é a liberdade. Na concepção do filósofo, à medida que o sujeito se depara com a possibilidade do conhecimento, não há como retroceder ao mundo da ignorância a qual pertencia e conhecer é um ato permanente de descobertas, que impõe ao homem um sacrifício necessário: o trabalho.

A metáfora de Platão que na época em que foi escrita se referia ao conhecimento verdadeiro e o governo político, que existe um modo de conhecer, de saber, que é o mais adequado para se pensar em um governante capaz de fazer política com sabedoria e justiça com a realidade da nossa sociedade. É visto que temos uma tendência aos moldes para aquilo que a política quer de nós, que é aceitar somente o que nos oferece através da informação transmitida em meios de comunicação e a manipulação das mídias em geral. Platão mostra a importância da investigação para que se encontrem meios de combate ao sistema, o qual limita ações de mudança e para o filósofo o conhecimento e a busca pela verdade devem ser os elementos primordiais de um bom governante.

O Mito da Caverna nos proporciona reflexões na potencialização do autoconhecimento, podemos encarar essa metáfora fazendo uma ligação com a nossa vida de forma geral, as pessoas são presas as suas limitações, seus costumes, suas crenças sem o questionamento da veracidade das informações. Estamos amarrados a uma caverna que é o nosso corpo e nossos sentidos e que pode nos enganar não nos dando a realidade dos fatos e enxergamos as sombras de acordo com a nossa vontade, e em que queremos de fato acreditar, nossos preconceitos, opiniões embasadas no senso comum com uma mídia que contribui para essa “pós-verdade” onde os fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais.

Cada indivíduo possui suas certezas quanto a realidade, porém é sábio considerar as reflexões nos limites do indivíduo. Manter a dúvida como sendo constante é uma grande aliada para vermos além das sombras. Na concepção de Platão o bem que se omite é igual ao mal que se comete.

Querer buscar conhecimento é dizer querer sair da caverna, é renunciar tudo aquilo que até então era tido como verdadeiro, eis a razão da filosofia. A humanidade tem regredido ao conhecimento, e em tempos de tanta tecnologia a disposição de todos as pessoas ainda criam verdades absolutas. A preguiça tornou-se elemento presente na sociedade, estimulada pela tecnologia que nos é proporcionada e pior que a preguiça do corpo, é a preguiça intelectual que hoje é predominante aos que se deixam manipular, esse não questionamento dos fatos.

O cidadão comum já não se interessa mais pelas causas da política, causas da sociedade dando prioridade apenas a sua vida privada. Vivemos bombardeados por falsas notícias, as redes sociais que atuam com grande influência sobre as pessoas se transformaram em vitrines do ego com divulgações e propagandas de pessoas felizes, suberificais que sequer tem a noção da sua existência no mundo, celebram e cultivam a ignorância e todo aquele que se propõe a sair dessa caverna é tido como louco. O indivíduo, assim como o escravo no interior da caverna não percebe que é prisioneiro, está preso pela mídia, um mar de informações desinformantes, e que estão sendo enganados. Tempo em que predomina a opinião rasa, conhecimento na superfície, inutilidade de informações, a prisão do dia a dia arrasta esse sujeito cada vez mais para a caverna da ignorância.

O escritor Jose Saramago certa vez enquanto estava sozinho em um restaurante, foi acometido pelo seguinte questionamento: e se fôssemos todos cegos? A conclusão do escritor é que estamos de fato cegos em vários sentidos (da razão, da sensibilidade e de tudo o que é razoável). Porém, nunca antes, segundo Saramago, fomos tão cegos quanto neste mundo midiático que vivemos. É uma comparação ao Mito da Caverna, de faz sentido uma vez que as pessoas se comparadas as do texto, estão presas a tela da televisão e agora também da internet como se fossem as sombras nos dizendo o que de fato é real. Um dos fatores para acreditar nessa comparação é que muito raramente as notícias e informações que recebemos pela televisão e internet são verdadeiras. Quase sempre estão fora de contexto ou são tendenciosas.

Aceitando as palavras de Saramago podemos concluir de forma pessimista, que estamos perdidos tanto de nós próprios quanto de nossa relação com o mundo. Não sabemos mais o que somos, para que servimos e qual o sentido de nossa existência. A própria realidade tornou-se algo estranho, uma vez que não prestamos mais atenção nela. Não contemplamos mais os detalhes da natureza e do cotidiano que eram observados com atenção, e com o avanço tecnológico agora se tornam imperceptíveis. O resultado final disso tudo é que não conseguimos mais estar, com nossa alma e nossa atenção, em lugar algum. Somos fugaz.

Referências:

CARNEIRO, Alfredo. José Saramago – o Mito da Caverna nos dias de hoje. NetMundi.org. Disponível em: https://www.netmundi.org/home/2017/saramago-mito-da-caverna-platao/ . Acesso em: 18 de out. de 2019.

PLATÃO. A Alegoria da Caverna: A República, 514a-517c. Tradução de Lucy Magalhães. In: MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia: dos Pré-Socráticos a Witgenstein. 2a ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

¹Doutoranda em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
LANZARIM, Jane. Platão – A Alegoria da Caverna: A República. Nuevo Blog, 23 abr. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/04/23/a-alegoria-da-caverna-a-republica/. Acesso em: ??

2 pensamentos

  1. Excelente reflexão! Hoje nos deparamos presos em nós mesmos, são prisões existenciais e não sabemos como sair delas, então surgem as tecnologias de comunicação por exemplo, as quais poderíamos utilizar ao nosso favor, para nos libertarmos das prisões da vida, sociais, culturais, políticas, porém o que observamos é que estas ferramentas nos prendem ainda mais, enfim, todas elas ao nosso dispor para quem sabe nos guiar para algo mais construtivo, entretanto, cada vez mais nos tornamos vagos e perdidos dentro de nós e ainda com preguiça de gente e de viver. Na verdade, a humanidade continua presa nas suas próprias cavernas, não sabe mais para aonde caminha, porque na verdade nem dentro de si consegue chegar a algum lugar…

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  2. Precisamos nos libertar das nossas próprias prisões,onde a sociedade nós coloca em hábitos, conceitos, moralismo.
    Somos livres para escolher e pensar em uma ideologia para nossa vida.

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