Brasil pan/deiro/demia: amor, sexo e poder

Fábio B. Meira¹

O entreter do novo Brasil ‘tá dominado’! Uma cara é sertaneja a outra é funk. A importância disso é que, se a rima com pandeiro parece um acaso da língua, há sempre uma canção entretendo o dia a dia brasileiro.

Quero destacar aqui o sentido etimológico de ‘entre-ter’, para sugerir que a cisão vivida hoje no Brasil tem o sentido de uma perda nesta dimensão. Hoje somos um país não apenas dividido, mas ignorante, que acredita em terra plana, desdenha da covid-19, nega o aquecimento global, autoriza a destruição da Amazônia, ignora a condição étnica dos povos nativos e negros, não crê em gênero… A lista parece interminável. A ignorância divisionista ocupa o poder central, foi eleita com de mais de 50 milhões de votos, tem apoio de 1/3 da população e rejeição de outro 1/3.

Ora, a canção é a unidade elementar da música popular brasileira (MPB), expressão simbólica central da cultura de massa do novo e do velho Brasil, isto é, do Brasil de sempre. Será que as canções mais ouvidas[i] revelam algo sobre o divisionismo?

O sertanejo domina 60% das execuções no rádio em 2020. Em 2019, 8 dos 10 vídeos mais assistidos do Youtube nacional são clipes sertanejos. O resto é funk, um deles de Anitta. O funk é mais exportável, tem acessos no exterior, o sertanejo não[ii]. A temática predominante é o amor. O sertanejo entoa o mal terminado, não correspondido. O funkeiro fala de bunda e sexo. O primeiro é um ser carente, o segundo é um ser erótico.

Mas, isso caracterizaria, de fato, uma divisão?

MC Leonardo, líder da Associação dos Profissionais e Amigos do Funk, afirma que o funk é machista, homofóbico, sensual e erótico, já que reflete a realidade da sociedade em que nasceu[iii]. O que falta, diz ele, não é a sociedade discutir o funk, mas discutir a si mesma através do funk. O funk é performativo, o que implica uma modulação não consciente na subjetividade do espectador – gestos, dança, letra e canto, incluindo performances em bailes. Como artefato cultural, reforça normas sociais que incitam a violência de gênero, a ‘coisificação’ feminina, o consumo de luxo, e o estupro (ver Brilhante et al., 2018[iv]). O funk é também movimento de resistência política. Nas periferias das grandes cidades produz pertença e reconhecimento.

A sociedade refletida no sertanejo é uma espécie de reverso da medalha. O amor é perda e sofrimento, “o momento contemporâneo trata essas manifestações tristes ou apáticas como depressão”, lembra a psicanalista Amanda Mont’Alvão[v]. As formas primitivas de fazer o luto e os comportamentos autodestrutivos aparecem com frequência. A dificuldade de lidar com frustração, a ideia de um amor compulsório e exclusivo caracterizam as canções sertanejas, aponta Christian Dunker[vi]. Há também o delírio erotomaníaco, isto é, uma projeção do amor de si sobre o outro. O outro não é visto como de fato outro, é uma extensão do eu-lírico da canção, “como se o outro fosse um espelho que ele precisa ter pra garantir que está funcionando de forma estável” diz Dunker[vii]. A mulher aparece como fonte de frustração e sofrimento. Mesmo a dupla feminina Simone e Simaria entoa “tá osso sem você / tá osso / tô que nem cachorro louco abandonado / jogado no meio fio” [viii]. Responsabilizar a(o) outra(o) pela minha condição de carência é marca da canção sertaneja.

As duas vertentes do ‘entre-ter’ do novo Brasil confluem para a mesma chave: a opressão feminina. A necessidade deste reforço simbólico, no âmbito da cultura de massa, justamente nesta dimensão, sugere a existência de fragilidades do poder masculino, numa sociedade machista e homofóbica como a brasileira. Parece plausível supor que a mulher efetivamente representa uma alteridade que aterroriza. Ao incorporar o estranhamento, funciona como ameaça real à ordem. Isso poderia explicar contra-intuitivamente a imobilidade diante dos arroubos autoritários do ocupante da cadeira presidencial: tudo parece indicar que o fascismo incomoda menos, porque o nó da questão é o conservadorismo moral. Rosa e azul seriam, então, os reais signos do poder no atual contexto político brasileiro!?

A força política do conservadorismo moral se expressa tanto no funk quanto no sertanejo. No primeiro, a banalização da violência contra a mulher é suplementada com o consumo conspícuo. Ambos uteis à reprodução capitalista dependente, ainda mais para quem vive na periferia urbana. No segundo, toda a insegurança é convertida em ilusão amorosa, já que o amor adulto parece inalcançável. A sutil modulação do problema exterior material para o problema interior amoroso, além de reforçar o machismo, retira o foco da real carência: a econômica.

O que fazer? Não creio na desvalorização das expressões populares de massa. Mas, disputar a canção pode ser uma alternativa, por exemplo, fazendo paródias e humor. Além disso, a temática do poder já foi central para a MPB, mas era explícita. “Apesar de você”, “Cálice”, “Cartomante” e tantas outras canções movimentaram a vida política brasileira na saída da ditadura. Hoje, o poder desaparece sob certos disfarces. A força da canção na cultura brasileira é indiscutível, ainda que nem sempre evidente. Vamos disputá-la!?

Confira as composições de Fábio Meira:

Referências:

[i] TOP 100 Mais tocadas das rádios 2020. Mais Tocadas, 2020. Disponível em: <https://maistocadas.mus.br/musicas-mais-tocadas/&gt;. Acesso em: 08 maio 2020.

[ii] RIBEIRO, Felipe. Youtube divulga lista com vídeos mais assistidos de 2019, confira. Canal Tech. Disponível em: https://canaltech.com.br/internet/youtube-videos-mais-vistos-2019-157129/. Acesso em: 08 maio 2020.

BRÊDA, Lucas; MARIANI, Daniel. Funk é o genêro musical brasileiro mais ouvido em países estrangeiros.  Folha de São Paulo, 22 Out. 2019. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/10/funk-e-o-genero-musical-brasileiro-mais-ouvido-em-paises-estrangeiros.shtml?origin=folha&gt;. Acesso em: 08 maio 2020.

[iii] ANDRADE, Hanrrikson. Letras de Funk são espelhos de sociedade machista e erotizada, diz MC Carioca. UOL, 02 jun. 2016. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2016/06/02/letras-sao-espelho-de-sociedade-machista-e-erotizada-diz-funkeiro-carioca.htm?cmpid=copiaecola&gt;. Acesso em: 08 maio 2020.

[iv] BRILHANTE,  Aline Veras Morais; et al. Cultura do estupro e violência ostentação: uma análise a partir da artefactualidade do funk. Interface – Comunicação, Saúde, Educação. V.23, 2019.

[v] MARCONDES, Paulo. O eu-liríco do sertanejo lida muito mal com a própria insegurança. Vice, 01 nov. 2018. Disponível em: <https://www.vice.com/pt_br/article/mbdmdb/uma-analise-psicologica-de-como-cantores-sertanejos-nao-sabem-lidar-com-a-fragilidade&gt;. Acesso em 08 maio 2020.

[vi] Idem item v

[vii] Idem item v

[viii] Ver Simone e Simaria, Amoreco, 2020 In: https://www.youtube.com/watch?v=bJ-LjsUwkik.

¹Doutor e Mestre em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EAESP). Professor da Escola de Administração e do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pesquisador fundador do Núcleo de Estudos em Gestão Alternativa (NEGA EAUFRGS).

Como citar:
MEIRA, Fábio B.. Brasil pan/deiro/demia: amor, sexo e poder. Nuevo Blog, 10 maio 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/05/10/brasil-pan-deiro-demia-amor-sexo-e-poder/ . Acesso em: ??

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