Como anda a sua empatia?

Jane Lanzarim¹

Daniel Defoe autor do conhecido Robinson Crusoé, em seu livro “Um diário do ano da peste” descreve como foi o período em que a Europa foi acometida com a pandemia mais devastadora registada na história humana no século XIV. O autor relata a questão moral religiosa na qual a doença é considerada o castigo divino, como a peste devastou as pessoas e mexendo também no seu comportamento, as tentativas do governo para conter o avanço da doença, a situação em que ficaram os pobres por não terem dinheiro e assim não conseguirem ter estoques de alimentos.

O autor considera que o apelo pela vida e a ausência de condições de minimizar a catástrofe ensinam muito sobre a condição humana, que é na diversidade extrema que as pessoas tendem a se solidarizar com o seu próximo e reconhece que a doença isola o homem e divergem as opiniões.

A existência desse vírus circulando entre nós, trouxe a sensação de fragilidade, vulnerabilidade e impotência, modificando o psicológico das pessoas das mais diferentes idades, culturas, raças e religiões e com isso despertou também o desejo de ajudar o próximo, de praticar solidariedade.

Entender esse desafio pelo qual a sociedade passa é denso e necessário e não há quem se salve de um naufrágio, mas que fique isolado assim como o Robinson Crusoé. Temos que nos salvar, salvar a vida que há em nós, a vida que há no nosso próximo, sozinhos não somos nada. Com esse momento de isolamento temos a oportunidade de expandir nosso olhar, de exercitar o altruísmo e minimizar o sofrimento do outro.

Qual a responsabilidade de gente como eu e você diante dessa pandemia? Você tem praticado a solidariedade? Constantemente é noticiado pela mídia que ações estão sendo realizadas por todos os cantos do país, como exemplo, as doações de refeições aos caminhoneiros que se viram sem opções de se alimentar, pelo fato de os estabelecimentos estarem fechados; doações de cestas básicas aos autônomos que perderam suas rendas; doação de alimentos em praça pública aos moradores de rua; doação de quentinhas aos profissionais de saúde; costureiras doando máscaras; alguém doando seu tempo em função dos outros.

O que faz com que essas pessoas saiam de suas casas e passem um tempo longe dos seus e se mobilizem para ajudar pessoas desconhecidas se não é a expressão pura da preocupação com o outro? Isso é empatia que deriva da palavra empatheia, que no grego significa paixão, comoção pela causa, é enxergar-se no outro.

Se a doença nos assusta, é pela vida que devemos lutar, salvarmos uns aos outros. E esse salvamento vem de formas aleatórias, um cuidado médico, um aconselhamento espiritual, um aconselhamento psicológico, uma doação material que vá melhorar a vida de quem o recebe, um alimento que sacie a fome de alguém, um olhar diferenciado pelo outro ou um afeto em forma de palavra.

O filósofo Edgar Morin em entrevista ao jornal francês CNRS em 09 de abril de 2020 expõe que a chegada do coronavírus nos recorda que a incerteza permanece como um elemento inexpugnável da condição humana. Tentamos nos cercar com o máximo de certezas, mas “viver é navegar em um mar de incertezas, através de ilhotas e arquipélagos de certezas nos quais nos reabastecemos”. Que essas ilhotas que o filosofo se refere sejam amparadas na crença da ciência, nas boas práticas sociais, numa economia mais justa e solidária e na empatia pelo próximo. A empatia conduz a solidariedade.

A passagem do vírus terá um custo muito alto para todos nós, mas que possamos evoluir como humanidade, que sejamos pessoas melhores. Há um provérbio árabe que diz que “os homens são como tapetes: às vezes precisam ser sacudidos”. Tenhamos fé de que a passagem do Covid-19 seja essa a oportunidade de transformação do nosso egoísmo, do nosso egocentrismo e que possamos celebrar o milagre de estarmos vivos. Ressignificar o valor da vida, da família, da ética, do grupo social a qual pertencemos, que a empatia seja uma constante em nossas vidas. Que sejamos humanos melhores.

Finalizo esta reflexão com a frase de Gary Herbert que diz “Se não você, então quem”? Se não agora, então quando?

Referências:

DEFOE, Daniel. Um diário do ano da peste. Tradução de E. San Martin. Porto Alegre, 2002.

MORIN, Edgar. As certezas são uma ilusão. Disponível em https://www.fronteiras.com/entrevistas/edgar-morin-as-certezas-sao-uma-ilusao. Acesso em 23 abr 2020.

¹Doutoranda em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
LANZARIM, Jane. Como anda a sua empatia? . Nuevo Blog, 12 maio 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/05/12/como-anda-a-sua-empatia/. Acesso em: ??

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