Vidas inocentes sem sonhos

Giselle Quaesner¹

Minha infância foi marcada por diversos momentos dos quais recordo: as brincadeiras com minhas irmãs e irmão, o tempo que passava com meu pai ou minha mãe, as experiências na escola, a simplicidade do que entendia por diversão, meu interesse pelas artes e o apoio de minha família para o desenvolvimento de habilidades. Não éramos exatamente uma família abastada, embora eu não lembre de algum momento que passei necessidades extremas. Certamente tive muitos desejos não realizados por falta de recursos, como passear no trenzinho da alegria que passava pelo litoral paranaense, ter uma casinha para brincar com as minhas bonecas ou, até mesmo, comer nas redes de fast food, as quais apareciam nos sedutores comerciais. São coisas supérfluas e triviais quando observadas nesse momento da vida, mas na infância tudo parece tão imenso, interessante e mágico que um simples passeio em um veículo repleto de pessoas fantasiadas pode se tornar o mais importante objeto de desejo de uma criança.

Éramos seis pessoas em uma pequena casa de dois quartos, sendo que, por ser a irmã mais nova, eu dormia na parte de baixo do beliche (o lugar menos desejado) e sempre ficava com os papéis menos apreciados nas brincadeiras. As adversidades eram inúmeras, bem como as compensações, porém quando lembro do passado me vejo como privilegiada pela oportunidade de fazer parte de uma boa família que me estimulou a continuar persistindo em minhas habilidades, interesses e sonhos.

Eu tive muitos sonhos durante a infância, um pouco menos durante a adolescência (a fase das dúvidas, descobertas e desilusões), mas prossigo com grandes sonhos, embora de outra natureza, na fase adulta. Muitas crianças deixam a imaginação administrar seus sonhos, de modo que podemos encontrar interessantes e divertidas respostas para a pergunta: “o que você vai ser quando crescer?”, sendo alguns exemplos: princesa, príncipe, heroína, herói, astronauta, ou, no meu caso, agente secreta.

À medida que crescemos, as frustrações (nossas ou alheias) nos impedem de continuar seguindo esses sonhos com a convicção de que realizaremos. Uma picada de aranha não nos dá superpoderes e sim nos leva ao hospital, dependendo do veneno; nossas mães não nos moldaram no barro para, então, um Deus nos dar vida e superpoderes; para sermos da realeza precisamos nascer em “berço de ouro”, bem como, para realizarmos uma atividade de maior prestígio social, precisamos estudar muito (quando a estrutura social permite), depender de um “golpe de sorte” do destino ou possuir parentesco com alguém que já faz parte do meio que pretendemos ingressar, o famoso QI – Quem Indicou.

Mesmo sabendo que meus sonhos infantis nunca se realizaram, penso que é tão bom sonhar, sobretudo na infância, pois torna a vida mágica e cria esperança – um dos sentimentos que nos impedem de desistir de tudo quando as dificuldades nos alcançam. Todavia, muitos/as não sabem, mas o mundo está repleto de crianças que não sonham. Já visitei inúmeros lugares marcados pela vulnerabilidade social e me deparei com a realidade de crianças que não sonham, simplesmente por acreditarem na impossibilidade de realização. Essa visão é compreensível quando há ausência do básico para a sobrevivência, afinal que esperança se pode sentir quando se é atingido/a pela fome, frio, medo, insegurança, dor ou visualiza e sente as mais diversas violências?

A infância, fase da magia, da fantasia, da inocência, da alegria e diversão é substituída pela desilusão, desespero e dor, em muitos lares. Me pergunto que tipo de adulto se formará nessa realidade? Acredito que a criança exposta à violência, em uma visão OTIMISTA, naturalizará essa prática durante a vida e aceitará o que a experiência mundana trouxer para si ou para os/as outros/as, tornando-se suscetível a discursos de ódio e violência ou às falsas promessas vindas de quem possui esperteza e más intenções. Essa vulnerabilidade é aproveitada por líderes que desejam se promover em meio ao caos e à desilusão, os quais se apresentam como figuras míticas capazes de salvar o mundo, contudo suas reais intenções só reforçam a desgraça e a incapacidade de sonhar enfrentada por muitos/as. Em uma visão pessimista, a criança morrerá de fome ou doenças. Ambos casos fazem parte de uma visão realista, de forma que, mesmo aplicando o otimismo, o resultado é o sofrimento e a infelicidade resultantes da invisibilidade social e o descaso de quem tem a chance de reverter esse cenário.

É perturbador saber que o lado bom da vida de muitas pessoas é, na verdade, apenas outro lado, igualmente obscuro, de uma moeda que se molda sobre o sofrimento dos/as invisíveis e sustenta aqueles/as que estão com os bolsos cheios, os/as quais se negam a compartilhar, pois transferiram a capacidade de sonhar e ver o mundo com olhos da esperança, do mágico, simples e surpreendente, pelo desejo de acúmulo material e a necessidade de ostentar oportunidades ou exibir um status impossível de ser alcançado por muitos/as. Esses se negam a resgatar a pureza infantil ofuscada pela perversidade e falta de empatia.

Eu vejo as crianças como o equilíbrio do mundo, pois permitem aos adultos (que já perderam a inocência) uma segunda chance de encontrar a alegria e diversão ou a simplicidade da vida. Ver uma criança crescendo nos restaura a esperança no bem, nos permite reviver os momentos dos quais os maiores e mais improváveis sonhos eram possíveis em nosso imaginário e nos desperta sentimentos que a fase adulta, muitas vezes, nos obriga a recalcar. Sendo assim, ver crianças sofrendo e sem esperança, para mim, é a maior evidência de nossa falha como sociedade ou, até mesmo, indivíduos. Posso concluir que meu maior sonho, na fase adulta, é ver todas as crianças vivendo alegres, seguras e confortáveis, continuando a manter nossa chama da esperança acesa, mesmo depois da infância. Espero que um dia ele se realize, afinal não necessita de picadas de aranha ou intervenção dos deuses gregos para sua concretização, embora a conduta de muitos/as torne essas hipóteses mais possíveis de se tornarem fatos.

¹Doutoranda em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Bolsista pela Capes.

Como citar:
QUAESNER, Giselle. Vidas inocentes sem sonhos. Nuevo Blog, 13 maio 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/05/13/vidas-inocentes-sem-sonhos/. Acesso em: ??

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