O Ignorante está nu

Por Francis Kanashiro Meneghetti

Hoje inicio uma nova jornada. O de escrever de duas a três reflexões por semana, em textos curtos e livres das amarras do formalismo acadêmico, das convenções da escrita formal e da opinião do próprio leitor. Os temas serão diversos, mas o ponto de partida e de chegada será sempre o mesmo: minha própria ignorância. Sim, será sobre mim. Geralmente o que há de pior; raramente o melhor. Mesmo porque o que consideramos o melhor de nós, raramente passa de ilusão, delírio ou soberba. Então só posso tentar falar do pior mesmo, afinal quem irá questionar se é verdade o que vivo no âmago da intimidade? Poucos sabem, ou pelo menos acho que sabem, mas faço um esforço enorme, o tempo todo, praticamente, para manter o que vocês acham que eu sou. Farei de tudo para tentar ser o mais realista possível, já que ser sincero é praticamente impossível para quem precisa apreender a ficar nu! A ideia é que nesses devaneios eu possa perder toda roupagem que a vida me obrigou a vestir. Por isso, não se espante com minhas obscenidades. Não se decepcione com este corpo sem as vestimentas das mentiras. Não se espante com esse ser em plena decadência. Mas não é qualquer um que deixarei me despir e fazer revelar toda minha ignorância! Escolherei sempre alguém que me desperte algo diferente. Pode ser amor, admiração, excitação, encantamento; ou também ódio, tédio, repulsa, nojo. Só não pode ser indiferença; esta, a causa de todas as formas de destruição institucionalizada. Para me deixar nu, convidarei sempre uma obra da literatura, da filosofia, do cinema, da música, das artes em geral. Quero contar em detalhes, inclusive os mais sórdidos, como cada uma dessas obras foi capaz de revelar toda minha ignorância, principalmente para mim mesmo. Não me apresento aqui na condição crítico dessas obras, afinal como pode alguém com tamanha ignorância e limitação querer se colocar nessa condição? Talvez alguns pensem que incorporo a hipocrisia dos falsos modestos. Não. Não farei isso por aqui. Essa condição de hipócrita da falsa modéstia tem um espaço bem definido na minha vida: a sala de aula e meus escritos acadêmicos. Posso não ser o maior dos hipócritas nesses lugares, mas tenho meu espaço garantido depois de vinte anos. Asseguro que meu lugar na mediocridade acadêmica está sendo assegurado. Quero que saibam também que não vou pousar de intelectual por aqui. Até poderia tentar impressionar comentando e escrevendo a partir dos clássicos que compõem minha biblioteca. Entretanto, depois de anos me relacionando eroticamente com meus livros, descobri que quero muito mais do que prazeres e gozos fáceis que a simples admiração dos leitores podem proporcionar. Quero a liberdade para experimentar de tudo. Vivenciar todas as formas de erotização que a arte nos permite! Quero poder me embrenhar no melhor e no pior de cada obra escolhida para estabelecer relacionamentos de todas as qualidades. Enfim, quero querer em um mundo onde as pessoas nem sabem ao certo o que querem mais para si mesmas. E quando acham que sabem, descobrem que o que escolheram já foi escolhido por alguém. Por fim, fica o argumento de Rancière que justificativa o porquê quero criar essa coluna no Nuevo Blog: “Só um corpo vivo, um corpo que sofre, é capaz, em última instância, de garantir a escrita”[1].


[1] RANCIÈRE, Jacques. Políticas da Escrita. São Paulo: Editora 34, 2017, p. 14.


Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor do Programa de Pós Graduação em Administração e do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). É um dos criadores do Nuevo Blog.

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