Subjetivação, invisibilidade e precarização: o trabalho dos profissionais da saúde

Kamille Ramos Torres¹

O trabalho dos profissionais da saúde é algo bastante discutido na literatura científica. Em uma rápida busca no Scientific Electronic Library Online (SciElo) foi possível identificar 798 pesquisas relacionando os termos trabalho e hospitais, muitas tratando de temas como a precarização do trabalho[i], o sofrimento[ii], a saúde psíquica[iii] e a subjetividade[iv]. Em um trabalho que desenvolvi em conjunto com o professor Francis Kanashiro Meneghetti descobri que os profissionais da saúde estão entre os que mais se suicidam, devido a alta carga de pressão que sofrem, já que lidam diariamente com mortes e conflitos[v]. Silva (1998, p.27[vi]) já apontava em sua pesquisa que os profissionais de hospitais públicos do Rio de Janeiro “[…]  vinham sofrendo um intenso desgaste, produzido em sua relação com o trabalho, que se expressava ora em doenças passíveis de reconhecimento pelo saber médico, ora em desânimo, irritação e outros sinais de desgaste psíquico acentuado”. Ou seja, os profissionais da saúde estão sujeitos aos mais diversos tipos de transtornos mentais, causados pelos processos de subjetivação. No entanto, em tempos de pandemia do COVID-19, tal situação pode se acentuar ainda mais.

Ao tratar do processo de  subjetivação, recorri aos pensadores Guattari e Deleuze[vii], que se referem a ele como algo coletivo, advindo de várias “máquinas desejantes” que trabalham no inconsciente. Não é a subjetividade que vem do individual, da singularidade do indivíduo e que é definido como uma alienação, mas sim ela vem da construção coletiva, das várias máquinas que atravessam o inconsciente de forma incessante[viii]. Assim, quando se fala das inúmeras pressões que os profissionais da saúde estão sujeitos, tem-se a imagem das inúmeras máquinas atravessando seu inconsciente.

Interpretado como o Rizoma de Guattari e Deleuze (1995[ix]), a subjetivação é uma raiz sem fim  e que possui os seguintes princípios: 1) princípios de conexão e heterogeneidade; 2) princípio de multiplicidade; 3) princípio de ruptura. Logo, a subjetivação cresce sem ordem, advém de múltiplas máquinas ou processos e podem ter rupturas e novas conexões. Com isso, ficam as seguintes questões: O processo de subjetivação causaria complicações de ordem psicológica nos profissionais da saúde após a pandemia?  Quais máquinas ou construções coletivas atravessariam seu inconsciente? Talvez possamos citar duas das construções coletivas ou duas máquinas que atravessam o inconsciente dos profissionais da saúde nos tempos atuais: a invisibilidade perante a sociedade e a precarização no trabalho.

Em relação à invisibilidade do trabalhador, esta deve ser entendida como a falta de conhecimento e reconhecimento. O conhecimento sobre as atuais circunstâncias e o reconhecimento enquanto profissional atuante. No entanto, destaca-se que o nível de reconhecimento ou de visibilidade do sujeito tem variabilidade de acordo com a sua hierarquia, tendo ele uma posição hierárquica maior em sua profissão, maior é o reconhecimento adquirido.  Assim, médicos em geral possuem maior reconhecimento que os enfermeiros.

A falta de reconhecimento pode ser mais bem exemplificada no atual contexto vivenciado pelos trabalhadores da saúde. Eles não têm o devido reconhecimento social do seu trabalho, da sua dedicação e, muitas vezes, o “abrir mão” de suas próprias causas, pelas dos outros, não é algo visível. Em tempos de COVID-19, os profissionais vivem em constante tensão, as jornadas se tornam mais pesadas por conta dos pacientes, da mudança das rotinas familiares e do confinamento, pois na atualidade o que paira é o medo de infectar os que estão próximos.

Uma neurologista que trabalha em hospital da rede pública, em entrevista ao Bol[x], disse que resolveu sair de casa, deixando o filho de 11 meses para não ter que conviver com o medo de contaminar sua família. Outro neurologista, que permanece em casa, mudou toda sua rotina e vive praticamente isolado no seu quarto[xi]. São casos como estes que mostram a extrema dedicação desses profissionais. Mesmo tendo realizado o juramento ao se formar médico, tal situação foge do que sempre foi previsto por todos. Esses profissionais arriscam todos os dias as suas vidas em favor do próximo.

Mas, a sociedade nem sempre reconhece. Seu trabalho é invisível para muitos, que agem como se os profissionais os estivessem colocando em risco e não o oposto. Na França, uma enfermeira teve uma mensagem colocada no parabrisa de seu carro “Se um caso for confirmado no prédio, você será responsável”, segundo reportagem do Le Parisien[xii]. No Brasil, em ato em Brasília, enfermeiros que protestavam por melhores condições de trabalho após a morte de vários colegas foram atacados grosseiramente por um grupo, que os acusavam e xingavam[xiii]. Na Coréia do Sul, um paciente com coronavírus cuspiu em um profissional da saúde[xiv].

Em Barcelona, uma ginecologista teve seu carro pichado com “Rata contagiosa”, segundo El Mundo[xv]. Em Paris, o Hospital Lariboisière contratou seguranças para escoltar a equipe de médicos, por estarem sofrendo ataques fisícos, conforme reportagem no L’Express[xvi]. Talvez alguns falem que esses casos tenham sido motivados por medo, mas o medo não é uma justificativa plausível. A justificativa é a falta de empatia ou a própria ignorância.

É importante, diante dos relatos apresentados, verificar que de fato esses profissionais estão sendo transformados em ”vilões” por uma parcela da sociedade que não reconhece o importante trabalho desepenhado para que possamos vencer a pandemia. Tal fato pode corroborar para levar tais profissionais a piores condições psicológicas. Mas, cabe ainda destacar a precarização no trabalho desses profissionais.

Em relação a falta de condições de trabalho dos profissionais de saúde, evidencia-se a falta de equipamentos de proteção individual (EPI’s), como: luvas, máscaras e roupas apropriadas. Além da precariedade do ambiente de trabalho nos hospitais públicos. Na Itália 3,3 mil profissionais da saúde estão com COVID-19, entre eles: médicos, enfermeiros e operadores sanitários[xvii]. No Brasil, ainda no mês de abril mais de 8 mil profissionais estavam afastados por sintomas parecidos com o do novo coronavírus ou por estarem no grupo de risco[xviii]. A falta de condições de trabalho junto ao medo de ser infectado também pode contribuir para o agravamento das condições psicológicas dos sujeitos pós pandemia.

As hipóteses das condições psicológicas pós-pandemia de tais profissionais não são as melhores, por isso é necessário atenção à saúde mental. Se faz urgente um olhar diferenciado para as pessoas que estão na linha de frente da luta contra o COVID-19. Se faz necessário uma ruptura na raiz que cresce e novas conexões, e que estas conexões sejam de reconhecimento, de empatia, de solidariedade, de maior conhecimento, de respeito…

De minha parte? Deixo aqui minha admiração e meu total reconhecimento a esses profissionais!

Referências:

[i] ARAUJO-DOS-SANTOS, Tatiane et al . Precarização do trabalho de enfermeiras, técnicas e auxiliares de Enfermagem nos hospitais públicos. Rev. esc. enferm. USP,  São Paulo ,  v. 52,  e03411, 2018.

[ii] SÁ, Marilene de Castilho; AZEVEDO, Creuza da Silva.  Trabalho, sofrimento e crise nos hospitais de emergência do Rio de Janeiro. In: UGÁ, M.A.D., et al., (orgs.). A gestão do SUS no âmbito estadual: o caso do Rio de Janeiro [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2010.

[iii] COSTA, Maria Teresa Pires; BORGES, Livia de Oliveira; BARROS, Sabrina Cavalcanti. Condições de trabalho e saúde psíquica: um estudo em dois hospitais universitários. Rev. Psicol., Organ. Trab.,  Florianópolis ,  v. 15, n. 1, p. 43-58, mar.  2015.

[iv] SILVA, Claudia Osorio da. Trabalho e subjetividade no hospital geral. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 18, n. 2, p. 26-33,   1998.

[v] TORRES, Kamille Ramos; MENEGHETTI, Francis Kanashiro. O suicídio nas organizações e no trabalho: uma discussão necessária. In: WANDERBROOCKE, Ana Claudia N. C.; DIAS, Maria Sara de Lima. Suicídio – Abordagens Psicossociais para Prevenção. vol 2. Curitiba: Juruá, 2020.

[vi] Idem item iv.

[vii] GUATTARI, Felix; DELEUZE, Gilles. O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Tradução de Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Ed. 34. 2010.

[viii] GUATTARI, Felix; ROLNIK, Suely. Micropolítica: Cartografias do Desejo. Petrópolis: Vozes, 1986.

[ix] GUATTARI, Felix; DELEUZE, Gilles. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Tradução de Aurélio Guerra e Célia Costa. Vol.1 Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.

[x] CAMARA, Thiago. A rotina de profissionais da saúde: Distância da família, estresse, medo. BOL, 23 mar. 2020. Disponível em: https://www.bol.uol.com.br/noticias/2020/03/23/as-dificuldades-dos-profissionais-da-saude-durante-a-pandemia-da-covid-19.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em: 11 maio 2020.

[xi] Idem item x.

[xii] SÍMON, Bartolomé. Infirmière menacée en Essonne : «Si un cas se confirme dans la résidence, vous serez tenue pour responsable». Le Parisien, 30 mar. 2020. Disponível em: http://www.leparisien.fr/essonne-91/infirmiere-menacee-en-essonne-si-un-cas-se-confirme-dans-la-residence-vous-serez-tenue-pour-responsable-30-03-2020-8290968.php. Acesso em: 11 maio 2020.

[xiii] LINDNER, Julia. Enfermeiros são agredidos por bolsonaristas durante ato. Terra, 01 maio 2020. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/coronavirus/enfermeiros-sao-agredidos-por-bolsonaristas-durante-ato,b794c935eccce42328495b31b3e4871do95g0t4w.html. Acesso em: 11 maio 2020.

[xiv] QUEIROGA, Louise. Jovem com coronavírus cospe em profissional de saúde, que precisou se isolar. Extra, 28 fev. 2020. Disponível em: https://extra.globo.com/noticias/saude-e-ciencia/jovem-com-coronavirus-cospe-em-profissional-de-saude-que-precisou-se-isolar-24277732.html. Acesso em: 12 maio 2020.

[xv] ORTIZ, Ana María. La ginecóloga a la que llamaron “rata contagiosa”: “Encima de que nos jugamos la vida, que suframos estas vejaciones es humillante”. El Mundo, 16 abr. 2020. Disponível em: https://www.elmundo.es/espana/2020/04/16/5e96fb3221efa09e0f8b4640.html. Acesso em: 11 maio 2020.

[xvi] A L’HÔPITAL Lariboisière à Paris, des gardes du corps pour raccompagner les soignants. L’EXPRESS, 01 abr. 2020. Disponível em: https://www.lexpress.fr/actualite/societe/a-l-hopital-lariboisiere-a-paris-des-gardes-du-corps-pour-raccompagner-les-soignants_2122654.html. Acesso em: 11 maio 2020.

[xvii] MAIS de 3,3 mil profissionais da saúde estão com Covid-19 na Itália. Terra, 20 mar. 2020. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/mundo/mais-de-33-mil-profissionais-da-saude-estao-com-covid-19-na-italia,1e8770d8549f223eac80ab229114218aezkpj8at.html. Acesso em 11 maio 2020.

[xviii] BRASIL tem 8.265 profissionais da saúde afastados em meio à pandemia de COVID-19. O Tempo, 17 abr. 2020. Disponível em: https://www.otempo.com.br/brasil/brasil-tem-8-265-profissionais-da-saude-afastados-em-meio-a-pandemia-de-covid-19-1.2325952. Acesso em: 11 maio 2020.

¹Mestre em Administração pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
TORRES, Kamille Ramos. Subjetivação, invisibilidade e precarização: o trabalho dos profissionais da saúde. Nuevo Blog, 15 maio 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/05/15/subjetivacao-invisibilidade-e-precarizacao-o-trabalho-dos-profissionais-da-saude/. Acesso em: ??

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