Leitores prudentes celebram suas próprias ignorâncias!

Por Francis Kanashiro Meneghetti

Não existem verdades definitivas. Mas existem verdades possíveis. Isso implica em abandonar qualquer forma de meio termo, de mediocridade, de senso comum. As possibilidades como verdades têm maiores chances de estarem nos exageros, nos radicais, nos extremos. Um escritor que abandona a busca das verdades possíveis em detrimento do meio termo, da mediocridade, do senso comum é, na verdade, um covarde. Diria até mesmo que é um traidor da arte de se tentar comunicar baseado na boa-fé. A busca por leitores satisfeitos, hoje medidos pelos likes, pelo número de seguidores, pelos comentários positivos, mostra a covardia dos escritores atuais. Escrever é uma arte, assim como ler. Escrever requer habilidade. Ler também. Esforços a parte, escritores e leitores vivem uma fantasia juntos. A vontade de estarem juntos, os unem nas palavras e ideias encadeadas nas palavras que escolheram para se encontrarem, mesmo que por algum tempo – um livro, um verso, uma obra, uma frase. Mas sabem que mesmo juntos estão separados, cada um construindo sua realidade a partir das próprias faculdades de julgamento. Cada um aprende a contar da sua forma a fantasia que vivem juntos, sobretudo quando estão afastados do escrito que os unem. As verdades possíveis que se constituem entre escritores e leitores ocorrem, primordialmente, pela tentativa de afastamento de ambos da ignorância. Mas hoje tenho a impressão que chegamos a situação calamitosa de achar que não são os ignorantes que fogem da ignorância, mas o contrário. A era das redes sociais, do WhatsApp, das Fake News, empoderou os ignorantes, nos seus múltiplos sentidos. Ignorantes porque desconhecem; mas, também, porque não querem deixar de desconhecerem simplesmente porque necessitam vivenciar o sentimento de pertença entre os imbecis. A situação é de uma estupidez tão grande que os leitores caídos – no sentido dos anjos caídos bíblicos mesmo – são capazes de afirmar que o que um escritor quer dizer na sua obra não é o que ele afirma. Assim, verdades possíveis são substituídas pelas verdades definitivas definidas pelos ignorantes. No extremo, caracterizam-se por desconhecerem, por não quererem deixar a condição do não conhecimento; mas, também, porque se tornam violentos e agressivos quando alguém questiona suas interpretações da realidade, mesmo que seja o autor da leitura que os interpelam com a realidade.

Uma ponderação é necessária. Alguns leitores podem considerar que a relação escritor-leitor é de uma forma de conversa. Como afirma Proust, “a leitura não poderia ser assimilada a uma conversação, mesmo com o mais sábio dos homens; que a diferença essencial entre um livro e um amigo, não é a sua maior ou menos sabedoria, mas a maneira pela qual a gente se comunica com eles, a leitura, ao contrário da conversação, consistindo para cada um de nós em receber a comunicação de um outro pensamento, mas permanecendo sozinho, isto é, continuando a desfrutar do poder intelectual que se tem na solidão e que a conversação dissipa imediatamente, continuando a poder ser inspirado, a permanecer em pleno trabalho fecundo do espírito sobre si mesmo”[1].

Duas observações podem se constituir como verdades possíveis. Primeiro, que permanecemos o tempo todo sozinhos no ato da leitura. Um dos motivos é simples. A boa leitura e a boa escrita são baseadas em artes distintas. Um bom escritor não é, necessariamente, um bom leitor. E o inverso também pode ser verdadeiro. O fundamento dessa afirmação consiste no fato que as verdades possíveis são produtos históricos de suas épocas. E a da atualidade é de um total apego narcísico aos relativismos vulgares, que transformou escritores e leitores em consumidores, sobretudo das formas de ignorâncias citadas.  Segundo, que a solidão do escritor e/ ou leitor é em si mesmo uma fonte de saber porque simplesmente nos impõe a imanência da intimidade. É como se fossemos forçados a dialogar com nós mesmos no ato da leitura. Mesmo trilhando as ideias e as palavras do escritor, o que vivenciamos é a criação de um “universo paralelo” em que o outro do outro não é o escritor per se, mas nossa própria intimidade tentando se comunicar com todo nosso potencial de ignorâncias.

Enfim, apesar de todos os esforços, somos protagonistas das nossas ignorâncias. Devemos evitar as verdades definitivas, pois se constituem como atos de onipotência do pensamento de leitores ignorantes. O que podemos, apenas, é tentar vivenciar as verdades possíveis a partir da relação (in)dependente de escritores e leitores. Leitores prudentes celebram suas próprias ignorâncias!


[1] PROUST, Marcel. Sobre a Leitura. Campinas, SP: Pontes, 1989, p. 27.


Francis Kanashiro Meneghetti é Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade e no Programa de Pós-Graduação em Administração pela Universidade tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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