Quem nos faz tão bem?

Por Francis Kanashiro Meneghetti

Você sabe quem te faz bem? São poucas pessoas, certamente. Muitas pessoas que consideramos positivas para nós, no fundo, nos geram mais estresse, desgaste emocional, fadiga e perda de saúde mental. E isso, muitas vezes, tem pouco a ver com a proximidade ou distância que temos dessas pessoas.

Existem convivência com familiares que nos fazem um bem enorme. Nos tornam, inclusive, pessoas melhores. Podemos passar anos, décadas, convivendo diariamente com elas. Essa situação é, sem dúvida, uma dádiva, pois são poucas experiências como essas que encontraremos na vida. Aliás, algumas pessoas nunca terão essa oportunidade na vida. Com outros familiares estabelecemos relações difíceis e o convívio com eles é quase um martírio diário.  Não é fácil admitir essa realidade, sobretudo quando esses familiares são pessoas muito próximas como pai, mãe, irmãos, avós, avôs, por exemplo. Nessas situações, o julgamento moral de outras pessoas e de nós mesmos acaba por criar uma tensão psíquica e pressão moral enorme.  Relacionamentos com outros familiares como tios, primos, etc., são mais fáceis de administrar porque podemos, de certa forma, regular os encontros, o tempo de convivência e a frequência. Tudo bem que os últimos anos tem feito que nossa tolerância nos almoços de domingos tenha se tornado menor, sobretudo por causa dos últimos acontecimentos políticos.

Outras convivências exigem paciência, resiliência, sacrifícios, no início; entretanto, algumas delas, com o tempo, nos possibilitam descobrir belezas que no futuro serão aproveitadas. São as relações que se iniciam de forma pragmática ou por obrigações que a vida nos coloca. São relações com professores, colegas de trabalho, autoridades, profissionais, clientes, fornecedores, colegas do futebol, etc. Podem surgir relações duradouras e que geram bem-estar, dependendo da empatia originária e posterior desdobramento dessas relações.

Existem convivências, aparentemente, mais fáceis de administrar. São aquelas em que temos o “poder” de escolha no estabelecimento da convivência com essas pessoas. São com os nossos amigos, colegas ou pessoas de determinados grupos. Mas cuidado! Às vezes escolhemos essas pessoas porque gostamos delas, mas isso não quer dizer que elas são boas companhias. É possível gostar de alguém, mas isso não implica em ter um convívio saudável ou mesmo prazeroso. Muitos desses relacionamentos estão sob o princípio da pulsão de morte!

O problema é quando em cada um desses grupos temos que conviver com um número significativo pessoas nas quais são difíceis os relacionamentos. Não se trata aqui de julgar quem está certo ou errado na relação ou de estabelecer uma disputa pelas razões que nos levam a relacionamentos difíceis. Trata-se apenas de conseguir ter clareza de quem nos faz bem. Trata-se de ter clareza do quanto uma relação pode ser difícil, mas mesmo assim nos fazer bem e do quanto algumas podem ser fáceis e nos fazer mal. A situação é complexa mesmo. A questão é saber por quanto tempo temos que conviver com relacionamentos ruins ou difíceis para que ela possa se tornar algo que nos faça bem. Ou quando devemos abandonar relações que nos fazem mal. O problema é que a forma como o mundo se organiza hoje, principalmente como se estabelecem as relações econômicas e políticas, tem nos levado a um número cada vez maior de relacionamentos ruins e que não nos fazem tão bem.

Esse isolamento social é um bom momento para revermos não só quais pessoas queremos continuar a conviver no futuro, mas sobretudo identificar aquelas que nos fazem bem ou que podem vir a nos fazer.

Um ponto é importante para termos maior discernimento. É saber como podemos criar condições para convivermos, primeiro, melhor com nós mesmos. A questão: o que devemos fazer para melhor nossa convivência com nós mesmos? é central e o ponto de partida para uma mudança.

Escolha conviver mais intimamente com situações que extraiam o melhor de você! Escolha leituras que te fazem bem, que tenham personagens que dialoguem com o mais íntimo de você. Escolha músicas que o torna uma boa companhia para si mesmo. Escolha comidas, esportes, estudos, atividades artísticas que resgate o sentimento de ser uma boa companhia para você mesmo, antes mesmo de ser para os outros.

Pense mais nas pessoas que te fazem bem; ou que fizeram no passado; ou que podem fazer no futuro. Passe a gostar mais de si mesmo a partir das relações com essas pessoas. Passe a gostar mais de você a partir das relações que estabelece com o mundo, com o que faz, com o que pensa, com o que diz e ouve!

Pense nas possibilidades… Por fim, indico aqui uma música que gosto muito e que me faz tão bem: Você me faz tão bem, do Detonautas.

Indico, ainda, dois livros que me tornaram um leitor melhor: A Arte de Ler, de Émile Faguet; Contos Reunidos, de Fiódor Dostoiévski.

Se essas dicas não te fizerem tão bem quanto fizeram e fazem para mim, deixe para lá e procure em você o que e quem te faz tão bem!


Francis Kanashiro Meneghetti é Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade e no Programa de Pós-Graduação em Administração pela Universidade tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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