A esperança habita o céu estrelado!

Por Francis Kanashiro Meneghetti

Quando eu era criança, antes mesmo dos dez anos, duas situações me deixavam espantado! Primeiro, a violência. Segundo, o céu estrelado!

A primeira situação me transformou em um cientista. São vinte anos dedicados a realização de pesquisas e estudos sobre a violência, nas suas formas de manifestações mais cruéis. Depois de dez anos de estudos, acabei escrevendo sobre as Organizações Totalitárias, livro que publiquei em 2019, e relata a forma bárbara como organizações como os esquadrões de morte, os tribunais do crime e o Hospital Colônia de Barbacena exterminaram de forma sistemática e planejada milhares de pessoas depois de perpetrarem as piores violências possíveis – estupro, torturas, humilhações, mortes por inanições, etc.

A segunda, me faz não perder a esperança na própria existência, não somente humana, mas sobretudo nas outras formas possíveis, da qual sua condição primordial é a vida como um ser e não apenas um ente. Por levar extremamente a sério isso, fiz da segunda opção um entretenimento, uma diversão, um passa tempo, pois nessa condição preservo toda autonomia necessária para poder imaginar, exercer liberdade intelectual e não sofrer as amarras da burocracia performática utilitarista que se instalou na vida profissional na modernidade. Se houvesse tornado minha profissão, sobretudo sob a lógica da ciência tradicional e convencional, não poderia continuar a sonhar e manter minhas esperanças dado que o ceticismo é sempre uma necessidade científica, pelo menos da ciência como a conhecemos até hoje.

O céu estrelado me leva a noites e mais noites lendo romances, relatórios, reportagens, assistindo documentários, filmes, debates, dos mais diversos espectros do conhecimento humano – das ciências, religiões, etc.-, nas mais diversas mídias e veículos de divulgação sobre o tema da vida extraterrestre. Dou-me a liberdade de me iludir, de fantasiar, de acreditar ou não, de forma permanente ou transitória, mas nunca definitiva, de que há vida no horizonte das estrelas e para além delas.

Entre as referências sobre o tema que gosto muito está o livro “Contato”, de Carl Sagan. O filme também é uma boa indicação, apesar do livro, como na maioria das obras, ser mais interessante porque permite o leitor ser protagonista das diversas formas de interpretação.

O filme permite analisar como não estamos preparados para uma possível existência de vida, sobretudo inteligente, para além do nosso “mundinho” chamado Terra. Redes de interesses e poderes, individuais e coletivos, dogmas religiosos, estados e governos que existem a partir do fisiologismo econômico e político, limites das ciências são apenas alguns entraves.

Mas o mais brutal de tudo, presente no livro e no nosso cotidiano, é a onipotência e os preconceitos humanos, presentes, ainda, na grande maioria de nós. Estudos até o momento mostram que existem 4241 exoplanetas potencialmente habitáveis, ou seja, que atendem os Índices de Similares com a Terra. Estes números de planetas potencialmente habitáveis são de análises apenas de 3139 sistemas planetários[1]. Levando em consideração que existam dez sextilhões de estrelas[2], o número de potenciais planetas habitáveis é extraordinário, só no universo observável. Isso sem levar em consideração a possibilidade ainda de existirem formas de vida que fogem aos nossos padrões físico-químico-biológicos.

Mesmo com evidências quantitativas, não é possível cravar que exista vida fora da terra, pois não há uma prova definitiva, como requer a comprovação tradicional da ciência. Mas estamos longe de afirmar que não existe vida fora da Terra. Mas a questão aqui não é uma discussão baseada na objetividade da ciência, mas sim na minha própria subjetividade, no meu desejo de que a vida seja regra e não exceção no universo. Por isso, fiz desse tema meu refúgio imaginário, onde razão e desejo podem conviver em permanente contradição.

Depois de anos de reflexões sobre os temas que movem minha profissão e minha diversão, tenho certeza que uma nova Era – agora sim em maiúsculo – só é possível quando a vida for o bem maior, para a humanidade. Até agora parece que vivemos em uma sociedade em que cada um olha para seu próprio umbigo e faz o centro da Terra o horizonte da sua esperança. A esperança está no céu estrelado, na possibilidade da vida não ser um acidente, uma singularidade nesse enorme – e talvez infinito – universo! Prefiro acreditar na ilusão da existência de vida fora do nosso mundinho, do que nas crenças de que a vida é somente um processo de sobrevivência (produção e consumo) que no fim não nos torna pessoas melhores, mais felizes, mais solidárias e humanas!

Mesmo que tudo isso seja uma ilusão construída pelo meu desejo e que não haja vida nas estrelas, ainda sim prefiro acreditar nela. Ninguém consegue viver sem sonhos, ilusões, idealizações nem mesmo os céticos e materialistas. Mas é importante ter cautela para não impor suas crenças para outras pessoas, apesar de ser fundamental compartilhá-las. É necessário acreditar na arte como forma primordial de manifestação humana, pois sem ela não há conhecimento, inclusive científico.  É essencial continuar a imaginar, para poder seguir sonhando e sentir que nossa vida está além dos paradigmas físico-químico-biológico. É fundamental acreditar que existe vida para além da Terra, para poder continuar a ter objetivos para além da mesquinhez e mediocridade da vida que estruturamos para a humanidade. É preciso continuar a olhar o céu noturno, para continuar a dar sentido a nossa própria existência. É preciso sonhar com o além das nossas vidas, para mantermos a esperança!


[1] Ver http://phl.upr.edu/library/notes/thenewpotentialhabitableexoplanetscandidatesofnasakepler

[2] Ver informação contida no site do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais:  http://www.inpe.br/faq/index.php?pai=11


Francis Kanashiro Meneghetti é Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade e no Programa de Pós-Graduação em Administração pela Universidade tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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