“Top 10: Probabilidades” e a Obstrução da Educação para Autonomia

Carolina Machado Saraiva¹

“Os homens não são mais aptos à experiência, mas interpõem entre si mesmos e aquilo a ser experimentado aquela camada estereotipada a que é preciso se opor.” (ADORNO).

Em 21 de janeiro de 2020, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) protocolou junto 2ª Vara Criminal de Brumadinho denúncia acusando 16 pessoas por homicídios dolosos duplamente qualificados e diversos crimes ambientais. O MPMG alega que a Vale e a Tüv Süd sabiam do risco de rompimento da barragem, ao menos desde 2017, o que pode ser comprovado pelos estudos de risco de rompimento de barragem realizados por ambas e analisados pelo acusador. Dentre os 5 terabites de documentos e arquivos analisados, o MPMG encontrou uma lista intitulada “Top 10: Probabilidades”, que é a listagem das 10 barragens da empresa Vale que atuam acima dos limites de segurança e que têm risco de rompimento a qualquer momento. A barragem de Brumadinho era a 8º das listadas no documento (MPMG, 2020).

A tão aclamada transparência corporativa se torna opaca, não como um viés do sistema, mas como uma dimensão própria dele. Mecanismos de barbárie são integrados à lógica de funcionamento dos sistemas, que justificam todos os fins, com base na premissa da otimização dos meios com o objetivo de reprodução do capital.  

A “Top 10: Probabilidades” é a expressão da função da educação em nossa sociedade: educação para obstruir as consciências críticas, para destruir a solidariedade entre as pessoas, para impedir a empatia e para transformar a todos nós em espectros de humanidade. E tal vem sendo historicamente produzido. Adorno, já na década de 1950/60, fazia tal denúncia. Seu texto, intitulado Educação – para que?, já descrevia como a educação moderna perdeu seu sentido e tornou-se uma forma eficiente de unidimensionalidade dos sujeitos na sociedade. Ela servia para aderir.

A educação para a autonomia, que deveria ser seu papel formativo, enfrenta dois problemas, a saber:

-O mundo administrado: o mundo se tornou sua própria ideologia. Ele não mais se difere desta. Essa identificação impõe sobre os sujeitos uma pressão por ajustamento enorme, já que é entendido não haver nenhuma outra alternativa de vida contrário à forma estabelecida pela sociedade;

-A produção do well adjusted people: a automonia é uma racionalização, conscientização sobre a realidade. Essa conscientização impõe sobre o sujeito uma certa capacidade de adaptação. Esta, quando superlativa, elimina as particularidades do sujeito e julga-o conforme sua capacidade de ajustamento à realidade imediata.

Frente a este “conformismo onipresente” a escola deveria educar para a resistência. O que se encontra, no entanto, é um recrudescimento da experiência: “empobrecimento do repertório da linguagem, de imagens e de toda a expressão”. No mundo administrado tudo é planejado, medido, prescrito. Não há espaço para a criatividade, para os erros, para a experiência não-modelada, assistemática. “Se adquirimos essa experiência mediante um processo, ele próprio por sua vez ordenado, torna-se duvidosa a mesma profundidade da experiência” (ADORNO, p.147).

Para Adorno isso cria uma certa aversão dos sujeitos à educação, pois eles querem se “desvencilhar da consciência e do peso de experiências primárias, porque isso dificulta sua orientação” (p. 149).  A educação esvaziada de sentido se tornou um fenômeno de ressentimento:

Essas pessoas odeiam o que é diferenciado, o que não é moldado, porque são excluídos do mesmo e porque, se o aceitassem, isto dificultaria sua “orientação existencial”, como diria Karl Jaspers. Por isto, rangendo dentes, elas como que escolhem contra si mesmas aquilo que não é propriamente sua vontade. A constituição da aptidão à experiência consistiria essencialmente na conscientização e, desta forma, na dissolução desses mecanismos de repressão e dessas formações reativas que deformam nas próprias pessoas sua aptidão à experiência. Não se trata, portanto, apenas da ausência de formação, mas da hostilidade frente à mesma, do rancor frente àquilo de que são privadas. Este teria de ser dissolvido, conduzindo-se as pessoas àquilo que no íntimo todas desejam (ADORNO, p. 149).

A conscientização é o melhor meio que a educação tem para educar para a autonomia. Pensar de forma consciente é mais que um exercício lógico-racional, é uma forma de se estabelecer experiências no mundo e fazer experiências é emancipar-se.

No tocante à educação para o trabalho, esta situação torna-se ainda pior, já que no trabalho não existe mais individualidades. Ele está imerso nos modelos gerais de antindividualização: “as possibilidades sociais mais reais, ou seja, os processos de trabalho, já não exigem mais as propriedades especificamente individuais” (ADORNO, p. 152). O trabalho promove uma fragmentação do sujeito.

A saída aprontada por Adorno é uma educação para a originalidade (ao citar Goethe): uma educação que construa a individualidade dos sujeitos na experiência do não-eu no outro (alienação). Deve-se buscar formar pessoas que entendam a dialética entre adaptação e individualidade criando o denominado “núcleo impulsionador da resistência”, que combaterá a “consciência desleixada”.

Compreendendo o para quê da educação, incrementamos nosso conhecimento sobre a obstrução da experiência escolar. Como podem os discentes encontrar sentido em algo que tem sido sistematicamente estruturado para promover experiências fragmentadas de vida e esvaziado de transcendência? Como encontrar alguma aptidão à experiência no ensino apostilado, nas aulas montadas pelas editoras de livros didáticos, nas provas prontas, com um único modelo de avaliação, nos roteiros de aula já determinados nos famigerados handbooks? Como um professor pode ter condições de fazer da sala de aula um ambiente de aprendizagem, quando não há condições estruturais para tal? Quando ele é cobrado por métricas instrumentais que o avaliam conforme o número de aprovações/reprovações? Como a sala-de-aula ainda pode ser um espaço criativo, se os alunos não encontram sentido no que encontram lá, se lá tudo está pronto, posto sobre eles e nada é criado por eles?

Não são razões somente estruturais, econômicas ou sociais que explicam o esvaziamento de sentido formativo da educação. Grande parte de sua raiz encontra-se na perda de sentido do ensino superior e na sua incapacidade de transformação dos sujeitos. Há de se pensar nisso, sob o risco de se dar respostas rápidas e fúteis ao tema. Ao invés da astúcia, devemos usar a reflexão crítica para começarmos a entender o nó de górdio do projeto da educação para autonomia.

Referências:

ADORNO, Theodor. Educação – para quê? (1967) In: Educação e Emancipação. Paz e Terra: São Paulo, 2003.

¹Doutora em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professora Adjunta da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

Como citar:
SARAIVA, Carolina Machado. “Top 10: Probabilidades” e a Obstrução da Educação para Autonomia. Nuevo Blog, 26 maio 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/05/26/top-10-probabilidades-e-a-obstrucao-da-educacao-para-autonomia/. Acesso em: ??

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