Sobre ter certeza de ser mal para tentar ser bom!

Por Francis Kanashiro Meneghetti

“Há alguma razão em fazer o julgamento de um homem pelos aspectos mais comuns de sua vida; mas, tendo em vista a natural instabilidade de nossos costumes e opiniões, muitas vezes me pareceu que mesmo os bons autores estão errados em se obstinarem em formar de nós uma ideia constante e sólida[1]

Sou um poço de contradições morais, jogado no tempo, à espera do devir. Quando escrevo sobre meus pensamentos, feitos, sentimentos, razões, não tenho a pretensão de parecer bom. Se eu passo essa impressão não é com essa intenção, mas é porque tenho uma imensa necessidade de me apegar a situações cotidianas do passado, que me deem a ilusão de que, no pesar da balança, o bem parece estar muito mais presente em mim do que o mal. De forma geral, pessoas psiquicamente “sadias” adotam essa conduta: criam um imaginário positivo sobre si mesmo para poder suportar a possibilidade de não serem tão bons quanto pensam que são. No fundo, acredito na frase de Millôr Fernandes: “o maior altruísta é o maior egoísta!”.

Meu suposto altruísmo é, na realidade, reflexo de uma consciência que se constituiu dentro de uma sociedade que, para continuar existindo como civilização e negando-se como barbárie, precisa se ater a ilusões e fantasias.  O contraditório é que quanto mais se quer parecer bom, mais se alimenta o mal moral. Explico. A busca por parecer algo é, antes de tudo, motivada pelo medo de ser rejeitado, ignorado, menosprezado, de parecer tolo, de ser excluído, de ser negado na minha importância ontológica. Há uma negatividade inerente ao meu altruísmo, a de negar a possibilidade do bem como consequência do livre-arbítrio. No desespero, tento me salvar no ideal metafísico da existência de um princípio inteligente, atribuindo ao mal que me pertence a qualidade de ignorância transitória.

No fundo, quando escrevo, tenho a pretensão de afastar meus medos, meus fantasmas e de evocar minhas ilusões estruturados nas fantasias do meu imaginário. Para mim, a escrita como arte é a negação do bem como aparência.


[1] Montaigne, Michel de. Os Ensaios: Uma Seleção. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


Francis Kanashiro Meneghetti é Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade e no Programa de Pós-Graduação em Administração pela Universidade tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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