Os Estudos Organizacionais e os conflitos epistemológicos e ideológicos

Por Kamille Ramos Torres e Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna

Á partir de hoje, dia 01 de junho de 2020,  nós inauguramos a nossa coluna intitulada “Pensadores, Teorias e Contribuições nos Estudos Organizacionais”, tendo como objetivo apresentar as contribuições teóricas e metodológicas em uma linguagem facilitada.

Mas, o que são Estudos Organizacionais?

Os Estudos Organizacionais é um campo que abarca pesquisas intra e inter-organizacionais e para isso, relaciona teorias e pensadores das mais diversas áreas como: Sociologia, Psicologia, Filosofia, Ciência Política, Economia, entre outros. Sobre isso Fischer (2001[i]) atesta que os Estudos Organizacionais é um campo “polissêmico e hibrído”, com visões polarizadas. O próprio significado dos estudos organizacionais é algo não tão fácil de se conceituar[ii].

Sua origem está em escritos de pensadores do século XIX, que tentaram prever as transformações propiciadas pelo capitalismo industrial[iii].  No fim do século XIX e início do XX, as transformações vividas nas diferentes esferas da sociedade exigiram maior capacidade administrativa[iv]. Ou seja, com a Revolução Industrial, novas organizações se desenvolveram. As organizações existentes na época, que não se baseavam na busca por lucro e sim na convivência e trocas, se tornaram raridade. A produção que era para fins familiares, se tornou fonte de capital financeiro. Com essas novas organizações surgindo na sociedade, a mão de obra especializada se fez necessária e as teorias organizacionais se desenvolveram.

Reed (1999) explica que na época “[…] os teóricos organizacionais depositavam sua fé na organização moderna como a solução universal para o problema da ordem social”[v]. A organização simbolizava o poder, um meio de controlar a sociedade, segundo o autor.

Mas, Reed (1999) chama a atenção para o surgimento de um novo entendimento do que a organização simboliza, que é de um campo em que tudo é cabível de critícas e reavaliações (o autor cita a ciência revolucionária de Kuhn). A “[…] pesquisa e a análise são moldadas pela busca de anomalias e contradições dentro de um modelo teórico prevalecente, gerando uma dinâmica intelectual interna de conflitos teóricos”[vi]. Ou seja, a área dos estudos organizacionais em si, é permeada por “conflitos epistemológicos e ideológicos”.

“Há divergências quase incontornáveis dentro das mesmas correntes, como a polêmica entre Gibson Burrell e Gareth Morgan ou entre linhas de trabalhos contemporâneos, mas com focos diversos, como revela o embate entre Henry Mintzberg e Marta Calás, sobre a descontração crítica feita pela segunda aos estudos de gerência realizados pelo primeiro. A diversidade de abordagens, correntes e vieses remete à diversidade dos paradigmas disciplinares que sustentam campo”[vii].

Tais conflitos e divergências trazem uma perspectiva de complementaridade entre diferentes paradigmas e suas teorias aos estudos das organizações, sendo um elemento essencial na caracterização das ciências sociais e em sua diferença de áreas menos fluidas. Esta fluidez está nos próprios indivíduos e seus comportamentos, em sua interação com o ambiente, pelas relações sociais, tecnológicas e políticas que são responsáveis pela estruturação das organizações sociais.

É diante desse entendimento que surge a coluna proposta.  Não é nosso objetivo exaurir a análise das organizações, mas apresentar o que já se tem estudado e quais teorias e pensadores podem ser utilizados para pensarmos as organizações. Estaremos apresentando pensadores, teorias, além de livros, artigos, dissertações e teses que representem a contribuição de alguns pensadores para o campo. Publicaremos uma vez na semana e contaremos com o auxílio de outros autores.


[i] FISCHER, Tânia Maria Diederichs. Difusão do conhecimento sobre organizações e gestão no Brasil: seis propostas de ensino para o decênio 2000/2010. Rev. adm. contemp.,  Curitiba ,  v. 5, n. spe, p. 123-139,    2001.

[ii] (CLEGG, 1998 apud FISCHER, 2001).

[iii] REED, Michael. Teorização Organizacional: um campo teoricamente contestado. In: CLEGG, Stewart R.; HARDY, Cynthia; NORD, Walter R. (Orgs.).  Handbook de Estudos Organizacionais: Modelos de Analise e Novas Questões de Estudos Organizacionais. Miguel Caldas, Roberto Fachin e Tânia Fischer (Orgs. da edição brasileira). São Paulo: Atlas, 1999. Vol. I.

[iv] Idem item iii.

[v] Reed (1999, p. 62).

[vi] Reed (1999, p. 63).

[vii] FISCHER, Tânia Maria Diederichs. Difusão do conhecimento sobre organizações e gestão no Brasil: seis propostas de ensino para o decênio 2000/2010. Rev. adm. contemp.,  Curitiba ,  v. 5, n. spe, p. 123-139,    2001, p.128.


Kamille Ramos Torres é Mestre em Administração pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna é Doutorando em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

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