Filosofar… Para quê?

Fausto dos Santos Amaral Filho¹

Geralmente quem se pergunta pelo para quê de algo tem interesse em saber qual a finalidade deste algo, para que serve, qual a sua utilidade, ou ainda, up to date, o que é que se lucra com isso?  Portanto, parece ser fácil responder a questão proposta, pois creio que ninguém se embaraçaria ao ser perguntado, por exemplo: “trabalhar, para quê?”, “regar as plantas, para quê?”, ou ainda, “cozinhar, para quê?”. Contudo, apesar de lidar com essa coisa já faz alguns anos, tendo feito um bacharelado, uma licenciatura, um mestrado e um doutorado em Filosofia, lecionando-a por anos a fio, agora, instigado a responder a referida questão, confesso que estou embasbacado, prestes a admitir que não sou capaz de fazê-lo adequadamente.  Assim, evidentemente, o melhor a fazer seria parar por aqui, ou ainda, procurando uma saída mais ou menos honrosa, grandiloquentemente, tergiversar, falando que filosofar é algo muito importante e belo, podendo ser um diferencial interessante na vida de qualquer pessoa, ainda mais agora, que estamos prestes a adentrar em um novo normal para o qual precisamos inexoravelmente nos reinventar. Quando, então, poderia até aproveitar o ensejo para lançar um curso on-line, prometendo que lá, junto a discípulos diletos, daria a resposta adequada, exata e definitiva à esotérica questão, a qual o senso comum da massa ignara não seria capaz de compreendê-la. Pelo que, nem valeria a pena oferecê-la assim, de mão beijada, aos incautos infiéis. Creio, também, que poderia causar uma boa impressão, agregando valor ao texto, parodiar um grande filósofo, como Santo Agostinho, mostrando certo grau de erudição: Se ninguém me perguntar, sei o que é filosofar, mas, se perguntado, já não sei.

Porém, ainda que apoiado em um grande filósofo, ou talvez por isso mesmo, para ser minimamente honesto comigo, não me ocultando por detrás de um suposto saber presunçoso, percebo que, ao fim e ao cabo, tenho que admitir que não sei responder prontamente, sem hesitação, a tão simples questão e, como na piada contada por Platão, como um Tales de Mileto, parece que, ao tentar uma resposta, acabo sempre no mesmo buraco, sujeito, da mesma forma que o filósofo pré-socrático citado, a servir de chacota aos demais.

Mas, então, é este o para quê do filosofar? É para isto que serve? Para levar aquele que filosofa a cair em um buraco, e, além do mais, proporcionar o riso desenfreado daqueles que observam o exercício de tal atividade? Mas, se é assim, não é realmente espantoso que, diante de tantas outras coisas mais úteis para se fazer, alguém ainda possa decidir-se a filosofar? Sim, é realmente espantoso!

Ora, mas se filosofar pode nos causar tanto espanto, isso não significa que, no fundo do poço, pode ser que estejamos, se não próximos de uma resposta definitiva, pelo menos vislumbrando uma possível compreensão para a devida elaboração da nossa pergunta? Afinal, na tradição filosófica, desde Platão e Aristóteles, não é o espanto que nos obriga a filosofar? Sim, é o espanto! Portanto, se ao tentarmos responder a questão proposta, acabamos caindo em um buraco, o que nos causou tanto espanto, é a partir do buraco que teremos que prosseguir pensando.

Como geralmente se diz, é quando nos falta o chão que caímos no buraco. O buraco é sobretudo a falta. Só somos capazes de reconhecer a falta quando julgamos que algo deveria estar ali, preenchendo o seu lugar.  O lugar da falta é preenchido pelo ausente, que, por não estar ali, constitui o buraco, proporcionando a queda. A queda interrompe a caminhada, quebrando a sua continuidade, forçando-nos tempo para pensar. Livres, portanto, do imediatismo de todo e qualquer para quê, de toda e qualquer utilidade, em uma finalidade sem fim que não aufere lucro algum. Reconhecendo, apenas e tão somente, o nosso verdadeiro lugar.

Filosofar pressupõe essa parada, sem a qual dificilmente temos tempo para apenas observar. Filosofar é levar a vida com os olhos daquele que vê (bíos theoretikós). Atividade que nada tem a ver com a pressa desmesurada de querer a todo custo entranhar-se na azáfama do falatório da curiosidade impertinente que, contra todas as aparências, nunca se propõe verdadeiramente uma questão. Antes, fugindo de qualquer uma, a todo custo, emaranha-se previamente na regularidade desmedida da repetição.

Filosofar é construir castelos de areia. Para quê? Para destruí-los antes das ondas do mar.

¹Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor-Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED) da Universidade Tuiuti do Paraná.

Como citar:
AMARAL FILHO, Fausto dos Santos. Filosofar… Para quê?. Nuevo Blog, 04 Jun. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/06/04/filosofar-para-que/. Acesso em: ??

2 pensamentos

  1. Que texto! Que fala! Que lição! Que aprendizado! Que sensibilidade para lidar com as palavras, com a filosofia, e com a vida (especialmente)!
    É incrível aprender com você, prof. Fausto Dos Santos.

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