Sobre a virtude da previsão e do quanto a pandemia é inédita, mas era previsível

Jelson Oliveira¹

Muitos sabiam, ninguém fez nada. Essa é a verdade. Não apenas havia indícios a respeito da ameaça grave de que um vírus letal poderia atingir a humanidade, mas vários estudos comprovavam que essa ameaça era iminente. Em 2008, o Global Trends 2025, do Escritório do Diretor do Conselho de Inteligência Nacional dos Estados Unidos afirmou que havia um “potencial aparição de uma pandemia global” caso não se adotassem medidas adequadas. Nada foi feito. Em 2012 o professor emérito da Universidade de Manitoba, Vaclac Smil escreveu seu artigo Global Catastrophes and Trends assinalando a probabilidade de uma pandemia antes de 2021. Ele não foi levado a sério. Em 2019 um informe da Junta de Vigilância Mundial da Preparação, da Organização Mundial da Saúde e do Banco Mundial escreveu: “enfrentamos a ameaça muito real de uma pandemia fulminante, sumamente mortífera, provocada por um patógeno respiratório que poderia matar de 50 a 80 milhões de pessoas e liquidar quase 5% da economia mundial… O mundo corre grave perigo de padecer epidemias ou pandemias de alcance regional ou mundial e de consequências devastadoras, não só em termos de perdas de vidas humanas mas também de desestabilização econômica e caos social.” Nenhuma palha foi movida.

A pergunta é: por que nada foi feito? Nenhum voo transcontinental foi alterado, nenhum aeroporto fechado, as aglomerações, o tráfico, a poluição, a produção e o consumo continuaram tal e qual. Os indícios e as previsões não foram suficientes para alterar os comportamentos. Nem a ciência foi preparada, nem o serviço de saúde, as escolas ou as igrejas puderam desenvolver qualquer estratégia que pudesse amenizar os impactos.

Uma das respostas possíveis pode ser encontrada em um dos aspectos mais centrais da nossa sociedade: o apego ao presente e a crise do futuro. Penso aqui na pressão das circunstâncias, na rendição total à urgência da hora, ao esgotamento de todas as narrativas de passado e de futuro. Trata-se de um tempo sem coloração, opaco, trancado sobre si mesmo, no qual tudo é esquecimento. Tudo é presente e o único absoluto possível é o que ele inclui, ou seja, a passagem constante, a alucinação da hora, o instante diluindo-se sempre, fluindo e adiantando-se diante do imprevisível. Aquilo que vários sociólogos chamaram de “presente absoluto” acabou por impedir que os governos, as instituições e boa parcela da sociedade acabassem por não assumir a sua responsabilidade diante da ameaça. Na prática, isso tem feito com que valores como precaução e parcimônia sejam alijados da vida pública em benefício do imediatismo, que quer tirar todas as energias do presente, evitando qualquer tipo de adiamento de prazeres agora em função de algum benefício futuro. Queremos tudo para agora, fechando os olhos para as consequências negativas que possam aparecer depois. Uma das explicações para essa atitude pode ser a crença cega na utopia do progresso técnico, que projeta o futuro sempre a partir do prognóstico positivo, dando esperanças que confirmam as práticas de agora, sem que elas sejam avaliadas eticamente. Se é certo que o futuro será melhor do que o presente e dado que ele é um produto do que fazemos agora, então podemos continuar fazendo o que fazemos, para garantir que essa projeção se realize. Há outro aspecto, evidentemente, que deve ser levado em conta nessa equação: a simples irresponsabilidade daqueles que não se importam com as gerações futuras ou com a vida extra-humana, fechamos que estão no egoísmo doentio e no antropocentrismo exacerbado que grassa em todos os lugares, abençoado pelo lema do lucro, da produção e do consumo – as cláusulas pétreas da sociedade capitalista neoliberal.

A pandemia de agora, além disso, comprovou como nossas sociedades foram incapazes de solucionar os problemas mais elementares da vida em comum: a imensa e gravíssima desigualdade social que deixa milhões de cidadãos vulneráveis ao vírus porque lhes falta condições básicas para o seu enfrentamento, além das dificuldades de acesso ao atendimento de saúde. Quem mais precisa é quem menos tem.

Diante dessa situação, um novo apelo à responsabilidade deve ser ouvido por toda a sociedade, um apelo que se revela na capacidade de colocar o futuro no centro de nossas atenções. Para isso, uma virtude é necessária: a capacidade de previsão. Devemos ser capazes de reunir informações em benefício de uma futurologia comparativa que projete o futuro dando preferência para o prognóstico negativo, ou seja, levando a sério os riscos e ameaças a fim de evitá-los. Essa é a lição da nova ética proposta pelo filósofo alemão Hans Jonas: assumir a responsabilidade é colocar os riscos em primeiro plano e agir para evitar que o pior aconteça. Para isso, devemos ser capazes de abrir mão das benesses do presente, ou seja, sacrificar um pouco da nossa pretensa felicidade de agora para que mais seres possam ter vida no futuro. Para tanto, é preciso desenvolver a virtude da previsão, para não hipotecar a vida futura em nome do presente, que está, como é fácil presumir, cheio de erros e de equívocos que, geralmente, só se revelam tardiamente.

¹Doutor em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos. Professor e atual coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Como citar:
OLIVEIRA, Jelson. Sobre a virtude da previsão e do quanto a pandemia é inédita, mas era previsível. Nuevo Blog, 05 Jun. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/06/05/sobre-a-virtude-da-previsao-e-do-quanto-a-pandemia-e-inedita-mas-era-previsivel/. Acesso em: ??

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