Pierre Bourdieu, a Teoria do Campo Social e seu uso nos Estudos Organizacionais

Por Kamille Ramos Torres

Este texto tem como objetivo apresentar um pouco da trajetória social de Pierre Bourdieu e os principais conceitos da Teoria do Campo Social, que são: campo, habitus e capital. Além de uma breve revisão sobre o seu uso nos Estudos Organizacionais.

Pierre Bourdieu (1930-2002) é um importante sociólogo francês, filho de pai camponês e mãe proprietária em Beárn. Aliás, Beárn foi a cidade na qual Bourdieu cresceu e campo da sua primeira pesquisa etnográfica[i]. Em 1954, ele iniciou o curso de Filosofia e, posteriormente, se tornou professor da disciplina.  

No entanto, de 1955 a 1960, Bourdieu passou da Filosofia para a Sociologia, após ser levado á Argélia devido as obrigações militares[ii]. Foi dentro desse período que ele publicou as primeiras obras etnográficas como sociólogo, tendo como objeto de estudo a sociedade Cabila. Tais obras foram: “Sociologie de l’Algérie”,  “Travail et travailleurs em Algérie” e “Le deracinement – La crise de l’agriculture traditionnelle en Algérie”. Ele desenvolveu, ainda, pesquisas que serviram para pensar a prática humana e as relações de gênero[iii].

Quando retornou à França, Bourdieu assumiu a função de assistente do filósofo Raymond Aron na Faculdade de Letras de Paris, ao mesmo tempo em que passou a ser filiado ao Centro Europeu de Sociologia, do qual veio a ser secretário-geral[iv]. Muitos dos colegas de pesquisas abandonaram Bourdieu à partir de 1970, entre eles Luc Boltanski e Jean-Claude Passeron. Isso ocorreu por sua tendência de tomar posse dos escritos deles, sendo denunciado, inclusive, pela recusa de críticas por parte de seus discípulos, relatam Jourdain e Naulin (2017).

Em 1975, lançou o periódico Actes de la Recherche en Sciences Sociales e Liber, no qual foi editor até a data de sua morte. Ele publicou, nesse periódico, diversos artigos de sua autoria, de seus parceiros de pesquisas e alunos, foi por esse motivo que ele foi considerado por muitos como autocrático, isto é, ele detinha o poder da revista e o usava a seu favor.  Além disso, Bourdieu assumiu um dos postos mais conceituados do campo científico e acadêmico francês, se tornou professor do Collége de France.

Em meio as contradições, Bourdieu desenvolveu a Teoria do Campo Social. Sendo que a grande maioria dos trabalhos do sociólogo tratam dessa teoria, ainda que como pano de fundo, como no caso do livro “A dominação masculina”, em que o principal tema são as relações de gênero.

Bourdieu desenvolveu a Teoria do Campo Social para superar a dicotomia subjetivismo e objetivismo. Para Bourdieu (1996), o campo social é um espaço estruturado por agentes e organizações burocráticas, podendo ser científico, artístico, editorial, político, acadêmico, entre outros. Essa ideia de espaço social advém da visão de mundo, no qual as pessoas que ali estão se diferenciam uma das outras e tem interesses específicos. Além disso, cada agente ocupa posições distintas no espaço. São essas diferenças geradoras da distribuição de capitais e poder. O habitus é o responsável pelas diferenças.

O habitus é interiorizado pelo agente durante sua trajetória de socialização, mas ele também exterioriza esse habitus, em forma de práticas, visões, pensamentos, no campo em que se encontra inserido. Além disso, o agente pode interiorizar novas práticas, visões e pensamentos, do campo. Assim, o habitus é  estruturado e estruturante, exteriorizado e interiorizado. É um “sistema de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, funcionando como princípio de geração e de estruturação de práticas e de representações […]”[v].

Destaca-se, que o habitus está atrelado a estratégias do agente no campo, em busca de capital e poder[vi]. Os capitais em disputa no campo, são quatro: 1) capital econômico – relacionado a bens materiais, dinheiro, entre outros; 2) capital cultural – relacionado ao conhecimento adquirido por meio de leitura de livros, quadros,  além da formação acadêmica; 3) capital social – trata-se da rede de relações do agente e do benefício que essa rede proporciona; e por fim, 4) capital simbólico – que está relacionado a todo tipo de honra, mérito, status.

É possível verificar que os capitais econômico, cultural e social, levam o agente a posse de capital simbólico. Assim, o capital simbólico remete ao poder simbólico. Outro ponto interessante de se observar é que um capital pode ser transformado em outro, como o capital cultural em econômico, por exemplo. O interesse do agente ou das organizações que compõem o campo é possuir o capital específico do campo de modo a ser suficiente para a ocupação de posições dominantes nos seus campos respectivos[vii].

Com a posição mais elevada, é possível mudar práticas e até mesmo a taxa de câmbio do capital em jogo. O interesse do agente ou das organizações são atrelados pela “[….] conservação ou a transformação da ‘taxa de câmbio’ entre os diferentes tipos de capital e, do mesmo modo, o poder sobre as instâncias burocráticas que podem alterá-la por meio de medidas administrativas”[viii].

Dessa forma, os dominados no campo podem usar de estratégias de subversão para desvalorizar o capital adquirido pelos dominantes, assim como os dominantes podem usar de estratégias de conservação para manter o valor de seu capital adquirido. O dominante que obtém reconhecimento e aceitação possui o poder simbólico no campo.

Nos Estudos Organizacionais a abordagem da Teoria dos Campos Sociais é considerada incipiente[ix]. Swartz (2008[x]) , Emirbayer e Johson (2008[xi]) afirmam que muitas pesquisas tratam os conceitos – campo, habitus e capital – de forma individual.  Segundo Emirbayer e Johson (2008), as análises organizacionais ainda precisam explorar possibilidades com uma perspectiva relacional dos conceitos de Bourdieu.  A noção de campo invoca os conceitos de capital e habitus para gerar a prática, e por isso não devem ser vistos de maneira isoladas[xii].

Dobbin (2008[xiii]), que analisou o uso de Bourdieu por pesquisadores organizacionais americanos, relata que não há uma abordagem relacional de sua teoria nos escritos dos teóricos organizacionais. “A ideia de, em um único estudo, retratar habitus, poder e sua base em diferentes formas de capital, e o funcionamento de um campo organizacional (começando com uma investigação dos participantes nesse campo) é, para a maioria dos teóricos organizacionais americanos, assustadora”[xiv]. Dessa forma, se entende que os Estudos Organizacionais ainda carecem de estudos que relacionem os conceitos.

Brulon (2013, p. 14[xv]) atesta que

“[…] a estrutura do campo, as posições dos agentes e suas espécies de capital impõem-se como dificuldade ainda a ser superada. Também a identificação das espécies de capital, etapa que deve se dar simultaneamente à definição do campo, acaba sendo realizada de forma isolada. O conceito de habitus é de difícil investigação, e não se encontra em Bourdieu uma proposta metodológica detalhada nesse sentido. Para lidar com um conceito de tal complexidade, é privilegiada uma análise interpretativista, e com liberdade os autores delineiam o habitus de seus agentes”

No entanto, a autora salienta que mesmo nas pesquisas que tratam dos conceitos de Bourdieu de forma fragmentada há uma tentativa de avanço na área, já que o pesquisador realmente não tem a intenção e nem se esforça para entender o campo como um todo. Dessa forma, tais pesquisas não devem ser invalidadas.

É possível verificar que a Teoria do Campo Social, mesmo com os conceitos tratados de forma isolada,  tem um arcabouço importante para se pensar as organizações, sendo possível analisar as organizações de um determinado segmento, como apenas as editoras literárias, ou estudar todas as organizações que fazem parte do campo, tendo elas parcela no desenvolvimento do produto final, como as livrarias, as gráficas, entre outros. É ainda possível, pensar nos agentes inseridos nessas organizações pois são eles que influenciam as condutas e práticas, conforme Dobbin (2008) afirma.


[i] JOURDAIN, Anne; NAULIN, Sidonie. A teoria de Pierre Bourdieu e seus usos sociológicos. Petrópolis RJ: Vozes, 2017.

[ii] Idem i.

[iii] Idem i.

[iv] Idem i.

[v] BOURDIEU, Pierre. Esboço de uma teoria da prática. In: ORTIZ, Renato (org.). Pierre Bourdieu: sociologia. São Paulo: Ática, 1983, p. 61.

[vi] BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: Sobre a teoria da ação. Tradução: Mariza Corrêa. São Paulo: Papirus, 1996.

[vii] Idem vi.

[viii] Idem vi, p. 52.

[ix] EMIRBAYER, Mustafa; JOHNSON, Victoria. Bourdieu and Organizational Analysis. Theory and Society, v.31, n.1, 2008.

SWARTZ, David L.. Bringing Bourdieu’s Master Concepts into Organizational Analysis. Theory and Society, v.37, n.1, 2008.

[x] SWARTZ, David L.. Bringing Bourdieu’s Master Concepts into Organizational Analysis. Theory and Society, v.37, n.1, 2008.

[xi] EMIRBAYER, Mustafa; JOHNSON, Victoria. Bourdieu and Organizational Analysis. Theory and Society, v.31, n.1, 2008

[xii] Idem x.

[xiii] DOBBIN, F. The poverty of organizational theory: comment on: “Bourdieu and organizational analysis”. Theory and Society, v. 37, p. 53-63, 2008.

[xiv] Idem xiii, p. 54.

[xv] BRULON, Vanessa. Transpondo Bourdieu para as Organizações: um Convite à Sociologia Reflexiva em Estudos Organizacionais. XXXVII Encontro da ANPAD, Rio de Janeiro, 2013.


Kamille Ramos Torres é Mestre em Administração pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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