O que se escreve quando não se está inspirado

Por Francis Kanashiro Meneghetti

Ao contrário do que se pensa, a maior angústia de um escritor é estar perturbado por uma série de ideias. A ausência delas não é motivo de sofrimento. Na realidade é sinal de pacificação e alento na ignorância. O excesso de ideias, somadas a falta de tempo, de controle emocional, de capacidade de concentração ou de problemas cotidianos é uma perturbação para quem tem como sua arte a escrita. Diferentes das outras áreas, onde o guia da sublimação são as mãos do artesão, os dedos dos músicos, os pés dos jogadores de futebol, e assim por diante, para o escritor o guia das suas ações é o encontro da razão (logos) com suas emoções em um lugar chamado intimidade. É preciso domar a razão para que as emoções cavalguem seguramente, pelo menos até o fim das ideias. Concatenação, assertividade, precisão no uso das palavras exigem do escritor que ele seja um domador de palavras, ao mesmo tempo que deve deixar liberto as ideias para que consiga levar o leitor nas aventuras da linguagem.

As vezes nos obrigamos a escrever simplesmente para ter a sensação que nos resta um pouco de esperança e fé, mesmo neste naufrágio que consiste estar vivo no mundo moderno. A escuta só vale a pena quando ela nos faz chorar, rir, sofrer, entusiasmar. Ela não só pode nos calar, seja na razão ou no afeto. Escrever é uma ação humana. É obter a condição da técnica, onde a práxis torna-se a plena fusão entre abstração e concreticidade do mundo. Quando escrevemos uma ideia, empenhamos os símbolos que representam algo e se tornam imaginários. Todo universo da escrita permanece em nós e jamais se vai, mesmo que ele se esconda nos labirintos sinápticas que estruturam nossa memória formal. Até podemos esquecer racionalmente a ordenação simbólica ou a fonética, mas uma vez dita e registrada, a escrita é a própria criatura do escritor. Ela pode negar com o tempo, tentar recursar as ideias ou omitir o que escreveu, mas uma vez posta no mundo por meio da formalização da escrita, é impossível negar a responsabilidade sobre sua própria criação. Uma vez escrito, permanecerá para sempre nos maiores recônditos esconderijos da nossa história, mesmo que seja somente na nossa lembrança.

Quando se escreve sobre os males da vida, mesmo que na realidade não tenhamos coragem de realizá-las concretamente, já compactuamos com a nossa psique o desejo de sermos o melhor e o pior que pode existir em nós mesmos. Todavia, imaginar os males é, em grande parte, aderir ao próprio mal. Mas o contrário não é verdadeiro. Imaginar o bem, e somente o bem, é viver alienado no próprio mundo que criamos. Imaginar o bem, sabendo que o mal existe, é negar a realidade. Para ser diferente é preciso combater o mal por ações e isto requer, para um escritor, escrever sobre o bem, mesmo que o mal possa ser, em boa parte dos momentos, dominante. Por esse motivo, a escrita é a pior das artes, pois requer que recusemos o recanto da ignorância simplesmente porque temos que trazer tudo à consciência e, consequentemente, ao nível de compreensão do cálculo casualístico. Nas demais artes é possível trabalhar os afetos sem, necessariamente, aderir ao esclarecimento da consciência. Trabalha-se o afeto na prerrogativa da primazia das emoções sobre a razão, enquanto na escrita, salvo se for orientado por impulsos de natureza alheia a vontade do escritor, a consciência torna-se prioritária. O escritor que escreve sobre o mal não pode se colocar no papel de hipócrita e afirmar que sua infância foi boa. Crianças que tiveram infâncias onde as alegrias foram maiores que as dores probabilisticamente são mais aptos a se tornarem músicos, artesões, cozinheiros, dançarinos, pois o que viveram naquela época foi suficientemente bom e prazeroso a tal ponto de, praticamente, não precisarem racionalizar para tentar adequarem-se a realidade com o mínimo de conforto emocional e ajuste social. Somente crianças que viveram momentos de sofrimentos consideráveis na infância precisam tentar controlar mentalmente um mundo de sofrimento. Por isso, nenhum bom escritor pode ter sido verdadeiramente feliz durante toda sua infância! Isso implica em dizer que a grande maioria de nós temos potencial, basta apenas a coragem de ser sincero consigo mesmo.


Francis Kanashiro Meneghetti é Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade e no Programa de Pós-Graduação em Administração pela Universidade tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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