Numa xícara de café, pode-se colocar a beleza do mundo

Fonte: Imagem retirada do site Casa Claúdia (2016).

Rafaela Mota Ardigó¹

Estávamos na Bahia, àquela de todos os santos. Salvador. Por uma indicação amiga repousávamos em um hotelzinho simpático no bairro do Rio Vermelho. Ali, além de se encontrarem os melhores pontos de Acarajé da cidade, adquirida com o dinheiro da venda dos direitos de “Gabriela, Cravo e Canela”, fica a casa onde Jorge Amado viveu com Zélia Gattai e os filhos do casal, hoje transformada em museu. Fomos, meu marido e eu. “Se for de paz, pode entrar”. Que energia boa. Nosso souvenir foi o livro “A casa do Rio Vermelho”. E então eu, que fui por Jorge, sempre lá regresso, em espírito e coração, por Zélia.

Adoro o seu memorialismo e a forma como escreve. Gosto do seu duvidar crendo e da sua crença duvidosa, sua veia anarquista. Agrada-me ver a história pelos olhos de quem a viveu de fato. Acho hilário e de muito bom gosto ler alguém que não se leva tão a sério e, inclusive, admite a sua imperfeição. A intensidade com que ela descreve pela memória as alegrias vividas é, em minha opinião, tão aguçada quanto à eloquência e a assertividade com que ela pontua, tão delicadamente, a miséria e os miseráveis de nossos caminhos. Ainda hoje, há quem considere o memorialismo um gênero literário menor e atribua o sucesso de Zélia, à fama de Jorge.

Naqueles anos duros de censura e repressão, as palavras deviam ser medidas. A repórter, inocente ou não, fazia perguntas comprometedoras. Vinícius, ele próprio, fora vítima da ditadura, perdera seu posto de diplomata com a o seguinte despacho do presidente da República: Afaste-se esse vagabundo. Assinado: Arthur da Costa e Silva. Experiente, Vinícius respondia com evasivas às perguntas da repórter até que a jovem resolveu fazer-lhe a pergunta definitiva: -Vinícius de Moraes: o que pensa o senhor sobre a liberdade? Qual é o seu conceito de liberdade?. Vinícius não titubeou, tranquilamente respondeu: – Meu conceito de liberdade é poder fazer cocô de porta aberta  (p. 137).

Contrapondo os formalismos dos literatos com formação mais erudita do que a minha, com todo respeito, menores somos nós que, frequentemente, não chegamos a tamanha coragem. Em suas memórias, ora cômicas, ora tragicômicas, há o espírito daquilo que deve nortear toda boa literatura. A simplicidade na escrita, o afeto no peito, a vida exuberantemente se desnudando na janela: na campainha que toca, nos amigos e desconhecidos que chegam, nas flores que crescem no jardim, nos filhos que crescem para o mundo, nos netos que nascem, nos amigos que se vão, no banco onde um casal  de namorados por 56 anos tomava sol sob a proteção dos Orixás…

Esses pequenos detalhes com que a vida nos presenteia diariamente podem ser tanto objeto de sucateamento em um cantinho da memória, como objeto de uma grande iluminação pessoal. Se a tomarmos da segunda maneira essas pequenas janelas, quando abertas na vastidão do tempo, nos presenteiam com a sua luz e a visão de outra paisagem. Reconciliam-nos com o passado e, assim, com nossa mais profunda intimidade. Zélia fazia isso.

Nunca pensara poder sentir tantas e tais emoções, àquela altura de minha vida, aos sessenta e três anos de idade, como as que senti ao escrever “Anarquistas, graças a Deus”(…) voltei a ser criança no convívio de meus pais e de meus irmãos, recuperei amigos perdidos na distância do tempo e, sobretudo, descobri minha mãe. Dona Angelina era uma pessoa formidável e eu não lhe dera o devido valor. (…) A seu Ernesto eu sempre fizera justiça.

Muito tempo depois de terminar o livro eu ainda me divirto imaginando encontros que nunca aconteceram na casa, mas bem que poderiam. Frida Kahlo conversando com Simone de Beauvoir, enquanto Diego Rivera galanteava a cozinheira. A cozinheira, mulher grande, negra e feliz, fazia seu cuscuz e terminava a caipirinha de mangaba, enquanto pedia a Oxun, a senhora da beleza, a sorte de um dia abrir seu próprio restaurante. Dispensava o galanteio do ilustre artista.  Em outro canto da casa, Pablo Neruda e Vinícius de Moraes trocavam versos. Pablo dizia: “Se nada nos salva da morte, que o amor nos salve da vida”, no que Vinícius respondia: “e que seja infinito, enquanto dure”. Aos goles da boêmia, é claro.

Estátua de Jorge Amado e Zélia Gattai em Salvador

¹Doutoranda em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
ARDIGÓ, Rafaela Mota. Numa xícara de café, pode-se colocar a beleza do mundo. Nuevo Blog, 13 jun. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/06/13/numa-xicara-de-cafe-pode-se-colocar-a-beleza-do-mundo/. Acesso em: ??

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