A quem também interessam as tecnologias digitais na escola em meio a pandemias?

Luiz Ernesto Merkle¹

Ao se perceber alguém no limiar da desesperança, não raro reedita-se a metáfora do copo meio cheio, que representa o otimismo, em contraste ao copo meio vazio, o pessimismo. Todavia, também circula uma anedota que traz a baila uma outra perspectiva, a da inovação, que reforça orgulhosa e prepotentemente:

– Não é momento para ponderações, ambas estão equivocadas!

– A solução que lhes ofereço é um cálice, da metade do tamanho, e construído em material raro mas acessível, que lhe permitirá transportar todo o conteúdo que já tens, mas sempre com a sensação de tê-lo em plenitude. Te sentirás mais que otimista, pois o cálice permanecerá cheio. Até te empresto um para experimentar, caso te interesse.

Neste período de enfrentamento a uma pandemia, quando carências e privilégios históricos se revelam mais claramente, as comunidades escolares tem se visto cotidianamente assediadas com recomendações, normatizações e soluções de serviços que reduzem suas atividades cotidianas à mera transmissão de conteúdos, e deixando de lado, sem a devida consideração, muitas outras atividades que a tornam as escolas um lugar de formação, mesmo que precário, dadas as condições em que têm sido mantidas. Precário porque porque instituições de ensino permanecem desassistidas, desprovidas, quando não assaltadas por desvios, ou vilipendiadas e destratadas. Sem consideração, pois nem sempre se viabilizam a contento na escola espaços de socialização e acolhimento, como foros de diálogo e participação, como arenas de cuidado, de ponderação, de esmero, de exemplos e modelos de vida.

Não que ela sempre se revele como um lugar de formação cidadã, mas em parte ainda o é, frente a muitos outros que já deixaram de ser. Este fôlego que resta, e que a mantém escola, está em risco. São pressões governamentais e comerciais pela substituição pelo não presencial, mas que não vem acompanhadas do provimento de recursos para tal, muito pelo contrário. São pressões de familiares que querem a continuidade dos estudos de seus filhos e filhas, por não conseguirem teletrabalhar com eles ou elas em casa, se é que encontram condições para tal. São pressões de estudantes, que almejam concluir o período letivo ou para entrar em uma universidade, ensino médio, ou curso profissionalizante. Neste horizonte, muitas escolas acabam por reduzir seu extenso conjunto de atividades àquelas que podem ser transmitidas por meio de videoaulas ou programas televisionados.

Entretanto, neste momento, faz-se urgente um questionamento crucial para o próprio futuro da escola. Por que, repentinamente, grandes corporações se mostram tão prestativas para oferecer durante a fase mais aguda desta pandemia estes serviços? Uma possível resposta é porque sabem que amanhã, ou mesmo hoje, passadas, afrouxadas ou continuadas as medidas de isolamento terão levantado informações estratégicas de todos e cada uma das instituições e pessoas envolvidas, nem sempre primando pela privacidade, terão garantido o apoio de alguns simpatizantes e defensores, embora não de quem seja excluído do processo, e ao longo do processo terão reforçado certos tipos de educação, mas não outros. Certamente lucrarão, e muito com isto, algo que hoje ainda não o fazem na magnitude que ambicionam. A educação não é a única área em que se observa fenômeno semelhante, longe disto. A batalha entre grandes provedores de áudio e vídeo encontros é apenas um sintoma deste processo.

Passando a questões mais concretas, no caso da educação, esta situação toda remete a propostas e interesses que passam pelo uso de termos como “educação a distância”, “ensino remoto”, “substituição de disciplinas por aulas não presenciais”, e suas múltiplas interpretações e formas. Tais usos geralmente não deixam claro que tipo de pedagogia endossam, com que qualidade, quem potencialmente é incluído ou excluído, a curto, médio ou longo prazo, pois tais usos nem sempre vem respaldados pela experiência. Um longo texto seria necessário para abordá-las.

Mas adotar um termo e não outro não resolve o problema de uma escola e uma escolarização que se encontra sem infraestrutura, apassivadora e não criativa, restrita a quem pode e não a quem tem direito, sem perspectivas. Entretanto, cada um destes termos traz e enfatiza tradições e interesses, que nem sempre são educacionais. Por contraexemplo, uma educação a distância pautada pelo diálogo, pela participação, pela criação coletiva pode ser vista como superior à uma não presencial, mas depende dos interesses e de quem a analisa. Existe um área correlata que denominada Suporte Computacional ao Aprendizado Cooperativo que propôs justamente isto. Todavia, não parece ser este o viés adotado por grandes corporações, ao menos na prática. O problema não se situa em ser mediada ou concretizada a distância, por meio de tecnologias computacionais e de comunicação ou informação eletroeletrônicas, mas em qual tipo de educação vem atrelada a cada solução/termo, e como esta se dará ao longo do tempo, em condições ainda não experienciadas.

Um exemplo e algumas alusões podem ser ilustrativas. Tem sido recorrente na mídia, e na própria universidade onde atuo, se assumir que não se está preparado para fazer uso de atividades não presenciais para a continuidade do trabalho. Junto à mídia de massa, muitas manchetes alardeiam que “8 a cada 10 professores não se sentem preparados para o uso de tecnologias …”.  Nota-se que nesta perspectiva, a culpa sempre é atribuída ao(à) professor(a). Em contraste, não se encontram manchetes que noticiem que “10 a cada 10 tecnologias não foram desenvolvidas para dar conta de todas as atividades de formação e outras paralelas em curso em escolas”, e muito menos profissionais reconhecendo que “9 a cada 10 desenvolvedores não se sentem preparados(as) para compreender requisitos educacionais para projetar …”.  Estas organizações permanecem incólumes, não os e as profissionais em si, docentes ou profissionais, atualmente assoberbados, mas às grandes empresas que vendem ou se interessam em abocanhar um nicho a mais de mercado.

O que resta por trás desta assimetria, onde culpam-se certas pessoas, as desautorizando e subalternizando, e desresponsabilizam-se outras, que nem sequer são reconhecidas com altamente interessadas e influentes no processo, são compreensões de tecnologias que as assumem neutras e universais, que estas determinam o desenvolvimento e garantem seu ordenamento e sua evolução. Há décadas que se instalam computadores em escolas, mas não se favorecem medidas que garantam a sua apropriação, ou o fortalecimento de outras áreas ou ações que compreendam a educação em sua totalidade. Educadores como Papert, que dedicaram a vida a explorar tais tecnologias na educação, já apontaram estes problemas também há décadas.

Sobremaneira, em soluções apressadas e interessadas, favorecem-se assim perspectivas, artefatos, sistemas, organizações e serviços informatizáveis que não exigem grandes investimentos em infraestrutura por parte de quem as oferece, mas que garantem a venda de equipamentos e que não implicam em gastos significativos em recursos humanos para quem as oferece ou mantém. Assim vendem-se computadores, e, mais recentemente, serviços.

Entretanto, alternativas mais interessantes às sociedades passam por mediações tecnológicas que permitam a continuidade da formação, do diálogo, do compartilhamento, da participação, da formação de redes, da problematização, da inclusão, sejam ou não de modo presencial ou não. Estas exigirão o experimento, a tentativa, o retorno, demandarão a consideração de todos, pois a educação é um direito. Não podem ser massivas, pautadas em modelos fechados, conteudistas e transmissivos, pois estas apenas aprofundam desigualdades. Tem que ser abertas, particularizadas, problematizadoras e participativas, sejam em modos presenciais ou não presenciais, formais ou informais, privadas ou públicas, voltadas à população infantil, de jovens adultos, adultos, enfim de todos, em igualdade.

Ou seja, os interesses são muitos, a questão que fica é se contribuem ou não à educação.

¹ Doutor em Ciência da Computação pela Western University, em London, Ontario, no Canadá. Educador na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Atua no Programa de Pós-graduação em Tecnologia e Sociedade (PPGTE), na linha de pesquisa em Mediações e Culturas.

Como citar:
MERKLE, Luiz Ernesto. A quem também interessam as tecnologias digitais na escola em meio a pandemias? Nuevo Blog, 15 Jun. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/06/15/a-quem-tambem-interessam-as-tecnologias-digitais-na-escola-em-meio-a-pandemias/. Acesso em: ??

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