Jessé Souza: Por uma Nova Teoria Social nos Estudos Organizacionais Brasileiros

Por Egon Bianchini Calderari

Quem somos, de onde viemos e para onde vamos? Estas são, segundo Jessé Souza, as três perguntas fundamentais que uma teoria de longo alcance precisa responder para tornar-se a interpretação oficial de uma sociedade. Sociólogo, dono de um tom provocativo e de uma linguagem direta e acessível, Jessé arrisca-se por novos mares ao confrontar em terra a corrente teórica predominante na antropologia brasileira, em busca de revelar um novo Brasil, onde a exclusão de muitos é legitimada pela manutenção dos privilégios de alguns poucos. Neste breve texto, realizo uma síntese dos aspectos gerais da obra do autor para, ao final, propor possibilidades para a utilização de seus trabalhos na área de Estudos Organizacionais.

Jessé José Freire de Souza é um sociólogo, professor e pesquisador brasileiro nascido em 1960, na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte. Após graduar-se em Direito, fez seu mestrado em Sociologia pela Universidade de Brasília (1986) e o doutorado em Sociologia pela Universidade de Heidelberg (1991), na Alemanha. Em 1995 estendeu seus estudos à Psicanálise e a Filosofia, em um pós-doutorado em The New School of Social Research, em Nova York. Sua pesquisa é direcionada principalmente às áreas da Teoria Social e do Pensamento Social Brasileiro, na qual propõe uma reinterpretação da sociedade brasileira sob uma ótica histórica crítica, utilizando como base metodológica e conceitual autores como Max Weber, Charles Taylor e Pierre Bourdieu. 

Apesar de possuir uma densa obra, seu trabalho começou a se popularizar a partir do lançamento de sua trilogia sobre as classes sociais brasileiras, exposta nos livros “A Ralé Brasileira” (2009), “A Classe Média no Espelho” (2017) e “A Elite do Atraso” (2018), que contam com uma linguagem direta, cuja pretensão é provocar reflexões no público em geral, não ficando restrita somente aos círculos acadêmicos. Levar o conhecimento além das fronteiras da universidade é, aliás, uma das premissas principais manifestas em sua obra.

Souza (2009; 2018a) confronta, em sua construção teórica, autores clássicos da Sociologia e da Antropologia brasileira. Sua crítica é direcionada à produzida gênese de um Brasil utópico, caracterizado por uma indisciplinada herança ibérica e visto como uma simples extensão da sociedade portuguesa. Essa construção reducionista, na concepção de Souza (2009; 2018a), inicia na obra “Casa Grande e Senzala” (1933), em que Gilberto Freyre, buscando exaltar o “modo de ser único” do brasileiro, construiu como sua imagem o plástico homem mestiço brasileiro, que apesar das dificuldades, dispunha de alegria e cordialidade para enfrentar a vida. Logo em seguida, em Raízes do Brasil, publicado em 1936, Sérgio Buarque de Holanda apropria-se da plasticidade elaborada por Freyre, para caracterizar os brasileiros negativamente, sem distinções, como incapazes de estabelecer relações impessoais e mecânicas, nos constituindo como muito pouco organizados, sentimentalistas e avesso à burocratização, reproduzido no conceito de “homem cordial”. Assim, seríamos o oposto do moderno e racionalista homem ascético norte-americano, o que explicaria o nosso fracasso na adaptação ao sistema capitalista, sendo nós os únicos responsáveis pelo subdesenvolvimento brasileiro (SOUZA, 2009; 2017; 2018a).

 Para Souza (2018a), ao contrário dos autores clássicos da linha hegemônica culturalista, que reproduzem a população brasileira, como tendencialmente incompetente e corrupta, não é dos portugueses que recebemos o nosso espólio cultural. Para o autor, o Brasil é, diferentemente, marcado por uma herança escravocrata excludente, que impediu aqui, ao contrário dos países centrais capitalistas, a construção de um ideário coletivo em torno de uma ideia homogênea nacional, representada por um modelo humano transclassista como um ideal a ser perseguido por todos os estratos sociais, incluindo também a classe trabalhadora.

Souza (2009; 2018a) costura sua argumentação teórica a partir dos trabalhos dos sociólogos Charles Taylor e Pierre Bourdieu. Reelabora, a partir de Taylor, a concepção de que a existência de uma hierarquia social valorativa invisível determina quais são os valores predominantes que permitem aos indivíduos a obtenção de prestígio no meio social. Com base em Bourdieu, reafirma que a disputa por recursos escassos, materializados nos diferentes tipos de capitais (econômico, cultural e social) caracteriza as relações na modernidade. Segundo Souza (2018a) é o alinhamento dos indivíduos e grupos aos valores predominantes na sociedade e a posse dos capitais de distinção que determinará quem é digno de respeito, enquanto os que não se adequam-se às exigências são marginalizados. O sucesso ou o fracasso socioeconômico dependerá exclusivamente de como os sujeitos adequam-se às exigências racionalistas tanto de desempenho, representada pela valorização do “trabalho duro” e pelo pensamento prospectivo, quanto de auto expressão, incorporada na capacidade em mostrar-se um ser humano único. É também importante ressaltar que, apesar do discurso dominante exaltar e reforçar que os determinantes do desempenho são individuais, sua incorporação, no entanto, depende do coletivo que os transmitirão a partir das práticas. A aquisição do habitus é iniciada ainda criança, por intermédio das relações familiares para após se desenvolver nas outras dimensões da vida, via processo de socialização.  

A partir destas reflexões, Souza (2018a), elabora uma teoria de classes de modo a superar a mera distinção por renda econômica, partindo a compreendê-las a partir de um maior ou menor alinhamento ideológico aos valores predominantes no meio social e pela apropriação ou ausência dos capitais de distinção. Na caracterização histórica das classes sociais que hoje se autorreproduzem no Brasil contemporâneo, o autor constrói, ao modo de Weber, tipo ideais capazes de representá-las pela seleção de seus aspectos mais gerais, que permitirão, em sequência, avaliar o alinhamento maior ou menor dos sujeitos como membros de determinado estrato. Assim, a elite brasileira, é marcada pela posse do capital econômico, que lhe permite a compra das classes abaixo dela para sustentação de seus interesses utilitaristas. A classe média, a mais estratificada de todas, é caracterizada pela maior (classe média alta) ou menor (classe média baixa) incorporação de capital cultural, que lhe permite acesso aos cargos técnicos de prestígio tanto na estrutura pública, quanto na privada e acesso a aquisição de bens que lhe permite uma vida confortável. A ralé brasileira, marcada pela ausência de disciplina, pensamento prospectivo e autocontrole (valores fundamentais para o sucesso no mundo do trabalho contemporâneo), fruto de uma infância vivida em um núcleo familiar desestruturado e das relações violentas e desiguais reproduzidas em praticamente todas as dimensões de sua vida social, permanece à margem do sistema. Excluídos das possibilidades de ascensão social, os membros dessa classe orientam-se apenas em função de evitar “a queda na delinquência” (SOUZA, 2009, p. 425).

Segundo Souza (2018b), a dominação imposta pelas classes mais altas às mais baixas somente é legitimada pela reprodução do mesmo discurso hegemônico individualizante, que funciona como um guia à prática, e que atribui ao próprio sujeito a responsabilidade pelo seu sucesso ou fracasso. As reais causas sociais da desigualdade, atribuídas aos privilégios herdados ou não já no berço, são ocultadas pela máscara da “oportunidade de ser quem quiser ser” prazerosamente vestida pelos ideólogos da meritocracia. Por serem consideradas verdades absolutas, não elaboradas ou refletidas conscientemente, normalizam práticas sádicas e produzem e reproduzem a exclusão da grande massa de trabalhadores brasileiros das possibilidades de ascensão social (SOUZA, 2018a).

Jessé Souza, ao nos entregar uma nova teoria social crítica, amplia as possibilidades para a análises dos fenômenos socioeconômicos e culturais que marcam nossa sociedade. Sua pesquisa, além de estar amparada em uma construção teórica muito consistente, consolida-se em um trabalho empírico muito denso, fruto de mais de duas décadas de esforços mobilizados em conjunto com outras pesquisadoras e pesquisadores.

Como propõe uma nova interpretação da genética social brasileira, acredito que há um enorme potencial para o uso dos trabalhos de Souza na proposição de novas reflexões que podem ser incorporadas às teorias das organizações. Dentro dos estudos organizacionais apresentam-se amplas possibilidades à utilização de sua obra em análises críticas sobre as práticas reproduzidas no interior das empresas brasileiras, sejam elas públicas ou privadas. Em sua própria obra, Souza (2009) apresenta possibilidades para uso de seu aparato teórico em busca da compreensão de como se reproduzem as relações intra e entre classes dentro das estruturas organizacionais do país, ao relatar o uso dos privilégios por parte da alta classe média para legitimação do controle e da exploração das classes mais baixas.

Os conceitos e os constructos elaborados nos trabalhos clássicos da já denominada linha teórica culturalista, podem agora ser também revisitados sob o referencial do autor. É possível citar como exemplo o controverso “jeitinho brasileiro”, já há décadas examinado, inclusive em trabalhos da área de estudos organizacionais, sob a ótica antropológica hegemônica, mas ainda praticamente inexplorado sob uma perspectiva crítica. Souza o considera uma falácia absurda, utilizada como uma saída fácil para atribuir os privilégios individuais a uma suposta herança genética coletiva. Segundo Souza, desconstruir o jeitinho, mostrando-o como um privilégio de classe é um passo rumo ao desvelamento do discurso moralista de fachada, que possui como único propósito “justificar nossa condenação eterna a uma elite de rapina sem projeto nacional e sem qualquer responsabilidade com o futuro da nação” (SOUZA, 2018a, p. 216).

Acredito que os trabalhos de Souza possam ainda ser utilizados em pesquisas sobre as relações e condições de trabalho estabelecidas no Brasil, que hoje sofrem os efeitos de uma legislação recém flexibilizada e que ocasiona à grande maioria dos brasileiros um acesso cada vez menor e mais precário ao mercado de trabalho formal. Vejo também a possibilidade de aproximar o autor das áreas do Direito, da Economia e da Educação para que seja aprofundado o entendimento de como os mecanismos institucionais legais são aparelhados pelas elites e utilizados para a legitimação e das desigualdades sociais, relações, inclusive, já discutidas parcialmente em sua obra (SOUZA, 2009; 2017).

O denso trabalho de Jessé Souza, além de nos permitir compreender a realidade brasileira sob uma nova lente, nos convida a assumir um papel ativo na luta contra as desigualdades naturalizadas que legitimam o exercício da violência contra os brasileiros que integram os estratos sociais mais baixos da sociedade. Creio ser fundamental a utilização de um autor brasileiro, nos estudos organizacionais, que propõe uma nova abordagem (penso eu, mais precisa) para a análise dos problemas sociais do país, considerando que Jessé Souza, apesar da solidez de sua obra, permanece ainda inexplorado dentro da pesquisa na área.


SOUZA, Jessé. A ralé brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: editora UFMG, 2009.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

SOUZA, Jessé. Subcidadania brasileira: para entender o país além do jeitinho brasileiro. Rio de Janeiro: Leya, 2018a.

SOUZA, Jessé. A classe média no espelho: sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade. Sextante, 2018b.


Egon Bianchini Calderari é Mestre em Administração pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Aplicadas do Paraná.

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