Agora é a hora do jeito Nirvana de ser!

Por Francis Kanashiro Meneghetti

Nirvana. Segundo a crença budista, quem atinge o nirvana vê de forma definitiva o fim do sofrimento humano. Mas para que isso aconteça é preciso a supressão total dos desejos e de um novo estado de consciência individual, desapegado de tudo que é humano.

As religiões consideram uma possibilidade real atingir o nirvana mediante determinadas condutas, quase todas orientadas pelo desapego do corpo e da materialidade. Penso que possa ser um caminho, mas tem sido pouco efetivo diante da maior “religião” de todos os tempos, o capitalismo. Neste contexto atual, considero apenas uma possibilidade de se atingir algo próximo do que seria o nirvana: a loucura.

A banda Nirvana talvez tenha sido a última que viveu uma trajetória nessa direção. E isso não se comprova somente na trajetória de seus integrantes –  sobretudo de Kurt Cobain – até o fim da banda. Mas também na história de seus admiradores ou fãs. Não há ninguém que tenha vivido seu período de adolescência ou juventude (que independe da idade) que não tenha se colocado em situação de insanidade, mesmo momentânea, ao som da banda. A explicação é simples, as músicas, da letra aos rifes, soam um total caos dentro de uma loucura sonora que alimenta o que há de mais elementar na existência de qualquer humano: a energia anímica que nos mobiliza.

Minha experiência pessoal me faz pensar que até hoje eu não sei se as músicas da banda Nirvana quase me levavam a loucura ou me salvaram dela.

A coincidência foi que vivi os maiores sucessos da banda quando me arrisquei em ser guitarrista de algumas bandas. Sempre fui um péssimo músico e todos sabiam disso, até mesmo eu. Sempre falava para meus amigos das bancas que iria sair, afinal atrapalhava mais do que ajudava musicalmente falando. Mas eles não me deixavam sair. A juventude ainda preserva uma certa noção de lealdade e de que se deve fazer as coisas por diversão e amizade. Certa vez perguntei para meu amigo baterista, o melhor músico da banda, porque ele não me deixava sair. Ele me disse que era porque eu me submetia a empurrar a Kombi quando ela quebrava a caminho dos shows. Depois de uma bela gargalhada, disse que outro motivo é que eu nunca abandonava ele sozinho com a “mardita”! Ou seja, estávamos unidos pela necessidade de força e pelo pior de ambos.

Mas Nirvana não é só lembrança de músicas que me enlouqueciam. São memórias que representam os dias mais intensos e perigosos da minha vida. Nessa época ainda me lembrava que era preciso parar e sentir a vida, sem se preocupar com o futuro ou com o que o passado tentava fazer de mim. Nirvana era se deligar da dita “realidade”. Era se recolher em si mesmo. Ou seja, era In Útero!

Quando assisti, em janeiro de 1993, o show da banda no Hollywood Rock, no “pior” show da banda, já era possível saber que o futuro do Nirvana estava comprometido pela necessidade de mudanças. Mas não pensei que o fim estava tão próximo. Obviamente que Kurt Cobain seria aquele que decretaria o fim, isso era evidente para todos. E da forma mais trágica como acontece com os gênios musicais, sobretudo do Rock. Aliás, os gênios são óbvios. Nós, meros prepotentes sem recursos, é que não conseguimos perceber isso. Somos tão desesperados por um pouco de atenção para os pífios talentos que temos que não conseguimos perceber o óbvio.

Confesso que quando Kurt Cobain morreu, senti um certo alívio por ele. Ele já havia trocado o mundano pelo nirvana, afinal quem pode viver tamanho sofrimento que, segundo seu diário, estava instalado no estômago? Ali, naquele órgão, refletia toda pressão que o capitalismo exerce sobre as artes e que são apropriadas pela indústria cultural, para lembrar Adorno e Horkheimer[1].

O fim da banda gerou uma tristeza e um alívio profundo em todos nós! Imagina só se o Nirvana tivesse se tornado um Guns do Grunge?! As esperanças em um mundo livre acabariam com as esperanças, muito precocemente, em uma geração inteira.

Não que o Nirvana tenha mudado uma geração. Poder, dinheiro, fama, desempenho, aparências, pressão, imagem, meritocracia e todas essas bobagens do mundo administrado[2] colonizaram nossas vidas. Esse mundo que nos abduziu para uma religião chamada capitalismo[3] explora inclusive a loucura economicamente, politicamente e ideologicamente.

Não tenho dúvidas que seja necessário resgatar o jeito Nirvana de se fazer as coisas, de viver e conduzir a vida. E Kurt Cobain nos ensinou um pouco sobre isso. Não se trata de apologia ao suicídio, pois muitos mesmo estando biologicamente vivos estão animicamente mortos. Não sou defensor de um ato tão radical como esse para mudar a realidade, mas também não condeno moralmente quem o faz, afinal existem várias formas de cometer suicídio e permanecer vivo “zumbizando” os outros!

Kurt Cobain decidiu afundar o barco para salvar os demais passageiros! Olhando retrospectivamente, até o fim da banda ninguém sabia o que estava acontecendo ao certo. Na medida em que eles faziam mais shows, gravavam mais discos, submetiam-se ao show midiático, a banda adoecia. E a doença era cardíaca. Sim, a banca morreu de infarto. Não foi possível aguentar tamanha carga. E o coração da banda infartou.

O que nos resta agora é viver das lembranças, da possibilidade da loucura como passaporte para o nirvana, pois o capitalismo tornou as religiões atuais incompatíveis com essa possibilidade.

Por fim, um pensamento “desconexo” me vem à cabeça:

Ser simples sem ser espontâneo não é ser simples, é ser hipócrita! É isso que estamos vendo na política, na arte, no mundo online de hoje! Vídeos, ou lives como queiram, que são produzidos para aparentarem simples com o objetivo de se aproximar da linguagem do “povo” são pensados para enganar o público com a falsa ideia de simplicidade.

Simplicidade é isso!

Não sei porque pensei isso, mas estou me permitindo ter uma vida um pouco mais Nirvana no jeito de ser! Permita-se também!


[1] Ver capítulo da Indústria Cultural em ADORNO, Theodor W; HORCKEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

[2] MARCUSE, Herbert. El hombre unidimensional. España: Ariel, 1999.

[3] BENJAMIN, Walter. O Capitalismo como religião. São Paulo: Boitempo, 2013.


Francis Kanashiro Meneghetti é Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade e no Programa de Pós-Graduação em Administração pela Universidade tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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