Da Responsabilidade Social Corporativa à (Ir)Responsabilidade Social Corporativa

Jussara Jéssica Pereira¹

A Responsabilidade Social Corporativa (RSC) tem sido um grande debate na sociedade contemporânea.

Para os mais céticos, a RSC pode representar uma nova roupagem para que as empresas continuem fazendo negócios como usual. Isto é, gerar maior rentabilidade para seus acionistas, uma vez que estando imersa em um sistema capitalista as empresas nascem primariamente para isso.

Para os mais confiantes, a RSC pode representar um novo modo de fazer negócio. Em que esferas econômicas, sociais, legais e ambientais são trabalhadas em conjunto na organização. Os mais confiantes imbuídos de um otimismo, muitas vezes, exacerbado podem esconder um romantismo perigoso em relação às ações da empresa.

O fato é que todo um apelo por transparência na sociedade contemporânea parece não ser suficiente para controlar um apreço excessivo ao lucro. Temos visto muitas catástrofes organizacionais que colocam em cheque se as organizações estão preparadas para uma responsabilidade que seja de fato a social.

Vivemos em uma era em que são comuns catástrofes, acidentes, crimes e fraudes organizacionais que poderiam ter sido evitados e não foram (COSTA; BORIN, 2018). O que nos leva a crer que as empresas tem investido mais em discursos, publicidades e relatórios sustentáveis do que uma efetiva responsabilização.

Tal feito tem colocado a RSC no campo discursivo, enquanto as ações das empresas ainda demonstram mais uma Irresponsabilidade Social Corporativa (IRSC) do que uma RSC.

A IRSC se difere da RSC em vários aspectos. O primeiro relaciona-se à dimensão dos conflitos. Sabendo que as organizações tem diversas partes interessadas, isto é, grupos que fazem parte da estrutura social da organização, muitas vezes, torna-se difícil tecer uma abordagem em que todas as partes estão igualmente satisfeitas.

A dimensão do conflito leva a segunda dimensão, a da legitimidade. Quando a organização perde por alguma razão a confiança de boa parte da estrutura social em que está inserida, ela perde também a sua legitimidade, embora isso não deva ser confundida com legalidade. A legalidade é conferida pelas leis de uma jurisdição, já a legitimidade é conferida pelas pessoas que atribuem caráter legítimo ou não às ações daquela organização.

A terceira dimensão se relaciona ao papel permissivo de alguns governos, estados ou nações. Nesse contexto considera-se a presença de leis menos rígidas, menor fiscalização (OLIVEIRA, 2019), falta de uma separação clara entre público e privado e até mesmo diluição do poder do estado frente a grandiosidade das empresas capitalistas. Tal característica pode facilitar a atuação e mau comportamento da organização. Diante, disso a empresa usa deliberadamente lacunas e brechas nas leis como estratégias de escape para seus comportamentos antiéticos (BARROS, 2018).

A quarta dimensão inclui o mau comportamento, a responsabilidade moral, a falta de ética e a injustiça. Essa dimensão tem interseção com demais dimensões e se caracteriza pela periculosidade das ações da empresa ao bem estar social, ambiental e econômico (ALCADIPANI; MEDEIROS, 2014).

Toda essa discussão pode ser ilustrada pelo documentário “The Corporation”, “A corporação” em português. O documentário é um roteiro adaptado do livro “A Corporação: a busca patológica por lucro e poder”. Ele mostra o desenvolvimento das corporações contemporâneas como entidades legais, na maioria das vezes, incentivadas pelo governo por meio de incentivos fiscais ou empréstimos em bancos públicos.

Essas instituições passaram a afetar funções públicas originando uma instituição comercial moderna com direitos iguais à maioria dos direitos legais de uma pessoa comum. O documentário lança a questão da responsabilidade da Pessoa Jurídica (PJ) em comparação à Pessoa Física (PF). E, apesar de se concentrar nas corporações norte- americanas, também são abordados casos nas sociedades latino-americanas, trazendo uma boa pista sobre como a sociedade avaliaria psicologicamente uma empresa se ela fosse pessoa.

O documentário aborda de uma forma interessante aos estudantes de administração, negócios e economia temas como responsabilidade social corporativa, responsabilidade limitada, focando no debate sobre a personalidade corporativa.

Há também discussões sobre o impacto das corporações no dia a dia das pessoas, independente do país em que elas vivam. A grandeza e a dependência dessas corporações torna-se maior nos países em desenvolvimento. Por não existir um corpo jurídico forte o suficiente para barrar as atrocidades de uma “pessoa jurídica que, se fosse física, poderia facilmente ser diagnosticada com fortes traços de psicopatia” (BAKAN, 2012).

Referências:

ALCADIPANI, Rafael; MEDEIROS, Cintia. Necrocorporations: Corporate Crimes and Multinationals. Academy of Management Proceedings. Briarcliff Manor, NY10510: Aom, 2014.

BARROS, Amon. Empresas e direitos humanos: premissas, tensões e
possibilidades. Organizações & Sociedade, v.25, n.84, 2018.

BAKAN, Joel. The corporation: The pathological pursuit of profit and power. Hachette UK, 2012.

COSTA, Maria; BORIN, Elaine. A (Ir) Responsabilidade Social Corporativa no Brasil: Empresas, poder e laços entrelaçados. Polêm!ca, v. 18, n. 1, p. 126-148, 2018.

OLIVEIRA, Cintia. Crimes Corporativos: O espectro do genocídio ronda o mundo. Rev. adm. empres., São Paulo, v.59, n.6, p. 435-441, Dec. 2019..https://doi.org/10.1590/s0034-759020190610.

¹Doutoranda na Fundação Getúlio Vargas-SP em Administração de Empresas com período sanduíche na University of Victoria, British Columbia, Canadá.

Como citar:
PEREIRA, Jussara Jéssica. Da Responsabilidade Social Corporativa à (Ir)Responsabilidade Social Corporativa. In: Nuevo Blog, 22 Jun. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/06/22/da-responsabilidade-social-corporativa-a-irresponsabilidade-social-corporativa/. Acesso em: ??

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