Transição Capilar: o que as organizações têm a ver com isso?

Juliana Schneider Mesquita¹

As organizações e os meios de comunicação exercem grande influência na produção e disseminação do imaginário social relacionado a significações identitárias e ao padrão de beleza[i]. Quando telenovelas historicamente colocam mulheres negras sempre no papel de escravizada ou de empregada doméstica, elas reforçam a atribuição de determinados trabalhos de menor prestígio e posição social subalterna às mulheres negras. Quando organizações contratam apenas pessoas brancas e de cabelos lisos para uma campanha publicitária, elas estão reforçando o padrão eurocêntrico de beleza que deve ser almejado. Quando uma marca como a Bombril relança uma esponja de inox com o nome “Krespinha”, ela reforça os estereótipos negativos relacionados ao cabelo crespo como duro.

Em um país como o Brasil, onde a miscigenação foi política de Estado visando ao embranquecimento da população como estratégia de genocídio do negro brasileiro[ii], a construção de estereótipos e significações negativas ou de subalternidade afeta diretamente as subjetividades negras, fazendo com que muitas pessoas negras oriundas dessa miscigenação, romantizada pelo mito da democracia racial[iii], não se reconheçam como negras. Contudo, esses indivíduos acabam por viver num limbo, onde não reconhecem sua negritude, a ponto de odiarem a si mesmas e aos seus semelhantes, e não são aceitas pela branquitude.

O embranquecimento é o processo onde as pessoas negras buscam amenizar as dores do racismo, uma vez que no Brasil predomina o preconceito de marca[iv]: quanto mais traços negróides uma pessoa possui, maior será o peso do racismo nas suas experiências cotidianas. Porém, o embranquecimento não acaba com a opressão racial, pois o racismo não é somente aquele manifestado nas nossas relações interpessoais, como quando o cabelo de uma mulher negra é chamado de “cabelo duro”, “cabelo ruim”, “cabelo Bombril”. O racismo é estrutural[v], assim, ele nos organiza socialmente, definindo quais lugares os sujeitos negros podem ocupar na estrutura socioeconômica e política da sociedade.

O homem branco é o sujeito universal. A mulher branca é “o outro” do homem branco, não tem o poder de definição de si mesma, está em relação ao homem. É definida pelo olhar dele, são brancas, mas não são homens. Os homens negros se encontram na posição de competidores, pois são homens, mas não são brancos. E as mulheres negras, não são nem homens e nem brancas, sendo definidas como “o outro do outro”[vi].

Essa relação de “o outro do outro” tensiona as relações de empatia que as mulheres negras estabelecem com o feminismo, o movimento negro e o movimento LGBT. Assim, o feminismo negro, utilizando-se da ferramenta da interseccionalidade[vii], denuncia o racismo no movimento feminista e LGBT e o machismo no movimento negro.

Eu, que passei pelo processo de transição capilar e de ressignificação identitária enquanto mulher negra, afirmo que alisar o cabelo para nós mulheres negras não é uma questão de simples escolha estética individual, mas uma imposição, uma válvula de escape. Se o preconceito se manifesta por meio da aparência física, o embranquecimento torna-se uma ferramenta de aceitação na sociedade. Assim, nós mulheres negras nos submetemos ao embranquecimento para amenizar nossa dor perante aos padrões estéticos que dizem que o belo é totalmente o oposto de nossa natureza, para sermos mais competitivas no mercado afetivo e sermos aprovadas no mercado de trabalho.

Assumir os cabelos naturais (cacheados ou crespos) é um ato político para mulheres negras, não é apenas uma questão estética, mas um renascer identitário, a reconciliação com a nossa negritude, resgate com nossa ancestralidade. Daí a importância da autodefinição das mulheres negras[viii], para que possamos resistir à objetificação como “o outro do outro”, para que possamos falar sobre nós e para nós: “até hoje os brancos falaram por nós. Temos que assumir a nossa própria voz. É aquele velho papo, temos que ser sujeitos do nosso próprio discurso, das nossas próprias práticas”[ix]. Só assim poderemos expressar livremente nossas identidades, nossos cabelos, nossas feições, nossas religiosidades, nossos afetos.

Uma sociedade e organizações antirracistas não se fazem somente com hashtags nas redes sociais, mas com conscientização da negritude e autocrítica da branquitude. É necessário questionar a branquitude enquanto norma, pois enquanto essa desconstrução não acontecer, pessoas negras continuarão a ser apenas números em programas de diversidade em organizações, para que as mesmas possam legitimar seus discursos de responsabilidade social, sem que estejam de fato comprometidas com a mudança estrutural da sociedade.

No artigo “’Cabelo (crespo e cacheado) pro alto, me levando a saltos’: em meio à ressignificação das identidades de mulheres negras em contextos sociais e organizacionais”, eu, Juliana Teixeira e Caroline Silva analisamos como o processo da transição capilar contribui para a ressignificação das identidades de mulheres negras e como essa ressignificação afeta suas relações sociais e organizacionais. Leia o artigo e venha conosco aprofundar nessa discussão.

http://www.spell.org.br/documentos/ver/57805/-cabelo–crespo-e-cacheado–pro-alto–me-levando-a-saltos–em-meio-a-ressignificacao-das-identidades-de-mulheres-negras-em-contextos-sociais-e-organizacionais/i/pt-br

Referências:

[i] ACEVEDO, Cláudia Rosa; NOHARA, Jouliana Jordan Interpretação sobre os retratos dos afro-descendentes na mídia de massa. Revista de Administração Contemporânea [online], v. 12, n. spe., p. 119-146, 2008.

[ii] NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado – 3. ed. – São Paulo: Perspectivas, 2016.

[iii] FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1972.

[iv] NOGUEIRA, Oracy. Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem: sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil. Tempo Social, v. 19, n. 1, p. 287-308, 2007.

[v] ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.

[vi] KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

[vii] CRENSHAW, Kimberlé Williams. Demarginalizing the intersection of race and sex; a black feminist critique of discrimination doctrine, feminist theory and antiracist politics. University of Chicago Legal Forum, v. 1, 139-167, 1989.

AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.

[viii] COLLINS, Patrícia Hill. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento; tradução Jamille Pinheiro Dias. – 1. ed. – São Paulo: Boitempo, 2019.

[ix] GONZALEZ, Lélia. A cidadania e a questão étnica. In: TEIXEIRA, João Gabriel Lima (org.). A construção da cidadania. Brasília: UNB, 1986, p. 165.

¹Mestranda em Administração pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Como citar:
MESQUITA, Juliana Schneider. Transição Capilar: o que as organizações têm a ver com isso? In: Nuevo Blog, 24 Jun. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/06/24/transicao-capilar-o-que-as-organizacoes-tem-a-ver-com-isso/. Acesso em: ??

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