Nas organizações você pode ser tudo, desde que não seja feminino

Renan Gomes de Moura¹

É muito comum no mundo do trabalho, em suas diversas áreas, ouvir “Tem que ter culhões”, “Ela se impõe como homem nas reuniões” ou então “Ela está de TPM, por isso esta nervosa”, “Esse não é um trabalho para gays” e até mesmo “Nem parece que é gay”, “Nós não temos problemas em você ser gay, só seja discreto”. Mas nunca nos questionamos o quão perversa essas falas são e o quanto elas refletem não só aquele sujeito que ocupa um espaço de poder, mas também seus valores.

Mas que sujeito é esse? Bem, estamos falando do homem cisgênero, branco e heterossexual que pensa o mundo a partir do poder concedido ao falo e então ditam as regras do jogo baseando-se na sua visão e no poder falocêntrico, outorgados por eles mesmos e partilhados por seus pares. Nesse sentido as regras passam a operar em todos os ambientes em que haja pessoas e isso engloba as organizações.

Não cremos que as organizações sejam neutras quando o assunto é gênero, pois o que elas sabem fazer de melhor é valorizar a masculinidade e a virilidade. Mas e a feminilidade? Ah, essa deve estigmatizada, marcada e compreendida como algo ruim, que deve ser mantido longe do mundo organizacional. Não importa se você é homem, mulher ou gay, você poderá sim reproduzir o machismo no ambiente do trabalho e evitar ser o mais masculino possível, pois é a incorporação da masculinidade que lhe “concede” a figura de um profissional sério e competente.

Nas organizações se você for uma mulher feminina deve se masculinizar ou então será vista como fraca. Se for gay afeminado deve virar um “machão” ou será chamado de bichinha, mocinha ou bicha. Isso tudo acontece porque sujeitos que performam a feminilidade em seus corpos não podem ocupar espaços que lhe dêem algum grau de poder. Na visão dos machos cisheterossexuais, deixar a feminilidade ocupar espaço é deixar que ela abale as estruturas de poder da dominação masculina.

No âmbito organizacional trava-se uma guerra contra a feminilidade, o que gera diversos efeitos nocivos. Podemos citar: o assédio moral, bullying, queda de produtividade e até mesmo perda de identidade. Essa última ocorre de forma tão naturalizada que aqueles que dão lugar a masculinidade em seus corpos repletos de feminilidade vêem esse ato como uma evolução. E assim a masculinidade se mostra como um progresso, ou seja, é vista como uma melhoria necessária

Os homens não querem perder espaço, principalmente no mundo do trabalho. Por conta disso as organizações vivem uma eterna guerra dos gêneros em que homens lutam com canhões, bazucas e granadas, enquanto os sujeitos femininos vão apenas com um colete à prova de balas, isso quando não vão com o corpo nu.

Quer ler mais sobre o assunto? Clique no link e confira o artigo de Renan Gomes de Moura e Rejane Prevot Nascimento:

http://www.spell.org.br/documentos/ver/57804/o-estigma-da-feminilidade-nas-organizacoes–um-estudo-a-partir-da-visao-de-sujeitos-gays/i/pt-br

¹Doutorando em Administração pela Universidade do Grande Rio.

Como citar:
MOURA, Renan Gomes de. Nas organizações você pode ser tudo, desde que não seja feminino. In: Nuevo Blog, 01 Jul. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/07/01/nas-organizacoes-voce-pode-ser-tudo-desde-que-nao-seja-feminino/. Acesso em: ??

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