Etnografia e a análise das organizações [resenha teórica]

Por Mariana Mickosz Ravedutti Paul, Marina Emanuelli Belo e Stephanie Daher

Nesta resenha teórica buscamos contextualizar a etnografia e o método etnográfico com base em três principais tópicos: definições (1), paradigmas (2) e perspectivas (3). Para isso, estabelecemos um diálogo entre o primeiro capítulo do livro Ethnography: Principles and Practices intitulado de “What is ethnography?”[i], o capítulo cinco do livro Estratégias de Pesquisa em Organização, intitulado de “A Etnografia e os Estudos Organizacionais”[ii], o artigo “O Método Etnográfico em Estudos sobre a Cultura Organizacional: Implicações Positivas e Negativas”[iii] e a dissertação de mestrado “Chegadas e Partidas – Um Estudo Etnográfico sobre as Relações Sociais em Casas-Lares”[iv].

Partindo de nosso primeiro tópico de contextualização (1) podemos afirmar que a definição de etnografia e método etnográfico é questão de complexas discussões no campo das ciências sociais desde o seu surgimento. Nascida da antropologia, com contribuições de Malinowski, entre 1914 e 1918, a etnografia se modificou desde então. Contudo, como conceito, se sustenta em uma “tecelagem etnográfica” dotada de uma complexidade epistemológica[v].

Para Godoy (1995 apud ANDION; SERVA, 2006, p. 153) a etnografia se baseia na descrição, sendo ela uma característica bastante ampla para a sustentação de um conceito. No entanto, “há discordâncias se a característica distintiva da pesquisa etnográfica é a elicitação do conhecimento cultura, a investigação detalhada de padrões de interação social ou a análise holística das sociedades”[vi].

Apesar das divergências quanto a sua característica principal, a pesquisa etnográfica é dotada de alguns atributos específicos, presentes na maior parte de suas definições, entre eles podemos destacar: a proximidade com o campo e com o objeto em uma espécie de imersão no contexto cultural do pesquisado e a descrição do caso buscando transmitir ao leitor a sensação de “estar lá”[vii].

Segundo Cavedon (1999, p. 4) a etnografia “[…] não é o ‘trabalho de campo’, mas sim o ‘que se escreve sobre o trabalho de campo’”, sendo que é a observação participante, de acordo com o autor, uma das técnicas que legitima o método por conta da coleta de dados, permitindo, assim, que se tenha condições para a elaboração do texto.

O método etnográfico se caracteriza pelo levantamento de todos os dados possíveis sobre uma determinada comunidade[viii], o método envolve ​”o etnógrafo participando, aberta ou veladamente, em atividades das pessoas por um período prolongado de tempo, observando o que acontece, ouvindo o que é dito, fazendo perguntas”[ix]. Na declaração de sua experiência com o método etnográfico, Szinek (2008, p.20) diz “Há que se suportar a falta para se tentar ser analista, e também para ser etnógrafo, sabendo que nem sempre isso será possível”. 

A declaração de Szinek (2008) quanto a experiência com o método etnográfico naturalmente nos introduzem ao nosso segundo tópico; paradigmas (2). ​Hammersley e Atkinson se dedicam a uma discussão sobre a relação da etnografia com o positivismo e o naturalismo, “[…] procurando captar as duas tendência influentes no pensamento das ciências sociais em geral e da etnografia em particular”[x].

Nessa discussão, os autores comentam sobre a influência que os dogmas herdados das conhecidas ciências duras que têm em ​sua concepção a lógica do experimento, e por isso carregam uma série de pressupostos como: a mensuração, a neutralidade, a verificação e a característica dedutiva da ciência. Esses dogmas positivistas compõem o pano de fundo do  paradigma dominante, discutido por Boaventura de Souza Santos (1988[xi]). Em uma critica antipositivista, Andion e Serva (2006) explicam que essa concepção tradicional de ciência nega todas as formas de conhecimento por não se basearem nos princípios epistemológicos positivistas. Corrobora com este argume​nto a discussão de Hammersley e Atkinson (1983) onde afirmam que etnografia tem sido, às vezes, declarada como inadequada para a ciência social, sob o argumento de que os dados e descobertas que ela produz são impressões subjetivas, meramente idiossincráticas, que não podem fornecer uma base sólida para análises científicas rigorosas.

Andion e Serva (2006) apontam que é essencial considerar o surgimento de novas leituras epistemológicas e metodológicas onde o objeto é analisado em seu contexto em rejeitar as suas redes de comunicação. Deste modo, a etnografia por sua complexa relação com o campo propõe um embate paradigmático uma vez que aproxima categorias tratadas de forma excludente (como quantitativo/qualitativo, estático/dinâmico e individual/social) podem ser repensadas sob a perspectiva de complementaridade. De acordo com os autores, a nova epistemologia não se trata de conciliar o inconciliável, mas de buscar uma visão distinta da tradicional que era pautada por critérios como método, comprovação, rigor, explicação e divisão em disciplinas.

Neste embate paradigmático, Hammersley e Atkinson (1983) afirmam que a distinção entre ciência e senso comum, entre as atividades do pesquisador e as dos pesquisados, está no cerne do positivismo e do naturalismo. Apontando que isso que leva à sua obsessão conjunta em eliminar os efeitos do pesquisador sobre os dados. Por um lado, a solução é a padronização dos procedimentos de pesquisa (positivismo); para o outro, é a experiência direta do mundo social, em sua forma extrema (naturalismo), a exigência de que os etnógrafos se entreguem às culturas que desejam estudar. 

Concluem assim que a partir do exame da construção lógica da pesquisa social e suas implicações para a etnografia. Nem o positivismo nem o naturalismo fornecem um quadro adequado para a pesquisa social. Ambos negligenciam sua reflexividade fundamental, o fato de que somos parte do mundo social que estudamos e que não há como fugir da confiança no conhecimento do senso comum e nos métodos de investigação do senso comum. Toda pesquisa social baseia-se na capacidade humana de observação participante. Agimos no mundo social e ainda somos capazes de refletir sobre nós mesmos e nossas ações como objetos nesse mundo.

Ao incluir nosso próprio papel dentro do foco da pesquisa e explorar  sistematicamente nossa participação no mundo em estudo como pesquisadores, podemos desenvolver e testar a teoria sem confiar em apelos fúteis ao empirismo, seja de variedades positivistas ou naturalistas[xii].  Deste ponto de vista, e especialmente em relação à etnografia, nem o positivismo nem o naturalismo são completamente satisfatórios. Na opinião dos autores eles compartilham um equívoco fundamental: ambos mantêm uma distinção nítida entre a ciência social e se objeto.

Como espaço de um embate paradigmático o método etnográfico introduz ao fazer ciência categorias antes afastadas da comunidade científica, como por exemplo a sensibilidade. Cavedon (1999) discute que a sensibilidade e a empatia fazem parte do trabalho do etnógrafo, que está em constante negociação com seu campo e informantes. De acordo com a autora, a riqueza ou pobreza dos dados coletados sofre uma influência muito grande desses aspectos tipicamente humanos. Argumento este que se aproxima da afirmação de Hammersley e Atkinson (1983) ao dizerem que a etnografia é a mais básica das pesquisas sociais e que tem uma grande semelhança com as formas rotineiras em que as pessoas dão sentido ao mundo na vida cotidiana.

Essa aproximação é também identificada na dissertação de ​Szinek (2008), em seu  trabalho com as casas-lar a autora afirma que etnografia foi decisiva para a produção de alteridade. Ao discursar sobre sua experiência Szinek (2008) descobriu que as crianças das casas-lares não sofriam da falta de mãe, mas sim da um excesso fragmentado dessa figura. Nessa análise a autora afirma que a “maternidade” como uma experiência afetiva, pautada em categorias do desenvolvimento infantil estavam pautadas tanto em sua visão de especialista quanto nos “outros” de seu campo. Foi apenas quando a própria autora começou a ser questionada no campo sobre sua condição – sendo solteira e sem filhos – e era incentivada pelas cuidadoras da casa lar a começar um namoro com um dos voluntários que ela percebeu  o ideal de família que se tinha culturalmente na instituição. A autora coloca “o ideal era que eu namorasse o voluntário e adotasse uma das crianças”[xiii],foi aí então que entendeu a força da família monogâmica estruturada como valor do campo e influenciando as práticas. A autora diz que o ponto fundamental de sua etnografia se deu quando ela percebe que sendo demandada a reproduzir família que ela se fazia estranha em seu campo. 

A partir desta experiência introduzimos nosso terceiro e último tópico de conexão: as perspectivas da etnografia/método etnográfico. Frente a posição paradigmática apresentada  pelos textos analisados, o uso do método etnográfico se fundamenta em uma concepção de ciência antipositivista[xiv]

Em um recorte para o campo da organização Cavedon (1999) afirma que se faz necessário prestar atenção na cultura abrangente a qual a organização pertence, e alternar essa visão com a cultura específica da organização em questão. Em sua conclusão a autora destaca o uso da etnografia como um método de pesquisa adaptado a área das ciências sociais aplicadas, em que apesar de suas características e postura epistemológica, é capaz de contribuir para o desenvolvimento de áreas amplas de estudos que combinam a etnografia com análise até mesmo de métodos quantitativos. Quanto a suas  considerações a autora afirma que deve-se ter cuidado com a organização sistêmica durante a construção do texto, a fim de se evitar o caos. Desse modo, e a partir das discussões levantadas, as considerações sobre as perspectivas do método etnográfico no campo dos Estudo Organizacionais, se apresenta como um método eficiente e com grande potencial para o estudo com questões de pesquisa singulares por conta de sua alta capacidade de descrição de elementos simbólicos e culturais, inerentes ao contexto organizacional em suas diferentes formas, não deixando entretanto, de considerar suas implicações e dificuldades[xv].


[i] HAMMERSLEY, Martyn; ATKINSON, Paul. Ethnografy: Principles in Practice. London and New York: Tavistok Publications, 1983.

[ii] ANDION, Carolina; SERVA, Maurício. A etnografica e os estudos organizacionais. In: GODOI, C. K.; BANDEIRA-DE-MELO, R.; SILVA, A. B. (Orgs.). Pesquisa Qualitativa em Estudos Organizacionais – Paradigmas, Estratégias e Métodos. São Paulo: Editora Saraiva, 2006.

[iii]  CAVEDON, Neusa Rolita. Método Etnográfico em Estudos sobre a Cultura Organizacional: Implicações Positivas e Negativa. XXIII Enanpad, 1999. 

[iv] SNIZEK, Bárbara Kiechaloski. Chegadas e Partidas – Um Estudo Etnográfico sobre as Relações Sociais em Casas-Lares. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social). Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2008.

[v] Idem item ii.

[vi] Idem item i, p. 1.

[vii] ANDION, Carolina; SERVA, Maurício. A etnografica e os estudos organizacionais. In: GODOI, C. K.; BANDEIRA-DE-MELO, R.; SILVA, A. B. (Orgs.). Pesquisa Qualitativa em Estudos Organizacionais – Paradigmas, Estratégias e Métodos. São Paulo: Editora Saraiva, 2006.

CAVEDON, Neusa Rolita. Método Etnográfico em Estudos sobre a Cultura Organizacional: Implicações Positivas e Negativa. XXIII Enanpad, 1999. 

HAMMERSLEY, Martyn; ATKINSON, Paul. Ethnografy: Principles in Practice. London and New York: Tavistok Publications, 1983.

[viii] Idem item iii.

[ix] Idem item i, p. 2.

[x] Idem item i, p. 3.

[xi] Idem item ii.

[xii] Idem item i.

[xiii] Idem item iv, p. 145.

[xiv] Idem item ii.

[xv] Idem item vii.


Mariana Mickosz Ravedutti Paul é Mestranda em Administração pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Marina Emanuelli Belo é Mestra em Administração pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Stephanie Daher é Mestranda em Administração pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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