O lugar que não existe

Rafaela Mota Ardigó¹

Quando li o clássico UTOPIA, lançado no ano de 1516, estava precisando sonhar. Em tempos em que a realidade parece cada vez mais se aproximar das distopias, penso que o sonho generoso de uma nova sociedade possível é uma boa escolha literária para diluir, um pouco, nossos pesadelos pós-modernos. Além de ser considerada a primeira crítica fundamentada ao excessivamente faustuoso estilo de vida da nascente burguesia do séc. XVI, Utopia também é apontada como a primeira tentativa teórica de uma sociedade baseada na comunidade de bens no Ocidente.

O contexto de quando o livro foi escrito se dá em uma Inglaterra marcada pela avareza do rei para com a população e pela concentração de riquezas entre o clero e a nobreza, detentoras da maior parte de terras e riquezas públicas. Tais características dotavam a estes poucos plenos poderes sobre a vida e a morte dos demais. As gerações camponesas, sem trabalho e destituídas de qualquer direito, sucediam-se na miséria. A severidade da lei punia igualmente com a pena de morte o assassino, o ladrão e o vagabundo. Nesta sociedade injusta, desigual e desorganizada é escrita Utopia.

O pequeno livro dourado, escrito pelo inglês Thomas Moore, é a narrativa de viagem do marinheiro Rafael que, por conta de seu espírito curioso e aventureiro, conhece a ilha de Utopia. É nesta pequena república imaginária que Moore tece seu monólogo crítico e satírico a sociedade feudal em decadência e, simultaneamente, desenvolve as características e a forma de organização do que, a seu ver, seria uma sociedade ideal.

Nesta sociedade as leis são feitas para a compreensão cognitiva dos cidadãos e seu usufruto real, sendo seus magistrados admirados por todos os outros povos. Homens e mulheres são educados, ainda que persista uma relação de subserviência. A diplomacia é preferível à guerra.  O ser é mais importante que o ter, demonstrações vis de riqueza são incompreendidas pelos cidadãos utopianos. A diversidade de crenças religiosas é permitida e respeitada em Utopia. Não crer também é possível, embora seja considerado condenável pela maioria.

No trabalho, cada cidadão exerce a atividade mais adequada ao seu intelecto e ao seu espírito, sendo todos considerados igualmente dignos e importantes. Os meios de produção são compartilhados pelos cidadãos. Não há tráfico de dinheiro. Uma vez que a fortuna do estado é distribuída de forma igualitária, não existem pobres nem mendigos. Todos têm um lar digno, alimentação apropriada, acesso a educação e direito a segurança social na velhice.

O que sobretudo transtornava todas as minhas ideias era o alicerce sobre  que foi erguida esta estranha república, quero dizer, a comunidade de vida e de bens, sem tráfico de dinheiro. Ora, esta comunidade destroí radicalmente toda nobreza e magnificência, todo esplendor e majestade – coisas que, aos olhos da opinião pública, fazem a honra e o verdadeiro ornamento de um Estado (Thomas Moore, ao final do relato de Rafael).

A Utopia de Moore é revolucionária na organização social, conservadora nos costumes e não visa uma sociedade planificada. Porém, está sociedade quimérica possui três características que me chamaram especialmente a atenção à época da leitura: a persistência da escravidão, a persistência do patriarcado, o destino manifesto mandatório da reprodução do corpo feminino e a permanência de uma racionalidade católico-cristã como moderadora do comportamento social. Estes elementos, ainda que resignificados por Moore faziam parte do contrato social de sua Utopia.

Obviamente, não podemos culpar um aristocrata do séc. XVI por não conseguir superar estes paradigmas conservadores, tampouco diminuir sua Utopia. Penso, inclusive, que talvez Moore tenha sido visionário neste sentido. Afinal, passados cinco séculos de sua escrita são questões ainda latentes na sociedade. Assim como o são boa parte das outras coisas que ele aspirava ver estabelecidas. Nas palavras do próprio, condenado por crime de alta traição e decapitado em Londres no ano de 1535: “Aspiro, mais do que espero”.

¹Doutoranda em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
ARDIGÓ, Rafaela Mota. O lugar que não existe. Nuevo Blog, 04 jul. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/07/04/o-lugar-que-nao-existe/. Acesso em: ??

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