Sobre Pensar o que Vem a Cabeça

Por Francis Kanashiro Meneghetti

Um homem, como eu, depois de uma certa idade, simplesmente se lança a escrever. Não há mais tempo para articular previamente as ideias. Essa conduta é para quem é inseguro. Para quem precisa mediar a realidade com as mentiras produzidas por si mesmo para aguentar essa vida tediosa que se instalou na modernidade. Falar o que se pensa não é caminho para felicidade, é apenas alegria instantânea. Tudo bem que depois vem as consequências, mas, dane-se! Afinal, quanto mais perto do fim, e mais longe do início da vida, mais espontaneidade é necessária para conseguir tolerar as imposições do tempo cronológico.

A eminência da morte física, que aumenta em escala aritmética depois dos 40 e geométrica depois dos 60, faz o humano perceber que a vida é menos que um instante se levarmos em conta os parâmetros do tempo do universo. Aliás, nas proporções astronômicas e no tempo universal, somos muito menos do que insignificantes.

O que é mais estranho no mundo de hoje é como as pessoas tentam calar uns aos outros. A fala do outro é sempre recebida com apreensão. Estamos sempre temerosos em relação ao que pode sair da boca de alguém. Principalmente das pessoas normais. Dos loucos, bem… Estes são os que mais invejamos, afinal como é bom poder falar e ser imediatamente desresponsabilizado por aquilo que se fala!

Acho que o medo do que o outro pode nos falar tem duas motivações. Primeiro, obviamente, dele ter razão. Segundo, dele não ter razão, mas você não ter certeza que ele não tem razão. Em outros tempos históricos não havia dúvida. A razão não pertencia aos homens. Estava fora deles. O que possuíamos eram apenas convicções. Certa ou errada, nossas convicções eram suficientes para assegurar a veracidade da razão. Se fosse provado que o convicto estava errado, esse se apegava a boa intensão e sua honra estava garantida. No mundo europeu ocidental, do fim da antiguidade até meados da alta Idade Média essa lógica era suficiente para garantir alento.

Depois de Bacon, Copérnico, Galileu, Descartes e da instituição do pensamento científico moderno, o mundo se tornou um lugar perigoso para os convictos. O que era verdade, passou a ser certeza. Foi incorporada a humanidade o gérmen da dúvida provisória. Para piorar as coisas, os malditos Marx, Nietzsche, Freud e os pensadores pós-modernos, cada um a seu jeito, substituíram as certezas por crenças, essas efêmeras ante a especialização crescente não só do conhecimento instrumental como da permanente tentativa de estabelecer uma anatomia do afeto! O processo cotidiano na lógica do ascetismo intramundano transformou a verdade de Deus – na Idade Média – e dos Deuses – na Antiguidade – em crenças humanas. Como é insuportável viver assim, em vai-e-volta permanentes dos nossos pensamentos em lógicas que se sustentam em bases tão instáveis como a areia movediça.

É preciso correr para as igrejas mesmo! Lá ainda é possível, pelo menos por alguns instantes, encontrar a paz que só as convicções nos proporcionam. O problema das igrejas é que elas são produtos das religiões. E foi exatamente as religiões que fundaram as ciências! Pense só em Augusto Comte e o positivismo! Pense nos primeiros liberais e no capitalismo! Pense nos gurus da atualidade e no empreendedorismo! Nada escapa a lógica reificadora!


Francis Kanashiro Meneghetti é Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade e no Programa de Pós-Graduação em Administração pela Universidade tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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