O perspectivismo Ameríndio e os Estudos Organizacionais

Por Ana Paula Medeiros Bauer e Sergio Eduardo Pinho Velho Wanderley

Fonte: Site Educalingo – Autor desconhecido.

Tupi, or not tupi that is the question, essa provocação feita por Oswald de Andrade em 1928 na publicação do Manifesto Antropófago nos intriga até hoje. O campo de ensino e pesquisa em administração, ainda detém muita influência estrangeira, principalmente vindo do norte global e que muitas vezes não corresponde à nossa realidade. Nesse sentido, nos questionamos como podemos nos aproximar dos nossos saberes populares? Como podemos abraçar toda a diversidade que foi encoberta, silenciada e por vezes aniquilada? Como realizar pesquisas compreendendo o Outro não como objeto, mas como um sujeito? Foram a partir dessas indagações que percebemos o conceito de perspectivismo ameríndio e suas possibilidades como contribuições para o pensar em estudos organizacionais.

O perspectivismo ameríndio é um conceito de Viveiros de Castro, que sugere um deslocamento reflexivo para a posição ocupada pelo objeto de investigação o tornando o sujeito a partir do qual devemos questionar nossas próprias premissas. Eduardo Batalha Viveiros de Castro nasceu no Rio de Janeiro e é formado em Ciências Sociais pela PUC-RJ, e é professor titular de Antropologia Social no Museu Nacional da UFRJ[i] . Sua obra de grande destaque, “Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio” (1996), foi traduzida para diversas línguas e inspirou a reflexão antropológica em todo o mundo. Roy Wagner (um antropólogo estadunidense que teve grande influência na área) diz que as contribuições de Viveiros de Castro fizeram com que pessoas como ele adquirissem uma percepção crítica do trabalho que estavam realizando[ii]. Ainda segundo Wagner (2011), a introdução desse conceito foi uma grande contribuição do Brasil ao mundo da antropologia.

O perspectivismo ameríndio tem como ponto de partida as etnografias amazônicas e suas inúmeras referências, sendo necessário um desprendimento do nosso ponto de vista para que seja possível captar como a visão de mundo e a natureza do Outro direcionam suas ações. Um outro conceito usado pelo autor é o “multinaturalismo perspectivista” como similar ao perspectivismo ameríndio, pois o “multinaturalismo amazônico não afirma uma variedade de naturezas, mas a naturalidade da variação, a variação como natureza”[iii]. O multinaturalismo serve como contraponto ao conceito do ocidente de multiculturalismo, pois este parte de uma “unicidade de natureza e uma multiplicidade das culturas”, ao passo que a concepção ameríndia pressupõe o oposto, a natureza ou o objeto é a forma do particular, enquanto a “cultura ou o sujeito seriam aqui a forma do universal”[iv]. Nesse sentido, devemos compreender a diversidade como sinônimo de sobrevivência, para sobrevivermos é necessário que haja diversidade que enriquece o planeta tanto ambientalmente como socialmente.

Sobretudo, o conceito de perspectivismo ameríndio nos remete a refletirmos como pesquisadores sobre as escolhas teórico-metodológicas que fazemos para investigar nosso objeto/sujeito. Refletirmos não somente a partir de nossa própria perspectiva, mas também a partir do ponto de vista de nosso sujeito/ex-objeto. Afinal, “toda experiência de um outro pensamento é uma experiência sobre o nosso próprio”[v].

Assim, devemos refletir sobre as consequências de nossa tarefa como investigadores ao dominarmos uma estrutura teórico-metodológica – nossa roupa – e sairmos pelo mundo procurando objetos/sujeitos em que possamos – vestir – aplicar essa estrutura-roupa. Para o perspectivismo ameríndio, “um objeto é um sujeito incompletamente interpretado”[vi]. Portanto, para interpretarmos esse sujeito, devemos refletir sobre as consequências que nossas escolhas onto-epistemológicas terão sobre nossa pesquisa a partir do ponto de vista do Outro. Neste ponto, entendemos que os conceitos de deslocamento reflexivo e equivocidade intencional[vii] têm muito a contribuir com a construção do Outro em estudos organizacionais.OR.

Nesse sentido, é importante ressaltar que essa perspectiva é fruto de um outro modo de pensar, que se afasta da lógica objetivista que é motivada pela modernidade do ocidente. Para tal modernidade, “conhecer é “objetivar”; é poder distinguir no objeto o que lhe é intrínseco do que pertence ao sujeito cognoscente, e que, como tal, foi indevida e/ou inevitavelmente projetado no objeto”[viii] . A epistemologia moderna entende que conhecer “é dessubjetivar, explicitar a parte do sujeito presente no objeto, de modo a reduzi-la a um mínimo ideal (ou a ampliá-la demonstrativamente em vista da obtenção de efeitos críticos espetaculares)” [ix].

Trazer o perspectivismo ameríndio para os estudos organizacionais, foi uma tentativa de buscar contribuir com uma descolonização das teorizações difundidas na área. Acreditamos que retornar aos pensamentos dos povos originários pode causar reflexões importantes sobre nosso lócus de enunciação, levando em consideração que essas perspectivas podem nos ajudar a traçar uma história dos saberes organizacionais, buscando não reproduzir os mapas mentais e conceituais dominantes. Assim, esse olhar que considera o multinaturalismo e o perspectivismo pode embasar as orientações para (re)contar possíveis histórias dos saberes organizacionais com base no compromisso decolonial latino-americano, promovendo um giro onto-epistemológico.

Para saber mais sobre o assunto, clique no link:

http://www.spell.org.br/documentos/ver/58115/-tupi–or-not-tupi-that-is-the-question—perspectivismo-amerindio-e-estudos-organizacionais

[i] VIVEIROS DE CASTRO, E. Metafísicas canibais: Elementos para uma antropologia pós-estrutural. São Paulo, SP: Cosac Naify, 2015.

[ii] WAGNER, R. O Apache era o meu reverso. Entrevista com Roy Wagner, realizada por Florencia Ferrari, Iracema Dulley, Jamille Pinheiro, Luísa Valentini, Renato Sztutman e Stelio Marras em São Paulo, SP, 17 ago. 2011.

[iii] Idem item i, p. 69.

[iv] Idem item i, p. 43.

[v] Idem item i, p. 96.

[vi] Idem item i, p. 52.

[vii] Idem item i.

[viii] Idem item i, p. 50.

[ix] Idem item viii.


Ana Paula Medeiros Bauer é Doutoranda em Administração pela Universidade do Grande Rio (Unigranrio).

Sérgio Eduardo de Pinho Velho Wanderley é Doutor em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (EBAPE/FGV). Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade do Grande Rio (Unigranrio).

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