Adoecimento psíquico dentro das organizações: o fracasso em ser si mesmo

Gabriele Prestes Halabura¹

Em seu livro, “Sociedade do Cansaço”[i], o filósofo Byung- Chul Han, afirma que as perturbações psicológicas da pós modernidade estão diretamente relacionadas a pressão gerada pelo sistema econômico em vigor, o qual envolve elevados níveis de competência e produtividade, bem como alta performance. Dessa forma, o autor denominou como “Sociedade de Desempenho”, o alicerce desse sistema, caracterizado por indivíduos e estruturas sociais como um todo, que tem como critério a perfeição, o alto rendimento e a positividade de modo geral.

Sendo assim, a sociedade do desempenho habituou-se a vivenciar uma violência sistêmica, que por ser saturante e exaustiva, torna-se praticamente imperceptível. Diferente de um vírus ou bactéria, onde nosso corpo seria capaz de reagir e mobilizar recursos para nossa defesa, vivemos hoje um excesso de positivismo, presente tão intrinsicamente em nossos organismos, que não conseguimos combatê-lo, pois, somos nós mesmos os agentes agressores. Esse positivismo em demasia gera alienação e desqualificação do eu, visto que ser eu mesmo não é mais suficiente, pelo contrário, é considerado fracasso. As consequências dessa ideologia são vastas, visto que, com a extrema positivação do mundo, não há espaço para estados de exceção, erros e fracassos, tão pouco, para sentimentos como indisposição, angústia e luto.

Em um mundo onde o impossível é possível, a busca pela perfeição é exaustiva, gerando o que Han chama de “cansaço da sociedade de desempenho”[ii]. Além de gerar cobrança excessiva, sofrimento psíquico, isolamento, exclusão e solidão, esse cansaço faz com que seja perdida a capacidade de aprofundamento contemplativo, essa, reconhecida desde a Grécia antiga, como favorável à emergência de conteúdos criativos e o exercício do pensar livre.

No que concerne ao ambiente organizacional, pode-se afirmar que, dentro da sociedade do desempenho as potencialidades humanas são desqualificadas enquanto meras atividades, constituindo assim, apenas mais um dos aparatos desse grande sistema.  Discursos organizacionais como: proibição, mandamento e lei, cedem lugar para vocábulos como: projeto, iniciativa e motivação. O excesso de trabalho e necessidade de alta performance convertem-se em uma auto exploração[iii].

O sujeito, movido pela exorbitante quantidade de positividade que o cerca, essa presente não apenas no discurso, mas também no excesso de estímulos, informações e impulsos, passa a cobrar si mesmo por melhores resultados[iv]. A figura de um chefe autoritário não é mais necessária, visto que ele mesmo assume postura vigilante, hostil e punitiva quanto ao seu desempenho. Dessa forma, a auto exploração produz uma sensação de realização, pois sua subjetividade, não mais reside em seus aspectos psíquicos e vivências pessoais.

O fracasso em ser si mesmo, gera intenso sofrimento psíquico. Segundo Cardoso (2015[v]), o adoecimento ocorre quando o trabalhador recebe exigências para as quais não dispõe de recursos de enfrentamento; quando a demanda (física, mental e/ou emocional) gera angústia e a organização não fornece os meios necessários para sua solução.

O reconhecimento da perfeição como mera ilusão entra em confronto com tudo o que lhe foi transmitido social e culturalmente. Ser si mesmo, já não basta. Sentimentos como: impotência, fracasso, insucesso, tristeza, decepção e esgotamento, passam a permear a rotina desse indivíduo. Necessidades humanas básicas como: apoio, senso de pertencimento grupal, segurança e em certo nível, amor, são negligenciadas, pois as “famílias organizacionais” e a composição imaginária de elementos fraternais, não estão presentes no dito “insucesso”.

Há também perda de identidade e confusão na auto imagem e relações interpessoais, pois aquele indivíduo que era tido como: líder, indispensável, proativo, competitivo e resiliente, quando se mostra humano e portanto suscetível a imperfeição e a experienciação dos mais diversos conflitos, vulnerabilidades, angústias e sentimentos, passa a ser reduzido pelo discurso organizacional como: dispensável, preguiçoso, irresponsável, fraco, não colaborativo, entre outros termos em demasia excludentes e que por numerosas vezes, reduzem o sujeito ao seu fazer profissional, minimizando portanto o seu potencial organísmico[vi].

A tentativa de individualizar esse mal estar coletivo, advêm do que Marx denominou do caráter fetichista do mundo das mercadorias. Segundo o autor:

[…] os trabalhos privados só atuam efetivamente como elos do trabalho social total por meio das relações que a troca estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio destes, também entre os produtores. A estes últimos, as relações sociais entre seus trabalhos privados aparecem como aquilo que elas são, isto é, não como relações diretamente sociais entre pessoas em seus próprios trabalhos, mas como relações reificadas entre pessoas e relações sociais entre coisas[vii].

Assim, essa tendência capitalista tem como objetivo final a lucratividade, sendo possível afirmar que esse, é um fenômeno global, não sendo restrito a determinado setor profissional, gênero, raça ou faixa etária. A culpabilização dos trabalhadores é a resposta que ao mesmo tempo, eximi as organizações da culpa, reforça e reproduz essa ideologia aos demais e retira o foco da discussão desse tópico no ambiente laboral. É urgente o desenvolvimento social e individual de um maior senso crítico em relação aos processos organizacionais e consciência sobre a constituição das formas de identificação atuais, que fomentariam uma perspectiva questionadora sobre os tópicos referentes ao adoecimento no ambiente laboral e menosprezo dos processos subjetivos. Dessa forma, as diferentes facetas do adoecimento dentro dos ambientes de trabalho poderão ser compreendidas como causas das violências organizacionais, ao invés de restritas a alguns indivíduos com baixa resiliência.

Referências:

[i] HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução: G. Enio Paulo. Petrópolis: Vozes, 2017.

[ii] Idem item i.

[iii] MARON, W. M.C. Psicanálise e Trabalho: retratos do contemporâneo. In: COELHO, R.; MOTTA, D. A. (Orgs.). Mal-estar, alienação e o trabalho: entre a identidade e a autoexploração. Porto Alegre: Memorial da Justiça do Trabalho, 2020.

[iv] Idem item iii.

[v] CARDOSO, A. C. M. O trabalho como determinante do processo saúde-  doença. Tempo Social, v. 27, n.1, 2015. https://doi.org/10.1590/0103-207020150110

[vi] Idem item i.

[vii] MARX, K. O capital.  Livro 1. Tradução: R. Enderle. São Paulo: Boitempo,2011, p. 207.

¹Graduanda em Psicologia pela Universidade Tuiuti do Paraná.

Como citar
HALABURA, Gabriele Prestes. Adoecimento psíquico dentro das organizações: o fracasso em ser si mesmo. In: Nuevo Blog, 09 Jul. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/07/09/adoecimento-psiquico-dentro-das-organizacoes-o-fracasso-em-ser-si-mesmo/. Acesso em: ??

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