Por que (não) falar sobre dependência química nos estudos das organizações?

Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna¹

Por qual razão falar da dependência química e seu impacto nas organizações? Se pensarmos de forma pragmática, as características e termos atribuídos aos dependentes químicos e às dependentes químicas por grande parte da sociedade, por si só, já nos respondem: Não há razão para se falar de bêbados e bêbadas, sem-vergonhas, mau caráteres, drogaditos, entre outros termos que, mesmo em tom jocoso, vão da “brincadeira” até as caracterizações mais atrozes que o ser humano pode usar para se referir a uma pessoa doente. Sendo assim, rapidamente observamos um jogo discursivo que trata de incluir dependentes químicos em grupos de moral duvidosíssima, e os exclui automaticamente do rol de doentes mentais que poderiam (e deveriam) contar com o apoio do poder público, das organizações não governamentais e da sociedade como um todo.

Poucos sabem, mas a síndrome da dependência química é classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma doença crônica, com classificação dentro da Classificação Interna de Doenças (CID-10) e caracterização no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (APA, 2002). Entre os fenômenos relacionados à doença, constata-se que o indivíduo acometido pela dependência química pode perder o controle de seus comportamentos, de sua cognição e de sua fisiologia, priorizando a droga em detrimento de qualquer outra relação ou obrigação. Contudo, mesmo diante de evidências científicas a respeito da doença, quando nos voltamos para a esfera das organizações, ao dependente químico raramente é estendida a mão, a não ser pela família, quando esta não se cansa e abandona, ou por organizações como pastorais ou outras poucas que conseguem se manter no Brasil a partir desta “bandeira”.

Tal situação se deve a inúmeros fatores de cunho político e social, mas aqui podemos evidenciar dois. Primeiro, tratar do assunto dependência química não “dá voto”, tendo em vista que o senso comum não percebe a doença como uma doença, mas como uma vontade que pode (e deve) ser controlada ao bel prazer do dependente químico. Com isso, a doença e doentes acometidos por ela são excluídos de políticas públicas, incluindo aquelas voltadas para a inclusão e reintegração de outros doentes mentais à sociedade. E segundo, o consumo de drogas como o álcool, que é uma droga lícita, mas tão fatal como qualquer outra, está inserido em uma cultura secular, baseada no patriarcado e no machismo. O homem bebe desde criança, incentivado por orgulhosos familiares e amigos, e a mulher, para frequentar os ambientes masculinizados como reuniões e happy hours do mundo corporativo moderno, vê-se obrigada a consumir álcool e “beber como homem”.

No ambiente corporativo a exclusão da portadora e do portador da síndrome da dependência química é cruel, haja visto que em confraternizações, jantares, situações formais e reuniões informais, jamais é pensado sobre indivíduos portadores da síndrome, mas apenas é garantido que não faltem as drogas (lícitas e ilícitas) que tornam o competitivo e incômodo ambiente de trabalho em algo suportável. Como consequência desses rituais intocáveis, não raro o dependente químico do sexo masculino que não controla seu transtorno obsessivo compulsivo em um evento social ou familiar, torna-se motivo de chacota, de bullying e outras formas de assédio. Em relação à dependente química do sexo feminino as práticas são ainda mais repugnantes. Ao não ter controle sobre sua doença naqueles ambientes, além das mesmas práticas às quais o dependente químico do sexo masculino é submetido, não raros são os episódios de violência, assédio sexual, violência sexual e estupro devido à vulnerabilidade trazida pela doença.

Com isso, a estigma carregada pelas dependentes químicas e pelos dependentes químicos é imensa, mas velada. Isso em uma sociedade que aceita o furtar, roubar e mentir, a depender do ambiente organizacional, como algo positivo (um político que “sabe roubar” ou “rouba mas faz” pode ser visto como exemplo positivo). Desta forma, as pessoas acometidas pela dependência química, e que fazem um tratamento ou buscam um apoio, usualmente, são levadas a fazê-lo, de forma discreta, ou até secreta. Essa situação se deve, por exemplo, ao fato de que, até mesmo entre médicos e profissionais da saúde, o entendimento sobre a doença é permeado de pré-conceitos e opiniões baseadas em desinformação. Prova disso é o slogan da última campanha antidrogas do governo federal, em 2019: “você nunca será livre se escolher usar drogas”. Esse slogan da campanha ecoa as crenças do senso comum, ao marcar o destino das dependentes químicas e dos dependentes químicos como excluídas e excluídos eternamente, além de levar ao dependente químico e à dependente química e sua família uma elevada dose de desesperança. Desta forma, a imagem e idealização de um dependente químico que sempre estará preso aos locais e práticas características do seu período de uso, torna-se um fator, muitas vezes, inviabilizador da reintegração dessas pessoas a um emprego, a um grupo social, ou a algum tipo de relacionamento saudável. E quando o fazem, muitas vezes se veem obrigados a esconder sua condição.

Mas e como a dependência química, as dependentes químicas e os dependentes químicos e os atores que envolvem essas pessoas são estudadas e estudados na administração e nos estudos das organizações? Usualmente os estudos são direcionados para a área da psicologia e áreas da saúde, com os estudos na área de organizações se restringindo, em larga medida, ao tema de Gestão de Pessoas. Mesmo assim, são raríssimos estes estudos, haja visto que em uma busca pelo termo dependência química nas bases Spell e Scielo, para artigos na área das Ciências Sociais Aplicadas, são cinco os resultados na segunda e apenas um na primeira, quando buscado o termo no título ou resumo. As possibilidades de estudos sobre o tema não devem se limitar às áreas aqui já mencionadas, tendo em vista que outras perspectivas são possíveis. Aqui vou apresentar algumas delas, que tive a oportunidade de pensar a partir de pesquisas desenvolvidas[i] [ii] junto com a Professora Juliana Previatto Baldini Tonon, com o Professor Leonardo Tonon e com a jornalista Aline Sjanaj Ferreira, mas que não são exaustivas:

a) O uso de drogas com o objetivo de melhorar a performance no trabalho: Vivemos em uma sociedade orientada por um discurso neoliberal e consumista, que prega a competitividade e a individualidade como ferramentas para o alcance das realizações comuns (não ordinárias, mas comuns a todos que estão fazem parte desse sistema). Desta forma, não são raros os usos de drogas estimulantes para aumentar a produtividade no mundo 24/7, especialmente em um mundo “gamificado” e que disponibiliza trabalhos precarizados em que as pessoas precisam prestar grandes quantidades de serviço para garantir rendas minimamente adequadas. Lembro-me de tomar carona com um motorista de uber há dois anos, que estava dirigindo há 23 horas seguidas. Esta situação já foi pesquisada sob a perspectiva de motoristas de caminhão, mas toma nova roupagem diante da hiper flexibilidade do trabalhador demandada pelas organizações, da uberização do trabalho e da precarização;

b) Relações de poder e o tratamento da dependência química: O tratamento da dependência química requer novos hábitos, novas companhias, e muitas vezes novas organizações na vida da dependente química e do dependente químico. Além disso, o acompanhamento de profissionais da área da saúde e/ou a frequência a reuniões de grupos de ajuda são considerados fatores fundamentais na recuperação. Contudo, a assiduidade nestas modalidades de tratamento ou apoio muitas vezes se contrapõe aos horários de trabalho e às obrigações profissionais da dependente química e do dependente químico. Mesmo quando o nível gerencial está ciente de tal situação, e da relação entre a assiduidade do dependente químico a tais práticas com sua performance na atividade laboral, há aí um “poder de” e “poder sobre”. Em uma entrevista com um dependente químico escutamos o seguinte relato: “Ao mesmo tempo em que eu era elogiado em todos os aspectos de minha avaliação anual por minha dedicação, eu era penalizado com uma nota baixa em meu cumprimento de horário, já que uma vez por semana saía vinte minutos antes para um grupo de apoio.” Nesse caso, o gestor exercia um poder sobre o funcionário dependente químico, e exercia um poder de atribuir à doença do indivíduo a responsabilidade por sua baixa avaliação naquele quesito. Sobre isso, há de se perguntar, ainda, se como professores e tutores estamos preparados (ou se nos preparamos) para lidar com a possibilidade de nossos alunos, colegas e familiares serem acometidos por essa síndrome, e como lidamos ou lidaremos com isso, com empatia e ajuda ou com preconceitos e assédio;

c) Desigualdades e dependência química: É comum ouvir de dependentes químicos e profissionais da área da saúde que trabalham com essa especialidade, a seguinte frase: “A dependência química leva para um dos três C´s: cadeia, clínica ou cemitério”. No entanto, um recorte interseccional é emergencial sobre a temática, tendo em vista que o destino das dependentes químicas e dos dependentes químicos a cada um dos C´s está diretamente relacionado às suas características raciais, étnicas, sociais, biológicas e sexuais. Basta pensarmos no tratamento dado pelas organizações policiais e pela justiça quando se deparam com: um homem branco de 25 anos encontrado em um bairro de classe média com 15 gramas de cocaína; uma mulher preta de 25 anos encontrada com 10 gramas de cocaína em um bairro de periferia. Quando ambos declaram ser portadores da síndrome da dependência química, há de se problematizar as razões pelas quais o primeiro usualmente é considerado um doente-usuário que vai para uma clínica, enquanto a segunda é considerada traficante, e segue para a cadeia. Ou para o cemitério, sem poder, sequer, declarar algo. Além disso, o recorte de gênero e dependência química nas organizações não é estudado, e isso é emergencial. O tratamento dado às dependentes químicas e aos dependentes químicos é diferente, tanto nas relações sociais, familiares e do mundo do trabalho, como mencionei anteriormente. 

Seria possível apresentar mais uma dezena de possibilidades de estudos e relações emergenciais entre a dependência química e os estudos das organizações. Contudo, pelo espaço limitado, mas importantíssimo, espero contribuir, mesmo que minimamente, para jogar luz sobre esta temática que a cada dia assola dependentes químicas e dependentes químicos, suas famílias e demais pessoas envolvidas. É importante trazer, ainda, a fala de uma psicóloga que entrevistamos, em que ela afirma: “O dependente químico em recuperação é um cara que é pontual, que é correto, que é responsável… porque isso faz parte do tratamento. Para se recuperar, tem que ser verdadeiro, tem que ser pontual, tem que ser correto[ii]. Com isso, finalizo este texto refletindo que, se não há o interesse das organizações, da academia e do poder público na pessoa acometida por esta doença ou em sua família, apelemos para a produtividade.

Referências:

[i] VIANNA, F. R. P. M.; TONON, J. P. B.; TONON, L.; FERREIRA, A. S. “Uma hora o trabalho começou a atrapalhar”: Os diferentes sentidos do trabalho de um dependente químico em recuperação. Revista Gestão & Conexões. v.9, n. 2, 2020.

[ii] VIANNA, F. R. P. M.; TONON, J. P. B.; TONON, L. O trabalho e a dependência química: sentidos e significados em um estudo exploratório. Anais do Encontro Nacional da Anpad – EnANAPAD, São Paulo, Brasil, 2019.

¹Doutorando em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Mestre em Administração pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
VIANNA, Fernando Ressetti Pinheiro Marques. Por que (não) falar sobre dependência química nos estudos das organizações? In: Nuevo Blog, 25 jul. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/07/25/por-que-nao-falar-sobre-dependencia-quimica-nos-estudos-das-organizacoes/ . Acesso em: ??

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