Sexismo nas escolas de business: Desigualdades estruturais, falhas sistêmicas e experiências sexistas[1]

Imagem retirada do site Líder e Gestão (03 abr. 2020)

Caroline Rodrigues Silva¹

Fomentar o debate em torno do sexismo nas escolas de business é uma ação política, ativista e ética. Esse debate não pode e nem deve ser circunscrito a um objeto de pesquisa afastado do nosso cotidiano, afinal estamos falando da NOSSA conduta. Proponho, ao localizar o sexismo na academia de business, reflexões pulsantes que perpassam o cotidiano e que, por múltiplas vezes, foram invisibilizadas na sociedade brasileira, e ainda são. Meu ponto inicial é o sexismo, contudo vale lembrar que tal opressão opera interseccionalmente com o racismo, a homofobia, o capitalismo, os nacionalismos, a gordofobia, o etarismo dentre outras intersecções. De maneira que reproduzem as dinâmicas interseccionadas por exclusões de determinadas identidades em espaços de poder em detrimento de inclusões de outras (AKOTIRENE, 2019; CRENSHAW, 2004). Questiono se tais ações opressoras, que são encaradas como “normais”, ao serem sistematizadas estão, de fato, na esfera do silêncio, do invisível, do velado e da sutileza?

“Invisível para quem?”. Relembro o trecho contido no livro Ensaio sobre a cegueira de José Saramago: “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que vendo, não veem”. E diante da lógica de perdas dos sentidos que configuram o não reconhecimento do que está à nossa frente, recuso a ideia de que as opressões estão nas esferas do silêncio, do não visto, do velado e do sútil. Ao minimizar e normalizar às perdas de sentidos e significa-las a partir da passividade torna-se equivalente às afirmações que são questões mudas, cegas e letárgicas em si mesmas. Refuto a passividade e ressalto as resistências ao som ensurdecedor do silêncio, aos jogos de poder e, sobretudo, às ações sistemáticas que promovem acondicionamentos violentos na sociedade e, por conseguinte, na academia, ao promover opressões configuradas como “normais”.

É necessário evidenciar que carregamos em nossas vivências as marcas do sexismo e suas intersecções. Contudo, em continuidade experienciamos as resistências e desobediências às violências opressoras. Audre Lorde, em 1977, já nos alertava sobre o poder da escrita, do poder de dizer ao revelar-se e, especialmente, transformar a linguagem em ação. Nesse sentido romper com o silenciamento é político: “Meus silêncios não me protegeram. Seu silêncio não vai proteger você” (Lorde, 2019; p. 52). Silenciar! Vejam bem, o silêncio como verbo, portanto produzido por ações. Para essas ações quero chamar atenção para o nosso poder de agência e de escolha e, que ao podermos escolher mudar, optamos pela omissão. O não fazer é também uma ação, tem som e é revelador. Em qual lugar de ação você, quem me lê, se encontra? No livro O feminismo é para todo mundo, bell hooks alerta para o esvaziamento político ao não problematizar o sexismo. De maneira que é importante reconhecer que todos, todes e todas nós podemos ser produtores de ações e ideias sexistas (hooks, 2018). O que muda então? Porque devemos pensar em gênero? Acontece que o sexismo atravessa as heterogêneas identidades assimetricamente e, em que pese o contexto de sociedades patriarcais, a aversão ao feminino (re)produz miríades de violências aos corpos inteligíveis como tais.

Para não incorrer no risco de manter os “cegos que vendo, não veem”, negrito algumas das múltiplas possibilidades de experenciar o sexismo. Consciente que os exemplos não se esgotam nesse texto e por isso o convite é para a reflexividade contínua. Ao pensar a academia como espaço (re)produtor de conhecimento, problematizo o famoso mansplannig. Quem são? Os homens que desconsideram a sua formação, capacidade e te explicam o óbvio. Alguns mais ousados explicam temas em que a especialista é você. Seguido do gaslighting, representado pela situação em que o homem manipula a realidade de tal forma que produzem insegurança em certezas ao passo que buscam confundir e, porque não, intitular a mulher de LOUCA. São práticas históricas de histerização do corpo feminino presentes no nosso dia a dia (BUTLER, 1990).

A biologização do corpo da mulher por conta de hormônios também é utilizada contra as mulheres: “você está de TPM?”. Outra ação recorrente é, ao sermos assertivas, somos imediatamente interrompidas pela frase: “calma, você está muito nervosa, vamos encerrar por aqui”.  E por falar em interrupção, o manterrupting é a prática em que homens se sentem no direito de interromper o raciocínio das mulheres sistematicamente. Você já reproduziu alguma dessas práticas (mesmo que inconscientemente)? Você já viveu alguma situação parecida? Qualquer semelhança não é mera coincidência e essas atitudes costumam estar emaranhadas, e não em separado.

Lamentavelmente, as violências sexistas não se encerram nesses primeiros exemplos. Sexualizar o corpo em detrimento da intelectualidade é uma prática insistente, de maneira que não nos faltam vivências.  A mulher quer discutir uma ideia, mas o homem entende como uma investida sexual. A mulher é brilhante, mas deve ter um caso com o superior. Homens insatisfeitos com as palavras (que viram ações, lembram?) agem como se houvesse algum tipo de auto permissividade e assediam sexualmente pares, estudantes e trabalhadoras dentro das organizações. A dinâmica de poder não é hierárquica e acordada nos moldes de pirâmides organizacionais e, sim, pautada pela falácia patriarcal de que homens são o padrão e, por conseguinte, os detentores das normas (TEIXEIRA,. et al., 2018; TEIXEIRA.; RAMPAZO, 2017).

O arquétipo da liberdade sexual heterocispatriarcal promove a ausência de limites. De maneira que resulta em toques indesejados, perseguições, piadas imersas na cultura do estupro, insinuações sexuais e até abusos físicos. São assediadores sexuais violentos, é preciso dar nome às ações. Difícil digerir que tais comportamentos são praticados por colegas, por chefes, por amigos, parentes e por você? Pior ainda fecharmos os olhos ao individualizarmos as práticas e deixar a responsabilidade de seguir ou do silêncio para as sobreviventes dos abusos.

“A vida é business, bradam os defensores neoliberais que individualizam e pressupõem a gestão de si (DARDOT; LAVAL, 2014). Defensores da meritocracia e dessa suposta individualidade pensam-se “deuses” no vácuo e esquecem que o trabalho do cuidado, tido como trabalho reprodutivo, são a base para produtividade na esfera civil pública. O que quero dizer com isso? Que o fato de as mulheres estarem majoritariamente no trabalho do cuidado, além de sexista, produz disparidades econômicas e desigualdades nas possibilidades de gestão de si. É necessário reconhecer, para além da tão conhecida diferença salarial entre homens e mulheres, que essa diferença se estende, respectivamente, entre homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras. Por isso, quando as métricas são baseadas na meritocracia e organizadas pela produtividade, legitimadas pelo sistema neoliberal, reproduzem exclusões de gêneros, de classes e raciais.

Você pode se perguntar: “Como?”. Quando, por exemplo, pensamos os espaços das universidades públicas e os salários docentes igualitários? Cômodo ser um “cego que ao ver, não vê”, ao passo que é difícil o exercício de olhar para o que não está lá. Pergunto: Quem são as identidades que você não reconhece ao olhar para espaços de poder acadêmicos? Quais docentes negras e negros estiveram presentes na sua trajetória? Quem são as suas e seus colegas de trabalho? O Brasil possui 56% de população negra, então como não se incomodar com a ausência de representatividade em espaços de poder?

Para os corpos construídos como masculinos, o quão a masculinidade apreendida é tóxica e produtora dessas violências para si e para os outros? Ao pensarmos orientação sexual, o quanto nos valemos de ideias sexistas para oprimir? Os corpos trans ocupam os espaços constituintes da sua bolha social e acadêmica? Mulheres que ocupam lugares de poder da branquitude e/ou do capital (pleonasmo) se livraram do sexismo ou reforçam o estereótipo de que as outras mulheres ausentes nesse espaço não são tão competentes? A sua trajetória e individualidade contam histórias que negaram espaços e, ainda assim, você desobedeceu e rompeu com as amarras, mas e agora? Estamos preparadas e preparados para compreender o nosso lugar de agência no espaço de poder que ocupamos? Em que relação quebradiça estamos ancorados enquanto uma sociedade acadêmica de Administração?

Convidamos as análises críticas, ações coletivas que sejam interseccionais: antissexistas, antirracistas, queer, antinacionalistas, anticapitalistas, antiexcludentes e que busquem romper o que hoje chamamos normal, porque eticamente a violência não deve ocupar esse espaço de conformidade. O título que acompanha esse texto se traduz na chamada feita por mim (Caroline Rodrigues Silva), Ilaria Boncori, Banu Ozkazanc-Pan, Alison Pullen para a chamada especial da Gender, Work & Organization (GWO). A edição especial, transnacional, da GWO é processo que é semente, ao mesmo tempo em que é fruto de uma longa caminhada de muitas, muites e muitos de nós. Convidamos às reflexões acadêmicas, permeadas por ativismos e produções científicas. Concordamos em dar forma à proposta desafiante de Audre Lorde de ecoar vozes na potencialidade de transformar palavras em ações:

https://onlinelibrary.wiley.com/pb-assets/assets/14680432/GWO_SI_CfP_Sexism%20in%20business%20schools-1595590130757.pdf?fbclid=IwAR3rnFrUfX42mzgFm0_QaNbYWvvAIA7VEV4liami1L2XZWXdhm_MJ6JD2eg

Referências e Notas:

[1] Sexism in business schools: Structural inequalities, systemic failures and individual experiences of sexism

AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. 1. ed. São Paulo: Sueli Carneiro Pólen, 2019. v. 1.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. v. 1 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasiliera, 1990.

CRENSHAW, Kimberlè. A interseccionalidade na Discriminação de Raça e Gênero., 2004. p. 7–16.

DARDOT, Pierre.; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo. [S.l.]: Boitempo Editorial, 2014.

hooks,  bell. O feminismo é para todo mundo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.

Lorde, Audre. Irmã Outsider.Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. companhia das letras, 1995.

TEIXEIRA, Juliana; SILVA, Caroline; MESQUISTA, Juliana; RAMPAZO, Adriana. “ Assédio Sexual No Contexto Acadêmico Da Administração ”: Relações De Poder Cotidianas Sobre As Quais Elas Já Disseram , E Nós Vamos Dizer Mais . E. 2018, Cuririba: V Congresso Brasileiro de Estudos Organizacionais, 2018. p. 1–18. Disponível em: <http://www.sisgeenco.com.br/sistema/cbeo/anais2018/ARQUIVOS-resumos/GT11-197-152-20180520170758.pdf&gt;.

TEIXEIRA, Juliana. C.; RAMPAZO, Adriana. da S. V. Assédio Sexual no contexto acadêmico da Administração: o que os lábios não dizem, o coração não sente? Farol – Revista de Estudos Organizacionais e Sociedade, v. 11, n. 4, p. 1151–1235, 2017.


¹ Caroline Rodrigues Silva, mulher, cis, negra de pele clara, heterossexual, doutoranda em Administração na FGV EAESP.

Como citar:
SILVA, Caroline Rodrigues. Sexismo nas escolas de business: Desigualdades estruturais, falhas sistêmicas e experiências sexistas. In: Nuevo Blog, 12 ago. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/08/12/sexismo-nas-escolas-de-business-desigualdades-estruturais-falhas-sistemicas-e-experiencias-sexistas1. Acesso em: ??

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