Questões animais

Thiago Vasconcelos¹

Uma das questões centrais da filosofia ocidental é aquela que busca definir a natureza humana, ou em outros termos, que tem como objetivo estabelecer o critério que nos diferencia como espécie de todos os outros viventes. O que parece ter sido ignorado e esquecido por grande parte dessa tradição, da qual somos herdeiros e continuadores, é que a pergunta pela essência do homem traz consigo uma outra questão. Sempre que se pretendeu dizer o que é o ser humano foi necessário convocar os animais para marcar uma diferença, uma linha abissal entre eles e nós. A questão animal, nesse sentido, sempre esteve presente na tradição filosófica do Ocidente, ainda que sob o signo de sua própria negação.

O filósofo argelino Jacques Derrida apontou em uma conferência proferida em Cerisy no ano de 1997 para a problemática da demarcação de uma linha que separa o Homem do Animal. Derrida não nega que haja diferenças entre os humanos e os animais. A inconsistência da formulação Homem versus Animal é o fato de que não há o Animal no singular. Há múltiplos viventes e, consequentemente, múltiplas distâncias entre eles, incluindo aí o ser humano. Há tanta distância entre uma girafa e um ser humano quanto há entre um besouro e um golfinho. Derrida vai concordar que existem diferenças, mas elas devem ser entendidas em sua multiplicidade. Dizer “o Animal” no singular é ignorar essa multiplicidade e essa proliferação de diferenças entre os viventes.

A grande dificuldade em admitir essa pluralidade de diferenças entre os animais e os humanos é que o discurso filosófico buscou estabelecer o que seria próprio do homem (e, portanto, negado a todas as formas viventes não-humanas): a linguagem, a alma, o pensamento, o rosto, o luto, a cultura, entre outros. Haveria, assim, um abismo que nos tornaria mais próximos dos deuses do que do corpo animal, conforme afirmou Heidegger[1]. Mas, os estudos animais a cada ano mostram que não é mais possível dizer que essas características humanas são absolutamente inexistentes em alguns animais. Não se falaria mais aí de próprio do homem, mas de diferentes modos de manifestação de determinadas características que estariam presentes na própria vida, em suas diferentes formas de abertura ao mundo.

É essa a ideia apresentada por Hans Jonas em sua obra O princípio vida, a de que desde as estruturas mais primitivas a vida já apresenta características espirituais. Ou seja, o pensamento e a liberdade são parte constitutiva da vida desde suas formas mais elementares. Onde geralmente se vê descontinuidades deveríamos, ao contrário, pensar a continuidade entre as diferentes manifestações viventes. Hans Jonas fala de graus de abertura ao mundo, o que não significa necessariamente uma hierarquia. Pois, por um lado, o ser humano estaria mais aberto ao mundo (por causa de sua capacidade de abstração), mas, por outro, essa abertura é o signo do risco à qual sua existência está continuamente lançada.

Essas são algumas das questões que busco trabalhar em minha pesquisa atual. Meu objetivo central é compreender os alcances e limites de uma filosofia que busca questionar a vida animal, mas, principalmente, que se permite ser questionada pelos animais. Parece contraproducente falar em uma questão que parte dos animais em direção aos humanos, afinal, a possibilidade do questionamento está fundada sobre a linguagem. E, na medida em que não há comunicação mútua entre nós e os animais, toda pergunta seria unidirecional, ou seja, partiria do Homem. Mas, lá onde a linguagem da filosofia parece falhar, a poesia pode ser um instrumento para se deixar ver pelos olhos do outro. É esse olhar, signo do mistério e da dor à qual submetemos os inúmeros animais lançados ao modo de produção industrial (que faz deles máquinas), que nos indaga sobre o edifício metafísico que construímos como morada. É esse olhar animal que, hoje, nos lembra das ruínas que essa metafísica nos legou.

Gostaria de terminar indicando uma poesia de Carlos Drummond de Andrade em que um boi vê o ser humano e questiona o seu modo de viver, supostamente superior ao modo de vida chamado de animal, selvagem, bestial, irracional…

Um boi vê os homens – Carlos Drummond de Andrade

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos — e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Referências e Notas:

DERRIDA, J. O animal que logo sou. Tradução de Fábio. 2. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

HEIDEGGER, M. Sobre o humanismo. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão. 3. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2009.

JONAS, H. O princípio vida: fundamentos para uma biologia filosófica. Tradução de Carlos Almeida Pereira. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2004.

[1] Heidegger em Sobre o humanismo: “a Essência do Divino nos seja mais próxima do que o estranho ser vivo” (HEIDEGGER, 2009, p. 44).


¹Doutorando em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e da Universidade de Coimbra.

Como citar:
VASCONCELOS, Thiago. Questões Animais. In: Nuevo Blog, 13 ago. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/08/12/questoes-animais. Acesso em: ??

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