Na economia, como na vida, não há mágica -para uma crise sem precedentes, ações sem precedentes!

Imagem retirada do site Cartamaior.com (29 mar. 2020)

Fernanda Feil¹

Carlos Henrique Horn²

Beatriz Marcoje³

Os impactos da pandemia da Covid-19 serão mais profundos do que o inicialmente previsto – tanto na atividade econômica quanto na sociedade.  O FMI projeta uma contração global do produto de 4,9% em 2020, seguida por um crescimento de 5,4% em 2021. Em especial, o consumo e a produção de serviços estão sendo profundamente afetados devido a uma combinação ímpar de fatores: distanciamento social, bloqueios necessários para retardar a transmissão da doença e permitir que os sistemas de saúde não entrem em colapso, perdas de renda intensa e confiança mais fraca dos consumidores. Trata-se de uma profunda crise em que se sobrepõem choques concomitantes de oferta e demanda.

De forma a evitar contrações na atividade ainda mais desastrosas do que as previstas, os governos têm implementado importantes medidas fiscais e financeiras. Programas de horas de trabalho reduzidas e de assistência aos trabalhadores em licença temporária têm mantido muitos trabalhadores afastados do desemprego, enquanto o apoio financeiro às empresas e ações regulatórias para garantir a continuidade da provisão de crédito impediram falências mais generalizadas.

No Brasil, o quadro parece ainda mais grave, combinando-se as incertezas originadas pela queda da atividade econômica, à crise política, uma insuficiente resposta sanitária e inábil ação do Estado na minimização dos efeitos da crise. As projeções da atividade econômica do país para esse ano mostram retração esperada de algo entre -6% e -10%. A incerteza quanto à duração do período de contração da atividade econômica doméstica se soma à insegurança quanto à efetividade da atuação do governo na mitigação dos impactos. A crise de confiança foi potencializada pelo foco numa falsa dicotomia entre saúde e economia, alimentada no discurso inábil feito pelo próprio governo de aprofundamento da austeridade fiscal e de que resultou um aprofundamento da recessão em curso.

A direção e a intensidade da atuação do governo por meio de políticas públicas serão decisivas para amortecer os efeitos desemprego, perda de riqueza e fechamento de empresas, especialmente aquelas de menor porte. Dessa forma, mais do que o montante da queda do PIB que ocorrerá no ano, devemos atentar para a trajetória da recuperação da economia. Especula-se que, enquanto o mundo poderá seguir uma trajetória de crescimento em formato “V” ou, na pior das hipóteses, “U”, o Brasil terá uma sequência em “L” – ou seja, a queda abrupta da atividade deverá ser seguida por nova estagnação econômica.

Com o propósito de aumentar o grau de liberdade do governo federal na adoção de medidas para mitigar o impacto da Covid-19, o Congresso Nacional declarou “estado de calamidade pública” em 20 de março de 2020, mês que marcou o início do isolamento social no Brasil. Assim, medidas emergenciais foram incluídas no “orçamento de guerra” de 2020, cuja elaboração não precisou obedecer a disposições restritivas da Lei de Responsabilidade Fiscal e à regra de ouro constitucional.

As medidas até o momento não foram suficientes para reverter a trajetória de queda da atividade doméstica ou reanimar expectativas. A experiência internacional indica que a política econômica precisa ser usada, primeiramente, para amortecer as perdas de renda das famílias com medidas consideráveis e bem direcionadas, bem como para fornecer apoio às empresas que sofrem com as consequências das restrições obrigatórias à atividade. Onde as economias estão reabrindo, o apoio deve ser gradual e as políticas devem fornecer estímulos para elevar a demanda.

A recessão provocada pela Covid-19 já encontrou a economia brasileira em situação fragilizada, ainda sem ter se recuperado inteiramente da forte contração ocorrida na atividade em 2015-16. Os anos de 2017-19 foram de baixo crescimento com reduzida taxa de investimento e elevado grau de ociosidade de capital e de trabalho. Em 2019, o nível do PIB ainda estava 3,1% abaixo do registrado em 2014.

A crise afetou a economia brasileira de forma direta, com as medidas de isolamento social e a interrupção de atividades produtivas, e indireta em face da redução de demanda (doméstica e externa), atingindo de maneira disseminada os setores de serviços, comércio e indústria. Espera-se forte queda no faturamento das empresas e na disponibilidade de crédito, que reforçará os choques, gerando um ciclo vicioso.

Nesse cenário de profunda recessão, o único agente econômico capaz de atuar no estímulo a demanda agregada é o Estado – esse com E maiúsculo! Como na vida, não há mágica na economia. Uma situação como a atual, de estagnação da atividade econômica necessita de um Estado forte e atuante, que entenda que o aumento da dívida pública nesse momento é algo natural – tão natural que ocorrerá em todos os lugares do mundo. Somente no Brasil a “intelectualidade” econômica que o governa ainda está apegada a preceitos neoliberais do século passado, preceitos esses abandonados há muito tempo nos centros desenvolvidos. Enquanto isso, no Brasil real, a taxa de desemprego chega a mais de 13%, o número de desalentados (aquelas pessoas que nem entram na estatística porque cansaram de procurar emprego) aumenta a cada semana, a fome impera e a desigualdade se aprofunda.  O momento é de buscar alternativas, é de pensar um país melhor, menos desigual, que promova um desenvolvimento sustentável. Para tanto, necessitamos de um Estado planejador, com instituições públicas fortes e respeitadas. Infelizmente, é o caminho oposto que estamos tomando.

¹ Economista, doutoranda na Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora da Faperj 10.

² Professor da Faculdade de Ciências Econômicas na Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS).

³ Mestranda em Economia na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Como citar:
FEIL, Fernanda; HORN, Carlos Henrique, MARCOJE, Beatriz. Na economia, como na vida, não há mágica -para uma crise sem precedentes, ações sem precedentes! In: Nuevo Blog, 27 ago. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/08/27/na-economia-como-na-vida-nao-ha-magica-para-uma-crise-sem-precedentes-acoes-sem-precedentes/. Acesso em: ??

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s