Divulgação: Incidência e Definição do Assédio Moral entre Trabalhadores do Transporte Coletivo Urbano

Júlia Gonçalves

Suzana da Rosa Tolfo

Leonor Maria Cantera Espinosa

Thiago Soares Nunes

O artigo publicado na Revista Estudos Interdisciplinares em Psicologia em agosto de 2020 (v. 11, n. 2,), intitulado “Incidência e Definição do Assédio Moral entre Trabalhadores do Transporte Coletivo Urbano” é parte da pesquisa de doutorado da primeira autora. A ênfase do estudo relatado foi em identificar a frequência de trabalhadores do transporte coletivo urbano expostos a situações de assédio moral no trabalho, bem como verificar quantos, efetivamente, se reconheciam como alvos dessa violência. Além disso, o artigo apresenta o entendimento e a definição de assédio moral para os participantes do estudo.

O estudo fundamenta-se em uma concepção crítica ao neoliberalismo e às atuais práticas de gestão, pois acredita-se que trabalho não deva gerar sofrimento e exposição a situações de violência. A definição de assédio moral adotado na pesquisa é a proposta por Einarsen e outros (2011[i]), grupo de pesquisadores referência nos estudos sobre essa violência. Esses autores o consideram como um ato de assediar, ofender, excluir ou afetar negativamente as tarefas de trabalho de alguém, sendo esses comportamentos repetidos de forma regular durante um período de tempo. Aqui vale um destaque, embora não haja, na literatura um consenso sobre a definição e as caraterísticas fundamentais do assédio moral no trabalho, aspectos como a frequência (e persistência) e a exposição a comportamentos sociais negativos, como humilhação e hostilidade, são essenciais para a caracterização desse tipo de violência psicológica.

Um diferencial do estudo apresentado no artigo é a abordagem a uma ocupação específica, trabalhadores de transporte urbano, o que envolve ocupações e um segmento pouco investigados. As especificidades das funções desempenhadas por esses trabalhadores, em especial motoristas e cobradores, os colocam sob constante pressão para cumprir horários das linhas e gerir as intempéries ou congestionamentos que possam ocorrer em seu trajeto. Além disso, suas atividades são desenvolvidas nas ruas das cidades e em constante interação com os passageiros. Dessa forma, segurança e o bem-estar desses trabalhadores estão estreitamente interligados com a segurança e o bem-estar dos passageiros e demais usuários das vias[ii].

Participaram 382 trabalhadores filiados ao sindicato da categoria que forneceu a anuência para a realização da pesquisa. Os participantes responderam um questionário de dados sociodemográficos, a Escala Laboral de Assédio Moral – ELAM[iii] e a questões relacionadas ao conhecimento sobre assédio moral. Na análise dos dados, identificou-se que quase 50% dos participantes assinalaram itens na escala que evidenciavam vivências de assédio moral, porém cerca de 37% consideram-se alvos dessa violência. Essa diferença parece representar que, algumas situações de assédio moral já são naturalizadas como parte da rotina de trabalho. As definições de assédio moral dos participantes foram associadas principalmente à humilhação, ao desrespeito, ao abuso de poder e à exposição pública, o que corrobora com as conceitualizações encontradas na literatura, mas reforçam apenas os aspectos objetivos da violência. O assédio moral remonta a formas amplas, sutis e enraizadas nas relações estabelecidas no trabalho, envolvendo elementos subjetivos relacionados à ofensa à dignidade e à danos aos trabalhadores.

O assédio moral no trabalho é um tipo de violência que tem se tornado frequente e recorrente no contexto laboral, podendo trazer diversas repercussões para os indivíduos envolvidos, ao grupo de trabalho, à organização e a própria categoria profissional. Os resultados do estudo reforçam a importância de um direcionamento das empresas e dos sindicatos no sentido de ações para prevenir e mesmo coibir situações de assédio moral, visando, de uma maneira mais ampla a construção de uma cultura de ajuda mútua entre colegas e com as chefias[iv].

Para conferir o artigo na íntegra, acesse:

http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/eip/article/view/131

Referências:

[i] EINARSEN, S. et al. Bullying and harassment in the workplace: Developments in theory, research, and practice (2a ed.). Boca Ratón: CRC Press, 2011.

[ii] GLASØ, L. et al.. Bus drivers’ exposure to bullying at work: An occupation-specific approach. Scandinavian Journal of Psychology, v.52, n.5, 2011.

SILVEIRA, L. S. et al. Análise da situação de trabalho de motoristas em uma empresa de ônibus urbano da cidade de Natal/RN. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v.34, n.1, 2014.

ZHOU, B.; BOYER, R.; GUAY, S. Dangers on the road: A longitudinal examination of passenger-initiated violence against bus drivers. Stress and Health, v.34, n.2, 2018.

[iii] RUEDA, F. J. M.; BAPTISTA, M. N.; CARDOSO, H. F. Construção e estudos psicométricos iniciais da Escala Laboral de Assédio Moral (ELAM). Avaliação Psicológica, v.14, n.1, 2015.

[iv] Texto escrito por Júlia Gonçalves.

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