Produção de Conhecimento em Administração e seu ensino: Enquanto não soubermos o que é o capital, está tudo bem…*

Fonte: Foto de Charles Chaplin (Filme Tempos Modernos).

Deise Luiza da Silva Ferraz¹

Em setembro comemoramos o dia das e dos profissionais em administração. Alguém já reparou que no dia Internacional das Mulheres ou no dia da Consciência Negra ou no dia do Orgulho LGBTI+, as pessoas, em geral homens e brancos, questionam sobre a necessidade de uma data que marque a luta dos grupos oprimidos; porém, ninguém questiona sobre porque temos dias para festejar profissões? Bem, mas não é sobre isso que pretendo escrever, embora também seja, pois a falta de compreensão sobre a necessária luta das pessoas oprimidas e exploradas é, também, resultado do que pesquisamos e ensinamos para os profissionais, no caso, da Administração.

Em pesquisa[i] que o Núcleo de Estudos Críticos Trabalho e Marxologia (Nec-TraMa) finalizou neste ano de 2020, concluímos quase o óbvio, embora saibamos que muitas pessoas não querem vê-lo, a saber: em geral, a ciência administrativa – e seu  ensino – é a propagação de uma ideologia[ii], por estar diretamente vinculada a disseminação de uma forma específica de planejar e controlar os processos de produção, a forma capitalista de produção.

O ensino em Administração, portanto, está a serviço da formação de força de trabalho apta à maximizar os ganhos dos acionistas. Trata-se de produzir uma subjetividade que não enfrenta as contradições de sua existência, se isso não é uma formação ideológica, pela preponderância de interesses particulares sob os gerais, o que seria?

A ciência Administrativa, que produz uma subjetividade própria às necessidades do capital, se perpetua com base em um ensino que possui duas características essenciais: é superficial e tecnicista.

No processo de formação de administradores e administradoras, há uma confusão entre ser uma Ciência Social Aplicada e ser um curso que forma operadores de ferramentas e, por mais complexas que elas sejam, ainda são ferramentas.

A produção do conhecimentos sobre como produzimos, distribuímos e consumimos bens necessários à vida humana dissemina um saber que informa que esses processos somente são possíveis e necessários se, junto a eles, for produzido o lucro, se deles for extraído e realizado mais-valor, em suma, se capital for acumulado.

Marx já demonstrou que o processo de produção de bens e serviços na sociedade capitalista é um processo que produz valores de uso e valor (e mais-valor). É nesse caráter duplo do movimento, que avança o processo de autovalorização do capital e de produção de desigualdades (o processo de pauperização). Porém, nenhuma palavra sobre isso é dito para estudantes de Administração, a quem se ensina observar o processo de produção apenas sob o aspecto do trabalho como criador de valores de uso. E assim,

  • a área de gestão de pessoas cria, ensina e aplica técnicas de controle do uso da força de trabalho visando o aumento do sobretrabalho; mas nada fala sobre a produção e realização do mais valor, sobre o tempo de trabalho não pago;
  • a área de produção e logística preocupa-se em criar, ensinar e aplicar técnicas que controle a produção e a circulação de mercadorias, mas nada fala sobre a preponderância do valor de troca na decisão do que é produzido socialmente e no impacto dessa produção para a natureza e para os seres humanos;
  • a área de finanças chama tudo de capital, mas na prática está ocupando-se com as funções específicas do dinheiro. Se ocupar do dinheiro enquanto capital, isso somente os CEOs e, estes, com raras exceções, passaram pelas cadeiras dos cursos de Administração.

Nossos estudantes aprendem as técnicas necessárias para controlar o cotidiano das operações necessárias à produção capitalistas, mas não sabem o que é o Capital.

E, enquanto não souberem o que é o capital, está tudo bem, para o capital!

Afinal, no processo de produção capitalista, aquilo que menos se necessita é de trabalhadores e de  trabalhadoras que compreendam as contradições da relação capital-trabalho, que entenda que o preço do arroz tem muito a ver com exploração internacional do trabalho e a política de gestão governamental. Para o capital, é muito importante que os gestores intermediários não entendam de orçamento do estado, de juros da dívida, de sistema financeiro internacional, de políticas de combate ao trabalho análogo à escravidão, do funcionamento do BNDES, da relação entre o financiamento do BNDES ao Agro é POP e as queimadas em uma faixa territorial que vai do Amazonas à Mato Grosso do Sul. Entender que essas queimadas expressam um processo atual de acumulação primitiva (ou originária), base para a expansão ampliada do capital, está longe de ser ensinado nos currículos dos administradores.

Afinal, pesquisamos e ensinamos sobre o lucro, mas não falamos sobre o valor; pesquisamos e ensinamos sobre o salário, mas não falamos sobre o que determina o valor da força de trabalho, falamos de competências, mas não demonstramos para que serve o uso da força de trabalho. É por isso que uma Administração que cinde a realidade em duas partes, colocando um delas debaixo do tapete é algo que só interessa a quem compra força de trabalho (e para quem atrai para si o mais valor via capital portador de juros), porque até para ser empreendedor que acumula capital – e não só empreendedor por necessidade – é preciso entender que não se produz por produzir, para ter renda, mas se produz para acumular. Por isso fala-se tanto em empreendedorismo, desde que ele não toque o chão da realidade dos milhões de trabalhadores precarizados que necessitam empreender.

Assim, ao cindir a realidade em dois processos e não se perscrutar o processo de valorização e suas consequências para a humanidade, a Administração, de forma geral, se torna uma formação ideal que assume a função de ciência ideológica – função que é sustentada pelo caráter tecnicista e superficial dos conteúdos. Uma ciência ideológica que serve a manutenção de um processo geral de exploração e de opressões. Romper com isso não é uma tarefa colocada nas grades curriculares dos cursos, na verdade, segundo o Banco Mundial, essas devem objetivar o adestramento da classe trabalhadora. Romper com isso é um compromisso ético entre educadores e educandos, mas não porque é necessário formar profissionais, mas porque é desejo romper com uma sociedade de desigualdades. Afinal, somente é possível sermos humanamente diversos, como desejam os múltiplos movimentos sociais identitários, em condições de igualdade.

E, aqui se coloca o grande desafio para pesquisadoras e pesquisadores, professoras e professores que anseiam se comprometer com uma ciência e uma educação libertadora: estudar e ensinar o que são as relações sociais segundo o modo capitalista de produção para irmos além dele e não apenas reproduzi-lo. E nesse processo, Marx é um grande camarada! Eis, porque, o rechaço ao pensamento marxiano e aos marxistas – na Administração em particular, mas também nas demais ciências – é tão necessário para deixar as coisas como estão: c’est la vie!. Eis porque antes de perguntar sobre a atualidade do pensamento de Marx para a ciência, deveríamos nos perguntar porque ele não seria, já que as coisas mudaram, sim; mas não de forma revolucionária! Como marxista, confesso… anseio pela desatualização do pensamento marxiano!

Notas:

*Este texto está baseado na fala da autora em uma mesa intitulada “55 anos da Profissão de Administrador no Brasil” que contou com a participação do Professor Cláudio Gurgel, Profa. Carolina Adiona, Profa. Elizabeth Mattos, Profa. Tânia Fischer e a autora deste texto. Para acessar o debate na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=lNKsw-Qcxcs&feature=youtu.be

[i] Essa pesquisa teve apoio do CNPq e da FAPEMIG. Nela realizou-se um survey, grupos focais, entrevistas em profundidade

[ii] A categoria ideologia aqui expressa o produto de relações sociais cujo conteúdo são ideias (formação ideal) que aos serem propagadas conduzem outros indivíduos a decidirem agir de forma que sua ações reproduzem as condições concretas necessárias à permanência de relações exploratórias e opressoras.

¹Doutora, Mestra e Bacharela em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com um período de estágio-doutoral no Centro de Investigação em Sociologia Econômica e das Organizações (SOCIUS) do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa. Professora Adjunta no Departamento de Ciências Administrativas e Professora Permanente do Centro de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração – Cepead – da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais. 

Como citar:
FERRAZ, Deise Luiza da Silva. Produção de Conhecimento em Administração e seu ensino: Enquanto não soubermos o que é o capital, está tudo bem… In: Nuevo Blog, 25 set. 2020. Disponível em:  https://nuevoblog.com/2020/09/25/producao-de-conhecimento-em-administracao-e-seu-ensino-enquanto-nao-soubermos-o-que-e-o-capital-esta-tudo-bem/ . Acesso em: ??

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