A Descompensação do Indivíduo e a Fragmentação do Coletivo em Um dia de Fúria

Fonte: Foto reprodução do filme “Um Dia de Fúria”

Egon Bianchini Calderari¹

Como manter a sanidade frente a tantas irracionalidades que perpassam a vida na modernidade? Essa não será, sem dúvida alguma, a resposta encontrada no filme “Um Dia de Fúria” (Falling Down, Joel Schumacher, 1993), uma narrativa sobre a trajetória de William Foster (Michael Douglas), um sujeito ressentido que, ao fracassar no alcance de seus objetivos sociais, expurga sua fúria acumulada contra a sociedade. Apesar da impossibilidade de encontrar respostas às aflições vivenciadas na contemporaneidade, é possível, por intermédio da análise do longa-metragem, propor algumas reflexões sobre alguns dos aspectos constitutivos da organização social moderna. De forma breve é o que se pretende fazer nesta pensata.

Para que possamos compreender a amplitude da obra, é necessário primeiramente contextualizar o protagonista em seu momento histórico. Como herdeiro do Estado de Bem-Estar Social (orientação político-econômica predominante até meados da década de 1970 nos países capitalistas centrais), caracterizado por um alto nível intervencionismo estatal como meio para manutenção do crescimento da produção e do consumo internos, repentinamente se vê desorientado pelas modificações estruturais instituídas pelo sistema socioeconômico: maior liberdade em detrimento da segurança, diminuição dos salários pela priorização dos lucros, preferência pela adaptação ao invés da especialização constante[i].

Dentro do novo modo de produção capitalista, estas mudanças de caráter sociotécnico passaram a exigir a adoção de novos parâmetros métricos de avaliação, como a valorização da multifuncionalidade das trabalhadoras e trabalhadores, a submissão da subjetividade dos sujeitos aos interesses dominantes e o autocontrole rígido sobre a mente e o corpo, no que poderíamos denominar como um estado de “disciplina flexibilizada”. O trabalho estático e a dependência funcional da organização, desenvolvida pelos herdeiros da sociedade industrial do século XX, passam a ser considerados um grande empecilho as pretensões do capital, que prefere a liberdade de toda e qualquer barreira capaz de fazer frente ao seu processo de reprodução.

Como sujeito constituído em um modelo de sociedade estável, que apesar de exploratória lhe garantia o mínimo para sua sobrevivência, o protagonista se vê em repentinamente abandonado a própria sorte, ao ser demitido da empresa em que trabalhava. O novo espírito do capitalismo[ii], muito mais violento e desagregador e menos depende da força humana viva para o alcance de seus objetivos financeiros (que nunca são suficientes), decidiu que não mais necessita dele. O caráter social gregário, responsável por torná-lo apto a convivência na sociedade industrial agora se encontra em ruína[iii].

A formação psicossocial de Foster não o preparou para a mudança que agora enfrenta. Todos os esforços que mobilizou direcionados à sua ascensão social foram frustrados. O próspero sonho americano foi permanentemente cancelado. Como não há simplesmente a possibilidade de se desligar do sistema sem que isso implique em sua imediata marginalização, resta ao protagonista direcionar toda sua fúria contra a própria estrutura que o excluiu. Seu ódio, expurgado ao exterior de seu corpo, não é nada mais do que o resultado do acúmulo das pulsões instintivas que agora não são mais sublimadas por intermédio do trabalho[iv].

Percebe-se um tensionamento do protagonista entre a passividade de seu passado, estático e imutável e a dinâmica de seu presente inseguro. Duas cenas são capazes de simbolizar o conflito existencial experimentado pelo sujeito frente ao processo de corrosão de seu caráter individual[v]: na primeira, observa imóvel os funcionários de um banco recorrerem à polícia para dar cabo de uma solitária manifestação, em frente à instituição, de um sujeito inconformado com as práticas excludentes adotadas pela agência para não lhe conceder crédito. Na segunda, ataca com uma bazuca uma o canteiro de obras públicas, após avaliar, por parâmetros duvidosos, que os gastos públicos ali dispendidos representam desperdício. Sua raiva aqui pode ser traduzida como o resultado de seu ressentimento frente a um sistema político-econômico que foi incapaz de manter suas garantias e protegê-lo da insegurança do desemprego. É possível levantar, a partir da análise de ambas as passagens, uma questão: por que ele não ataca o banco com a mesma intensidade com que destrói a obra pública (ou ainda o mercado localizado na periferia em uma das cenas iniciais da película) e opta por assistir passivamente o homem negro sendo arrastado pelos policiais à delegacia pelo simples fato de protestar pacificamente, se suas próprias reivindicações convergem com as dele?

Estas ações irrefletidas são o produto de sua incapacidade em perceber o período atual vivenciado como uma continuidade do período de prosperidade material vivido anteriormente e não como um antagonismo refletido na derrota do sistema de garantias anterior, cuja força foi insuficiente para suportar as pressões do novo, inseguro e fragmentado mundo do trabalho[vi]. Não há de fato rompimento finalístico, dado que os fins visados permanecem os mesmos. Deste modo, dada a impossibilidade em prospectar um futuro com um menor sofrimento, seria talvez para o protagonista mais suportável atentar contra as ruínas do passado do que enfrentar um presente reativo?

Abandonado a sorte e fragilizado pelo seu sentimento de inutilidade, Foster sofre. Mas, apesar de vilipendiar e atentar contra a estrutura da qual é refém, no fundo ele deseja restaurar a normalidade anterior e retirar os obstáculos que foram erguidos em seu caminho, que o impedem de se adaptar aos novos tempos. O protagonista busca um modo de se conciliar com a estrutura que o descartou. E, como a destruição da solidariedade no interior do sistema capitalista, produto da alienação do trabalho, impede a reelaboração coletiva do problema, o protagonista é expelido em uma solitária e compulsiva jornada na busca por sua redenção. Sua jornada é egoísta e sua sanidade é o custo a ser pago pela sua inadequação aos novos tempos.

Em sua busca pelo retorno às condições de seu equilíbrio anterior, ele direciona seu ódio para todos aqueles mais vulneráveis economicamente do que ele, tendo no sadismo uma frustrada tentativa de autoafirmação o prazer que lhe foi cerceado pelo desemprego. Como individuo unidimensional, que não é capaz de aprofundar sua reflexão consciente para além da análise de sua condição aparente[vii], elege-os como culpados pelo seu fracasso, retirando de si a responsabilidade sobre os resultados lastimáveis de uma sociedade imponente, a qual apoio enquanto era julgado útil.

O protagonista não é capaz de perceber que o ódio que expurga contra os mais vulneráveis não resultará em sua redenção, materializada pela regressão do sistema às condições anteriores, nas quais julga-se apto. Pelo contrário, fará com que as engrenagens que movem a máquina à frente acelerem ainda mais rápido, libertas das frágeis (mas existentes) amarras éticas e morais que ainda a impedem de operar com sua máxima eficiência. E por não perceber sua culpa frente a tudo aquilo que o indigna, na tentativa de escapar do trajeto das hélices do moinho satânico que tritura a tudo e todos[viii], sacrificará qualquer um (inclusive a sua própria família) lutando para permanecer intacto.

A irracionalidade de um sistema que nunca cumpre suas promessas civilizatórias cria e difunde, de forma generalizada, o medo e a insegurança e impede a formação de vínculos sociais afetivos e solidários[ix]. A violência que irrompe na contemporaneidade é assim violência do e para o próprio sujeito como o reflexo da incapacidade de canalizar, dentro de um sistema que altera constantemente as regras do jogo, as energias pulsionais à produção de bens culturais coletivos. Em uma sociedade competitiva, fragmentada e individualizada, o ódio é, como expressão, o último e desesperado recurso para manutenção do ego individual ao custo da autodestruição dos espaços democráticos, no que se traduz como uma espécie de patologia crônica que se manifesta na aversão ao outro e produz a banalização das injustiças sociais[x].

“Um Dia de Fúria” se apresenta como uma obra cinematográfica complexa, cuja narrativa evidencia as contradições da vida social, permeada pelas relações socioeconômicas condicionadas ao modelo produtivo vigente, e desconstrói o mito do herói, ainda hoje tão presente nos discursos que permeiam as redes sociais humanas, sejam virtuais ou não. A autonomia do super-herói foi expropriada juntamente com a sua última reserva financeira, e não lhe resta mais possibilidade de salvação, dado que sua necessidade primária é a manutenção da sanidade, a despeito das descompensações. Ele se tornou um produto obsoleto e a representação máxima de uma sociedade sem passado ou futuro, que não mede as consequências do viver o presente como um fim em si.

Referências:

[i] BOLTANSKI, L; CHIAPELLO, È. O novo espírito do capitalismo. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

[ii] Idem item i.

[iii] FROMM, E. Psicanálise da sociedade contemporânea. 10ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1983.

[iv] MARCUSE, H. A noção de progresso à luz dapsicanálise. In: MARCUSE, H. Cultura e psicanálise. Paz e Terra: São Paulo, p. 112-139, 2001.

[v] SENNETT, R. A corrosão do caráter. Rio de Janeiro: Record, 1999.

[vi] ANTUNES, R. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviço na era digital. São Paulo: Boitempo Editorial, 2018.

[vii] MARCUSE, H. A ideologia da sociedade industrial. 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.

[viii] POLANYI, K. A grande transformação. 7ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000.

[ix] Idem item iv.

[x] DEJOURS, C. A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro: FGV Editora, 1999.

¹Mestre em Administração pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Aplicadas do Paraná.

Como citar:
CALDERARI, Egon Bianchini. A Descompensação do Indivíduo e a Fragmentação do Coletivo em Um dia de Fúria. In: Nuevo Blog, 24 out. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/10/24/a-descompensacao-do-individuo-e-a-fragmentacao-do-coletivo-em-um-dia-de-furia/. Acesso em: ??

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