Precisamos falar sobre saúde mental na pós graduação: construindo um grupo de apoio

Caio César Coelho Rodrigues¹

Lígia de Azevedo Rezende²

O setembro amarelo já acabou, mas cuidar da saúde mental é um trabalho para o ano inteiro. Uma pesquisa recente mostrou que 84,3% dos pós-graduandos da faculdade de Direito da USP adoeceram psicologicamente durante a pandemia e 31,4% deles não têm conseguido produzir [i]. Mas os problemas com os níveis de stress dos pós-graduandos vêm de longa data[ii]. De acordo com uma pesquisa publicada pela Nature, os estudantes de pós-graduação têm seis vezes mais chances de desenvolver distúrbios como ansiedade e depressão do que o restante da população[iii] . A mesma pesquisa indica, ainda, que as universidades e os orientadores têm papel central na causa e no cuidado de tais problemas.

Impulsionados não só pela relevância do tema, mas também pelo nosso diagnóstico pessoal de ansiedade e depressão, eu (Caio) e alguns colegas da pós-graduação resolvemos criar um grupo de apoio dentro da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EAESP), em julho de 2019. Felizmente, a iniciativa contou com todo o suporte da instituição, da coordenação do curso e dos professores. Inicialmente não sabíamos como seria o formato e a dinâmica do grupo, e inúmeras ideias surgiram: palestras sobre saúde mental, acompanhamento psicológico, ou rodas de conversa e partilha.

Esse último formato se mostrou mais promissor e, quinzenalmente, passamos a nos reunir em roda em uma das salas da escola, compartilhando nossas experiências pessoais uns com os outros. A cada encontro, diferentes temas importantes no universo da pós-graduação surgiam: relação com o orientador, problemas burocráticos, pressão por publicação, pressão da família por não estar trabalhando, entre muitos outros. Além dos encontros presenciais, também foi criado um grupo de mensagens no Whatsapp, onde os alunos podem compartilhar seus problemas pessoais e pedir ajuda dos colegas, bem como conseguir informações valiosas sobre as matérias, os cursos e a estrutura burocrática da Fundação.

O grupo, que começou como um teste com apenas 8 pessoas, ganhou corpo e em menos de um ano já tinha mais de 40 participantes no grupo de mensagens do Whatsapp. Os calouros de 2020 também abraçaram a ideia: eu (Lígia), que ingressei na escola este ano, passei a   participar e colaborar na organização dos encontros, que tornaram-se virtuais e semanais durante a pandemia. Percebemos que o grupo de mensagens e os encontros do grupo foram fundamentais para que, durante a quarentena, os alunos mantivessem contato, tirassem dúvidas e até se ajudassem com disciplinas e com suas próprias pesquisas. Nas palavras de uma das alunas de mestrado que participa sempre dos encontros:

O grupo de apoio é um espaço de conforto, onde podemos nos abrir e entender que não somos os únicos passando por dificuldades. É uma oportunidade para ajudar e ser ajudado, é quando podemos ouvir e acolher, mas também ser acolhidos. Foi um espaço importante para eu entender as regras da faculdade, me situar e ver que estar na pós não precisava ser nenhum bicho de 7 cabeças. Agradeço por esses espaço e os colegas que conheci.

Além do benefício da criação de uma rede de apoio para os alunos, o grupo também gerou outros bons frutos. Um deles foi o aparecimento, por meio de uma aproximação entre o grupo de apoio e o grupo de representantes discentes, de um canal aberto para conversar com a coordenação e propor melhorias para os cursos de mestrado e doutorado. Dali saíram iniciativas interessantíssimas como a Semana de Integração que acolheu, pela primeira vez, os alunos entrantes nos cursos com uma série de palestras e rodas de conversa sobre os seus próximos anos na instituição. Além disso, neste período de quarentena, conseguimos nos organizar para convidar uma psicóloga especialista em saúde mental na pós-graduação para participar uma vez por mês dos nossos encontros. Ela colaborou apontando caminhos e técnicas para lidar com a ansiedade, bem como indicando muitas leituras que ajudaram o grupo a dar nome e sentido às nossas discussões.

Evidentemente, durante este tempo o grupo de apoio teve as suas dificuldades, com momentos de alta e baixa participação, além de ataques externos de pessoas que invadiram o grupo de WhatsApp forçando-nos a criar um novo com melhores regras de segurança. Mas isso não nos abalou, a organização do grupo entre os alunos sempre tentou ser muito aberta e orgânica e o compartilhamento sempre tentou ajudar os alunos que estivessem passando por momentos difíceis. Já tem um ano e quatro meses que o grupo está acontecendo e percebemos o quanto tem sido importante para os alunos da pós-graduação ter um espaço para compartilhar com os colegas os seus problemas.

É claro que o grupo, sozinho, não consegue resolver todas as causas de ansiedade, depressão e stress, mas ter um ombro amigo para acolher e ouvir sempre é bom. Em casos em que o aluno está passando por uma situação que requeira acompanhamento especializado, encaminhamos para o Pró-Saúde, centro da própria FGV que indica psicólogos, ou recomendamos nós mesmos psicólogos e psiquiatras que os alunos conhecem. Inclusive, se você estiver, em um momento difícil, passando por algum tipo de problema como ansiedade, stress, depressão não hesite em ligar para o 188, o Centro de Valorização da Vida (CVV) que realiza um trabalho de apoio emocional muito legal.

Após esse tempo de grupo de apoio percebemos que as estatísticas do artigo da Nature eram reais, e que muitos dos nossos colegas passavam e passam por problemas parecidos, mas muitas vezes os escondem. Isso acaba afetando não só a vida profissional, mas também pessoal dos alunos. Com isso, a nossa intenção é compartilhar nossa experiência com outros programas de pós-graduação, bem como aprender com os grupos de apoio de outras universidades. Se você participa ou pensa em criar um grupo similar a este entre em contato com a gente, e vamos conversar!

Referências:

[i] BERGAMO, M. Crise adoeceu mais de 80% dos alunos da pós da Faculdade de Direito da USP. Folha de S. Paulo, 25 set. 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/08/reporter-fotografica-registra-detalhes-da-vazia-e-historica-faculdade-de-direito-da-usp.shtml

[ii] DUQUE, J. C.; BRONDANI, J. T.; LUNA, S. P. L. Estresse e pós-graduação em Medicina Veterinária. Revista Brasileira De Pós-Graduação, v.2, n.3, 2005. https://doi.org/10.21713/2358-2332.2005.v2.63

NOVAES MALAGRIS, Lucia Emmanoel et al.. Níveis de estresse e características sociobiográficas de alunos de pós-graduação. Psicologia em Revista, v. 15, n.2, 2009.

[iii] EVANS, T. M. et al.. Evidence for a mental health crisis in graduate education. Nature Biotechnology, v.36, n.3, 2018. https://doi.org/10.1038/nbt.4089

¹Doutorando em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

²Doutoranda em Administração de Empresas e Teaching Assistant na FGV-EAESP.

Como citar:
RODRIGUES, Caio César Coelho; REZENDE, Lígia de Azevedo. In: Nuevo Blog, 29 out. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/10/29/precisamos-falar-sobre-saude-mental-na-pos-graduacao-construindo-um-grupo-de-apoio/ . Acesso em: ??

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