(Re)pensando a população em situação de rua a partir de suas emoções

Fonte: Site Jornal USP (06 abr. 2020) – Foto de Carolina Valtuille/Flickr-CC.

Valdir Costa Junior¹

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada[i], estima-se que o Brasil no ano de 2020 possua aproximadamente 222 mil pessoas em situação de rua. Este número é alarmante, visto que em 2016 a estimativa era de aproximadamente 123 mil pessoas na mesma situação. Em 4 anos, houve um salto de quase cem mil pessoas que fazem das ruas das cidades brasileiras seu lar.

Com esta problemática em mente, propus compreender como estes sujeitos utilizam o espaço urbano, mais especificamente, como ocorrem suas relações sociais e emocionais na urbe. O campo escolhido para a pesquisa foi a cidade de Maringá no noroeste do Paraná, um exemplo de cidade-planejada que sempre figura nas listas das melhores cidades do país para se viver.

Durante o percurso da pesquisa, pude evidenciar como a cidade funciona como um lugar segregador, que tende a expulsar as pessoas que fogem da racionalidade capitalística. Em outras palavras, de forma geral, a cidade de Maringá (leia-se seus gestores e agentes políticos) não considerava as quase 450 pessoas em situação de rua como cidadãos. Essa visão política entra em conflito com diversos grupos assistenciais que buscam ajudar, ou levar algum tipo de conforto para essas pessoas, seja na distribuição de marmitas, doação de roupas, banhos comunitários, entre outras atividades.

Assim, podemos perceber que as relações da população em situação de rua vão além de seus pares, ela se estende pela cidade com seus demais membros. Com essa percepção, procurei desmistificar a noção de que os sujeitos que moram na rua não possuem vínculos afetivos duradouros, que suas relações sejam frágeis e passageiras, conforme promulgado por um Decreto Nacional.

Recentemente temos trabalhos nos Estudos Organizacionais que retratam os sujeitos situação de rua[ii]. Contudo, estes trabalhos não contemplam diretamente seus aspectos emocionais. Durante meu ano em campo, pude vivenciar e fazer parte de diversas relações afetivas, as quais transbordavam emoções. Relações que iam desde o ser casado morando nas ruas, o estar/ser doente, a morte, e o luto. Ouvi relatos de pessoas que estão há mais de trinta anos na rua, tantas outras que fugiram de suas casas por viverem situações de abusos físicos e psicológicos. Para essas pessoas, a rua foi a saída dessas situações. Esses acontecimentos emocionais complexos, não só para as pessoas em si, mas também para mim, que acompanhava essas histórias, fizeram-me pensar em como nossos cotidianos são marcados por uma dinâmica emo-social.

Esta dinâmica permite-nos pensar como nossas relações sociais são permeadas pelas emoções, sendo que essas não devem ser compreendidas como inimigas da razão. As emoções são socialmente, historicamente e culturalmente construídas[iii]. Nossas emoções são frutos de nossas histórias, vivências e experiências. As emoções não fazem apenas parte do nosso cotidiano como algo dado, elas o constituem e são inerentes de cada sujeito, estando e sendo presentes em nossas maneiras de interação e de relações com o outro e com a cidade; portanto, são mediadoras entre as interações sociais e espaciais.

A partir deste olhar, é possível levantar algumas questões, como, por exemplo: quem são essas pessoas em situação de rua? O que elas sentem? De onde, de qual contexto elas vieram? Como elas se relacionam? O que elas passam no seu dia-a-dia? Essas questões podem evocar respostas que fogem do senso-comum de que quem mora na rua é porque gosta, ou porque é drogado, não gosta de trabalhar, etc. Esta pode ser a realidade para alguns desses sujeitos, mas não podemos generalizar. É necessário que ouçamos suas histórias, que acompanhemos suas vivências para poder compreender a atual e real situação de vida deles, e inclusive, sua relação com a cidade e os demais habitantes de onde vivem.

Não deveria ser preciso dizer, mas precisamos enxergar essas pessoas como humanas, visto que já fora evidenciado que muitas vezes a sociedade não os enxerga como tais[iv], ou que essas pessoas possuem animais de estimação na rua, além de forma de proteção e companheirismo, como forma de humanização[v]. Advogo que, mais do que importante, esses questionamentos e esse olhar sobre a população em situação de rua são necessários, independente do local que elas vivam, como maneira de melhor compreendê-los, como forma, inclusive, de pensar políticas públicas com eles, e não somente para eles. As pessoas em situação de rua estão em todos os lugares, estão aqui na minha cidade e na sua. Por que não os enxergar como seres humanos de fato e como cidadãos como eu e você?

Referências:

[i] INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Nota Técnica – 2020 – Junho – Número 73 – Disoc – Estimativa da população em situação de rua no Brasil (setembro de 2012 a março de 2020). Disponível em: <https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=35812>.

[ii] Ver: HONORATO, B. E. F.; SARAIVA, L. A. S. Cidade, População em Situação de Rua e Estudos Organizacionais. Desenvolvimento em Questão, v. 14, n. 36, p. 158-186, 2016.

HONORATO, B. E. F.; SARAIVA, L. A. S.; SILVA, E. R. A Construção Social da Ordem e da Subversão nos Discursos da (e sobre a) População em Situação de Rua de Belo Horizonte. Revista Organizações em Contexto, v. 13, n. 26, p. 339-383, 2017.

SANTOS, L. T. D.; SOARES, F. M. A. Práticas de controle físico e simbólico no centro de Belo Horizonte. Farol – Revista de Estudos Organizacionais e Sociedade, v. 4, n. 11, p. 1578-1626, 2017.

[iii] LUTZ, C. Unnatural Emotions: Everyday Sentiments on a Micronesian Atoll and Their Challenge to Western Theory. Chicago: University of Chicago Press, 1988.

[iv] KUNZ; G. S. Os Modos de Vida da População em Situação de Rua: Narrativas de Andanças nas Ruas de Vitória/ES. 133p. 2012. Dissertação – Mestrado em Psicologia Institucional, Universidade Federal do Espírito Santo.

[v] CUNHA, J. G. da. Pessoas em situação de rua e seus cães: fragmentos de união em histórias de fragmentação. 2015. 205p. Dissertação – Mestrado em Psicologia Institucional, Universidade Federal do Espírito Santo.

¹Mestre em Administração pela Universidade Estadual de Maringá (UEM).

O texto faz referências a dissertação “Práticas emocionais e de organização na cidade: uma etnografia com um grupo que atua com a população em situação de rua de Maringá, PR.” de autoria de Valdir Costa Junior sob orientação da Profa. Dra. Josiane Silva de Oliveira. A defesa ocorreu em 19 de maio de 2020, com banca composta pela Dra. Ana Lúcia Rodrigues e pela Dra. Priscilla Borgonhoni Chagas.

Como citar:
COSTA JUNIOR, Valdir. (Re)pensando a população em situação de rua a partir de suas emoções . In: Nuevo Blog, 26 nov. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/11/26/repensando-a-populacao-em-situacao-de-rua-a-partir-de-suas-emocoes. Acesso em: ??.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s