Reflexões acerca da Pesquisa Qualitativa

Por Adrianne Garcia

A pesquisa qualitativa abre um mundo de possibilidades ao pesquisador. Seu termo abrangente cobre diversos conceitos, técnicas, métodos e procedimentos, possibilitando novos caminhos para várias áreas, mas, sobretudo, para a área de estudos organizacionais[i] . O “fazer” de uma pesquisa qualitativa é algo único e distinto em cada estudo. Ainda que o campo já tenha sido desbravado anteriormente, o olhar particular de cada pesquisador torna a sua pesquisa única. A maneira de se entender um fenômeno, de acordo com seu conhecimento e sua experiência de mundo, torna a jornada da pesquisa algo singular.

De modo geral, nós, enquanto pesquisadores, pouco nos preocupamos em registrar essa jornada e em refletir sobre o “fazer” pesquisa. Ocupamo-nos em gerar um arcabouço teórico consistente, uma metodologia bem construída, uma análise bem fundamentada (de preferência utilizando softwares que respaldem nossos achados) e conclusões sólidas, mas desprezamos o refletir de cada passo dado nessa jornada.

Essa construção da pesquisa deve ser levada tão a sério quanto os resultados que se apresentam, tendo em vista que é nessa jornada em construção que o pesquisador decide quais caminhos seguir, quais métodos adotar, quais técnicas aplicar ao seu objeto de estudo. As escolhas feitas irão dar o tom da pesquisa, criando-se, assim, uma identidade qualitativa única. As conclusões as quais se chegam são consequências também dessas decisões, de modo que se faz importante discutir acerca do caminho que o pesquisador percorreu para chegar até elas.

Apesar de todas as orientações teóricas sobre o desenvolvimento de uma pesquisa, a prática nos revela que existem outras tantas questões peculiares de cada campo que ainda não haviam emergido e que precisará de um olhar crítico do pesquisador. Tendo em vista isso, compartilho nessa pensata algumas das minhas reflexões e inquietações no processo de pesquisa da minha dissertação, no ano de 2017.

Quando comecei a escrever o capítulo da metodologia na dissertação, senti a necessidade de refletir e responder algumas perguntas: Por que realizar uma pesquisa qualitativa? Qual a sua relevância? Quais tipos de achados poderão ser revelados por meio dessa abordagem? Essa abordagem se adequa à proposta de pesquisa que irei desenvolver? A pesquisa qualitativa guarda importante relevância nos estudos das relações sociais, tendo em vista a crescente individualização das formas de vida e padrões biográficos[ii]. É necessário desenvolver uma certa sensibilidade para os estudos empíricos que envolvem as relações sociais, pois as mudanças sociais nas esferas de vida têm trazido novas situações e contextos que devem ser enfrentados pelo pesquisador.

Selecionar e delimitar os sujeitos da pesquisa também foram passos bastante importantes, assim como tantos outros nesse percurso, e que mereceram um espaço para reflexão: quem são esses atores? Por que optei por selecioná-los? Quais critérios foram utilizados nessa escolha? Isso porque, ao selecionar e delimitar sujeitos, estaria diante dos atores que compartilhariam comigo as informações necessárias para o meu estudo, a fonte de dados de onde surgiriam as mais diversas riquezas em termos de qualidade de dados e informações.

Ainda nesse aspecto, há que se falar em uma limitação bastante comum entre os pesquisadores: muitos deles enfrentam o problema da falta de acessibilidade em seu campo de pesquisa. Isso pode ocorrer por desinteresse do pesquisado, por desconfiança sobre o tratamento das informações que serão compartilhadas, por falta de tempo, ou, ainda, por dificuldades que o pesquisador tem de conseguir entrar em contato pelo meio adequado ou mais efetivo. Algumas informações encontram-se defasadas em bancos de dados ou são inexistentes. Uma das consequências mais comuns dessa situação é o atraso no cronograma do pesquisador.

Das onze (11) empresas disponíveis para investigação, decidi delimitar o campo utilizando alguns critérios; dessa forma, restaram seis (6) empresas. Das seis (6) empresas contatadas, quatro (4) responderam prontamente. Uma delas retornou o contato apenas depois que a pesquisa já estava em andamento, e a última não retornou. Posteriormente, consegui, por meio de uma pessoa que havia relações com membros dessa última empresa, um retorno da organização. Os membros se recusaram a participar da pesquisa.

No que diz respeito à coleta de dados, precisei refletir sobre as melhores técnicas para acessar as informações que desejamos obter. Nesse caso, utilizei triangulação dos dados por meio de quatro técnicas de coleta: entrevistas, focus group, observação não participante e análise de documentos. Darei um maior destaque à entrevista.

No decorrer da minha pesquisa de mestrado, o problema mais comum nas entrevistas foram resposta curtas demais ou longas demais. Ao narrar suas estórias, percebi que os membros mais antigos da empresa sentiam necessidade de relembrar algumas situações, ainda que não tivessem relação com o que lhe foi perguntado, e acabavam por esquecer o que havia sido questionado, sendo preciso um redirecionamento à questão. Por outro lado, os membros mais recentes tentavam responder de forma objetiva e encerrar o compromisso da entrevista o mais rápido possível.

Nesses casos, foi necessário improvisar fora do roteiro de entrevista, fazendo perguntas sobre situações as quais o entrevistado tivesse orgulho de contar sobre o seu envolvimento, ou, ainda, perguntas que envolvessem sentimentos ou percepções, de modo a estabelecer laços mais estreitos com o entrevistado, fazendo-o se sentir mais à vontade para responder aos questionamentos propostos de maneira mais aprofundada.

Percebi também que as entrevistas feitas no ambiente de trabalho eram constantemente interrompidas por demandas de trabalho por parte de colegas – embora a condição principal para a escolha do local de entrevista fosse que não houvesse outras pessoas presentes ou em constante trânsito – e o recebimento de telefonemas. Estar no local de trabalho, em alguns casos, trazia à tona a sensação de urgência em finalizar a entrevista, tanto para o entrevistado quanto para a pesquisadora.

Assim, fiz-me o seguinte questionamento: qual o local mais adequado à realização de entrevistas individuais? De acordo com a experiência vivida, e apesar de não haver uma resposta correta sobre o assunto, é provável que os locais mais distantes possíveis do trabalho do entrevistado, ou que contenham menos distrações possíveis seriam os mais adequados.

Em reflexão sobre a sua experiência enquanto pesquisadora, Duarte (2002[iii]) considera que a residência do entrevistado seja o local mais apropriado para tal coleta. Em contrapartida, particularmente não acredito que seja uma fácil tarefa convencer o entrevistador a ceder tal espaço pelos seguintes motivos: (1) falta de intimidade com o pesquisador; (2) ficar preso ao tempo de entrevista que o pesquisador desejar; (3) não ter disponibilidade ou não desejar fazer uso do seu horário de descanso para tal atividade. É possível que haja o consentimento por parte de algum dos entrevistados, mas essa prerrogativa não será garantia de que haverá um andamento tranquilo e fluido na entrevista, podendo aparecer outras interrupções de cunho familiar.

O ideal, penso eu, talvez seja ter uma conversa franca e aberta com o entrevistado sobre a necessidade de ser objetivo nas respostas, sem demais detalhes desnecessários, bem como sobre a necessidade de que seja um tempo de qualidade, possivelmente sem interrupções. Ainda que não seja uma tarefa fácil, o pesquisador deve tentar conduzir essas situações ao máximo para que a sua entrevista seja produtiva.

Uma das limitações que percebi na coleta de dados, em geral, foi a desconfiança dos respondentes. Em algumas empresas em que estive, os colaboradores ficavam relativamente à vontade com a minha presença, conversavam sobre alguns assuntos relevantes, mas com uma certa cautela no que diz respeito aos assuntos confidenciais. O diretor-presidente de uma das empresas me disse claramente que eu não poderia observar uma das reuniões, por conter informações sigilosas sobre a empresa.

Mesmo com a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e o Termo de Anuência, em que me comprometo em tratar os dados de maneira sigilosa e não publicar nenhuma informação sem o devido consentimento, os participantes se sentem temerosos em serem completamente transparentes em suas respostas ou serem completamente autênticos em suas reuniões e rotinas de trabalho.

Segundo Víctora, Knauth e Hassen (2000, p. 56-57[iv]), “há uma tendência natural do pesquisado de oferecer respostas ao pesquisador que ele creia serem do interesse do último e assim apresentar uma falsa imagem de si, com o intuito de agradar ou valorizar-se”. Em alguns momentos da pesquisa, percebi que os entrevistados davam algumas respostas-padrão, sendo necessário ir um pouco mais fundo para extrair respostas mais verdadeiras.

Essa atitude trouxe um questionamento: até que ponto as informações obtidas por meio de reuniões são completamente honestas? Sobre as observações, até onde o ambiente que se observa é, de fato, verdadeiro, genuíno? Se não há profunda transparência na coleta de dados, torna-se incompleta a imagem do que se pesquisa. Nesse sentido, surge outro questionamento: até que ponto as pesquisas de caráter etnográfico, quando o pesquisador é observador participante, seriam mais eficazes do ponto de vista de se obter respostas mais honestas?

Esses e outros questionamentos me fizeram refletir ao longo dos meses da coleta de dados. Muitos outros questionamentos foram feitos ao longo dessa jornada – muitos deles ainda sem respostas – mas essa conversa fica para um outro momento.

Refletir e fazer as perguntas certas, penso eu, é como afiar um machado: investimos algum tempo para deixá-lo da maneira adequada para uso, porém, uma vez que conseguimos tal feito, o golpe tende a ser mais certeiro. O tempo despendido em organizar metodologicamente a pesquisa é, sem dúvida, muito bem gasto. Nesse processo, o refletir e questionar torna-se necessário. Quanto mais certeiros e intencionais formos nessa prática, mais recompensadora será nossa pesquisa.


[i] IKEDA, A. A.. Reflections on qualitative research in business. Revista de Gestão, v.16, n.3, 2009.

[ii] FLICK, U.. Introdução à pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Artmed, 2009.

[iii] DUARTE, R.. Pesquisa qualitativa: reflexões sobre o trabalho de campo.Cadernos de Pesquisa, 2002.

[iv] VÍCTORA, C.; KNAUTH, D.; HASSEN, M.. Pesquisa qualitativa em saúde: uma introdução ao tema. Porto Alegre: Tomo, 2000.


Adrianne Garcia é Doutoranda em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Como citar:
GARCIA, Adrianne. Reflexões acerca da Pesquisa Qualitativa. In: Nuevo Blog, 27 nov. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/11/27/reflexoes-acerca-da-pesquisa-qualitativa/. Acesso em: ??

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